Aprender na cidade

E se as histórias caíssem do céu?

A comunidade carioca do Morro de Santa Marta desfrutou uma manhã única no dia 23 de abril de 2015. Nesta data, na qual se comemora o Dia Internacional do Livro, as centenas de crianças que habitam o local levantaram suas pipas especialmente produzidas para o momento: seus papéis de seda continham trechos de diversas histórias infantis de autores brasileiros como Ziraldo, Ana Maria Machado, Pedro Bandeira e Roseana Murray, entre outros.

Naquele amanhecer, as 500 pipas distribuídas pelo Instituto Pró-Livro (IPL) rapidamente preencheram a paisagem do morro, colorindo a comunidade e dando vida ao projeto Céu de Histórias, que utilizou um dos brinquedos mais adorados das crianças para estimular a leitura nessa fase tão importante para o desenvolvimento integral.

CeuDeHistorias

O Céu de Histórias contou com 12 modelos de pipas que possuíam diferentes ilustrações. Clique aqui para conhecer os textos, os desenhos e imprimir a sua própria pipa!

“É uma forma de criar uma representação mais positiva em relação ao livro e à literatura”, explica Zoara Faila, gerente executiva de projetos do IPL. Para ela, uma experiência prazerosa relacionada às histórias escritas pode aumentar o número de leitores na região. “Essa ação abre uma oportunidade para as crianças explorarem esse universo que é a literatura, além de utilizar o espaço de uma forma democrática, criativa e lúdica.”

Uma pipa solta no céu está em disputa, e os organizadores não enxergam isso como um problema. Ao contrário: a pipa cortada cairá em outro local da comunidade e será lida por ainda mais crianças. Ao final da brincadeira, inúmeras cópias dos livros que tiveram fragmentos utilizados na ação foram doados à biblioteca comunitária. “Queremos que a pipa crie curiosidade e seja um convite para as crianças lerem o livro na íntegra”, afirma Zoara.

CeuDeHistoriasA terceira edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2012) revela que 88% dos leitores afirmam que ganhar livros foi importante para despertar o gosto pela literatura – ao mesmo tempo, 87% dos não-leitores dizem que nunca ganharam um livro. Segundo Zoara, que organizou a pesquisa, as crianças leem principalmente para cumprir uma exigência da escola. “No Brasil, a formação leitora não está acontecendo de uma forma eficaz. Se não há uma promoção adequada da leitura em casa ou na escola, a criança vai ser facilmente atraída pela televisão e internet e deixará de ser protagonista da construção do conhecimento, passando a ser um depositário de informações prontas.”

Desde 2006, o Instituto Pró-Livro contribui para o desenvolvimento de ações que transformem o Brasil em um país leitor.

De acordo com a pesquisa, apesar de ter o maior público consumidor editorial do país, o Rio de Janeiro possui a menor concentração de leitores com idade entre cinco e 13 anos. Zoara vê com simpatia as ações de estímulo à leitura que ocorrem nos espaços públicos (como o projeto Leitura no vagão) e acredita que eles deveriam ser contemplados por políticas públicas para serem ampliados, e não pulverizados.

“É fundamental que essas iniciativas aconteçam em espaços abertos, democráticos, que permitam o acesso a todos – e não um lugar institucional que inibe a presença das pessoas, um espaço não aberto de estudo e pesquisa, como as bibliotecas.” O Céu de Histórias busca patrocinadores para promover a ação em outras comunidades do Rio de Janeiro.