Transformar a cidade

Periferia reúne espaços de resistência e rebeldia frente ao modelo atual de cidades

Ao dar o pontapé inicial ao debate Cidade para quem?, realizado no Seminário Internacional Cidades Rebeldes nesta quarta-feira (10/6), o mediador Sergio Amadeu definiu como turbulenta a vida atual nas periferias brasileiras. “Como é sobreviver na periferia da periferia do capitalismo, onde a polícia mata o que a sociedade acredita ser seu futuro: os jovens?”.

A provocação foi o suficiente para Guilherme Boulos, filósofo e membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), resgatar a história da formação das habitações às bordas das cidades, traçando o paralelo entre o que chama de “dupla dimensão da periferia”: ao mesmo tempo em que é um espaço de opressão, segregação e negação de direitos, é também um lugar onde se formam novas identidades coletivas, produzindo conhecimento popular e gerando, por fim, insurgência e rebeldia.

Ele usa como exemplo o desenvolvimento urbano de São Paulo. “Até um certo período do século 20, não existia periferia. Era tudo chácara e mato, e os trabalhadores moravam lado a lado com a classe média na região central, mas em condições precárias e cortiços”, observa Boulos. Inspirado em processos de segregação urbana que já ocorriam nas grandes cidades da Europa e trocando os bondes por ônibus, as autoridades paulistas começaram a vender lotes de terra no Capão Redondo e no Campo Limpo, deixando áreas relativamente esvaziadas como o Morumbi e o Butantã para a especulação imobiliária.

Periferia“Trata-se de uma política de higienização baseada na modernização reacionária”, define, “pois além de valorizar as áreas centrais, o poder público ganhou dinheiro vendendo essas terras e, acima de tudo, conseguiu isolar os pobres.”

Além de ser um território que carece de infraestrutura e serviços básicos, a periferia é palco de extermínio da juventude negra. Boulos relembra morte de 926 pessoas pela polícia militar de São Paulo em 2014. “93% desses assassinatos aconteceram na periferia. A lógica segregacional diz que quem mora lá já e suspeito – se for jovem e preto, então, já está condenado.”

Na última década, esse modelo de desenvolvimento se intensifica através de um maior acesso ao crédito público para a produção e o consumo. “Grande parte desse crédito foi para o setor de construção civil e imobiliário – que ao lado dos bancos é um dos setores que mais lucrou no país nos últimos tempos. Desde o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), passando pelo Minha Casa, Minha Vida e por várias obras de urbanização na cidade, curiosamente realizadas pelas mesmas construtoras, podemos falar que essa década foi a do capital imobiliário”, reclama o filósofo.

Os números comprovam a tese de Boulos. Em 2005, o crédito imobiliário para financiamento de construções era de aproximadamente R$ 4 bilhões. Nove anos depois, em 2014, esse número saltou para R$ 100 bilhões. “Isso não acontece sem efeitos colaterais”, afirma. Entre 2008 e 2014, o valor da terra e do aluguel teve uma valorização maior que 200% em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.

PeriferiaEsse aumento impulsiona a exclusão. “Quem morava em Itaquera acaba indo morar em Ferraz de Vasconcelos”, observa Boulos. Ferréz, escritor que baseia sua obra no universo periférico, é exemplo vivo desse processo: “Eu mesmo saí do Capão Redondo e fui morar em Itapecerica da Serra”. “A cidade moderna é uma máquina de criar novos sem-teto a cada dia, despejando, excluindo e jogando para longe ou para a rua”, lamenta Boulos.

Um dos coletivos periféricos de maior expressão nacional, o Movimento Mães de Maio, que se formou após as chacinas cometidas pela polícia militar paulista em maio de 2006, foi convidado para participar do Seminário, mas recusou devido a uma série de questões. Leia a carta A rebelião não será gourmetizada.

Para a socióloga Vera Telles, uma das autoras da obra Saídas de Emergência – Ganhar/perder a vida na periferia de São Paulo, o urbanismo militarizado em vigência no Brasil (onde espaços urbanos são colonizados através da lógica da guerra, como as Unidades de Polícia Pacificadora nos morros cariocas) multiplicou os conflitos na periferia: “Muito antes de junho de 2013 vêm acontecendo sucessivas queimas de ônibus, rebeliões urbanas em protesto contra violência policial, protestos organizados em torno da questão de moradia”, argumenta.

Como consequência, Vera vê o surgimento de um “caleidoscópio” de coletivos e novas formas de ativismo que reúne diversos moradores, lideranças de movimentos, jornalistas, advogados, acadêmicos e ativistas. “Nasce um campo político multiforme e mutante que escapa das teorias dos movimentos sociais e das formas domesticadas de participação, como conselhos, fóruns e partidos”, acredita. “São sinais da insurgência urbana, que coloca em risco e ameaça a tranquilidade da cidade-mercado.”

Daniel CastanhoBoulos usa uma frase do movimento piqueteiro argentino para resumir o significado social e político em relação ao que são as periferias urbanas no Brasil: “A nova fábrica é o bairro. A periferia hoje tem o papel e um significado que teve, em outro momento do desenvolvimento capitalista, a fábrica, a grande indústria, um espaço opressor e autoritário, mas que concentrava os trabalhadores e operários e deu uma identidade coletiva para eles”, justifica.

O filósofo aponta ainda que o povo pobre da periferia está se tornando cada vez mais um sujeito político. “A segregação abre espaço para a rebeldia, a resistência no âmbito cultural, social e político. Não será surpresa se nos próximos anos, do solo periférico, brotar cada vez mais espaços de resistência, de questionamento anticapitalista e que lutem para a transformação social desse país.”

Portal Aprendiz realiza a cobertura completa do Seminário Internacional Cidades Rebeldes.