Aprender na cidade

Arte urbana é uma ferramenta poderosa de articulação entre escola e comunidade, defende pesquisadora

Hoje em dia, andando pelas grandes cidades brasileiras, é difícil não encontrar um muro de escola pública que não esteja colorido pelo grafite. Por mais que se sonhe com um mundo em que muros não separem a escola de seu meio e sua comunidade, é possível ver, nos coloridos, o desejo de transcender essa segregação. A arte urbana conversa com quem passa por ela. E essa relação pode gerar inúmeros frutos.

Isso é o que acredita Maria Luiza Viana, Professora Assistente no curso de Design da Universidade Federal de Minas Gerais, que trabalhou em dois grandes projetos da capital mineira que faziam a interface entre arte urbana e educação: o programa Escola Integrada e o Projeto Guernica. Enquanto o Escola Integrada, desde 2007, articula a experiência escolar com o seu entorno na rede pública de Belo Horizonte, o Guernica, que começou em 2000, foi um projeto piloto no qual se trabalhava com os grafiteiros e pixadores para discutir o meio urbano e sua atuação nele, despertando dimensões, conceitos e possibilidades de pesquisas.

“O Guernica tinha um foco grande em pensar o grafite e o pixo na cidade, mas também o sujeito que o faz, que discursos ele carrega, como ele os constrói. Fazíamos oficinas para discutir com os jovens e alargar as concepções de cidade. Foi uma experiência inovadora de escuta, quando esses projetos de juventude começavam a aparecer em Belo Horizonte, que davam voz e visibilidade ao jovem”, lembra Maria Luiza.

O Escola Integrada bebeu da mesma água do Guernica quando escolheu o grafite e a arte pública como ferramenta de aprendizado e transformação. O programa propõe a extensão do aprendizado escolar, com atividades que acontecem pela cidade, e com uma identidade visual de ocupação do espaço público expressa nos muros das escolas, valorizando conteúdos culturais e artísticos.

Sem querer

Mas o que esse tipo de ação pode despertar na cidade? Para a educadora, há um rico potencial nas descobertas que se dão quando uma escola se abre. Ela cita o exemplo de uma escola mineira que, ao conversar com vizinhos sobre a pintura dos muros da região, descobriu um artista plástico que lá habitava. Uma vez em contato com os educadores e estudantes, ele se tornou um oficineiro e colaborador da escola.

Atividade do Escola Integrada no EE Maria das Neves

Atividade do Escola Integrada no EE Maria das Neves

http://emmariadasneves.blogspot.com.br/

Outro processo interessante, segundo Maria Luiza, se deu no Morro do Papagaio, onde um beco abandonado ao lado da escola  foi transformado pela comunidade. Mobilizados pela escola, os moradores ajudaram a rebocar as paredes de tijolo para servir de suporte para as pinturas que demarcariam o trajeto das crianças entre a escola e a oficina.

“A arte urbana tem esse potencial ativador de articulações comunitárias que realmente transforma os ambientes. Não é o poder público chegando em um lugar e ‘melhorando’. São os principais envolvidos mudando e rompendo com estigmas de certos espaços”, confirma Maria Luiza, para quem, a presença das crianças no espaço público carrega uma carga simbólica enorme.

“Até hoje, isso foi em 2010, o lugar ainda mantém as características que lhes foram dadas pela ação da pintura. A arte desencadeia a transformação local e torna permeáveis e transitáveis espaços que antes estavam ociosos”, analisa.

Cidade como currículo

Mas não é só a cidade que se transforma com a educação. A educação também se transforma em contato com a cidade. Na rua, “a experiência da arte se dá de maneira diferente se comparada a uma sala de aula ou um ateliê”, aponta a educadora. “Tendo a cidade como objeto de aprendizado você começa a perceber seu entorno, absorvendo elementos que estão ali no ambiente como cor, forma, espaço, luz, matéria de superfície”, complementa.

E ela faz questão de ressaltar que essa é uma proposta política também, já que desafia a concepção utilitarista da cidade com apropriações sensíveis e lúdicas e uma outra maneira de ocupar. “É uma saída à cidade do capital, do consumo, do tráfego de automóvel. Abre-se para uma percepção que vai além do aprendizado de artes, mas de biologia, geografia, enfim. É uma oportunidade de recolher tudo o que o ambiente te dá, tudo que está no entorno, processar e de alguma forma depois devolver para a cidade”, propõe Maria Luiza.

Transformando o meio urbano com pinturas, grafites e outros tipos de técnicas como mosaicos, jovens e crianças revertem o fluxo de tempo e de usos de espaço da cidade. Em seu artigo “Expressões Estéticas e Comunidades”, que analisa o projeto Escola Integrada, Maria Luiza lança, ao fim do texto, um pedido esperançoso aos seus concidadãos: “Espera-se que, com o tempo, a cidade de Belo Horizonte reconheça estas marcas, que aos poucos vão se propagando nas ruas, bairros e vilas da cidade. E que através delas perceba outras dimensões e outros fluxos contidos em seus espaços, que mesmo sutis e efêmeras sejam capazes de revelar as capacidades de criação e recriação de quem vive na cidade”.