Pensar a cidade

EUA enxergam educação midiática com nitidez e complexidade

A nitidez característica do olhar norte-americano para questões políticas e sociais, em que cada ponto tem um lugar definido, se explicitou num importante encontro na Filadélfia (EUA). Na ocasião, profissionais do NAMLE (National Association on Media Literacy Education) se integraram a um grupo internacional da UNESCO para traçar parâmetros para uma alfabetização
midiática.

Alexandre Le Voci Sayad é jornalista e educador. É fundador do MEL (Media Education Lab) e autor do livro Idade Mídia: A Comunicação reinventada na Escola, publicado pela editora Aleph.

Ler, analisar e produzir comunicação de qualidade não é um tema obscuro nos Estados Unidos como tem sido tratado pelo governo brasileiro quando, por exemplo, o assunto são as políticas de comunicação. Pelo contrário, a NAMLE reúne de roteiristas de programas de entretenimento do tipo “blockbuster”, mas que de alguma forma trabalham com questões da comunicação, a educadores que desenvolvem trabalhos em escolas com estudantes e produção de mídia.

A ligeireza da maioria dos comentários sobre a grande mídia nas redes sociais tem nos levado, quase que automaticamente, a tratar o tema de forma simplória – algo como “a Veja é do diabo, e a Carta Capital é divina”. Destruir foi sempre mais fácil que construir – provam as duas grandes guerras, que também se estenderam no campo cultural. O importante é que, nessa mistura de tendências e trabalhos, o tema da alfabetização da mídia se prova algo complexo e não maniqueísta.

Nas publicações da NAMLE, e no evento na Filadélfia, pesquisas sobre o tema em países como a Finlândia, Índia, Japão se intercalaram aos cases e estudos norte-americanos no campo da educação e comunicação – estes muito avançados e ao mesmo tempo próximos da sociedade. A representação das mulheres negras nos games, por exemplo, levou uma agência a co-criar com usuários de jogos os seus heróis; assim, uma representação legítima se deu na caracterização dos games criados a partir de então.

Temo que, se a análise de comunicação (e uma educação midiática) continuar a se resumir às críticas rasteiras nas quais nos embaraçamos diariamente, vamos acabar por assumir o papel de algozes levianos e prematuros, e perder o melhor dessa prática.

Não implica nenhum desafio complexo, por exemplo, identificar que o Jornal Nacional manipulou o debate à presidência nos anos 90. Por outro lado, o Nobel de literatura Günter Grass recebeu míseras duas linhas nos jornais no dia de sua morte – Eduardo Galeano morreu no mesmo dia, e a mídia acabou por transformar Grass num escritor menor. Há amarras culturais e políticas que devem ser pluralizadas – esse sim é um tema da educação para a mídia.

O tema, que abrange políticas de educação, cultural, comunicação e tecnologia, deve ser tratado com mais transparência, e menos espinhos, pelos gestores no
Brasil.