Criar na cidade

Inovações Urbanas: seminário discute novos usos para os espaços públicos da cidade

“O propósito da ocupação do espaço público é gerar bem estar”, afirma Paola Caiuby, ativista do projeto Conexão Cultural, no primeiro dia do Seminário de Inovações Urbanas, do Cemec.  Realizado nos dias 21 e 22 de julho, o evento reúne pessoas que entendem a cidade como uma infinidade de possibilidades, capaz de ser reinventada e ressignificada de acordo com as necessidades e desejos de quem compõe seu cenário e, por isso, atuam em São Paulo para transformá-la em um espaço mais educador, criativo, sustentável e democrático.

Ao lado de Paola, Laura Sobral, do movimento A Batata Precisa de Você; Benjamin Seroussi, da Vila Itororó e Casa do Povo; e Juliana Barsi, do movimento Bela Rua, compuseram o debate (Re)Criando espaços públicos – Protagonismo cidadão na transformação da Cidade, mediado por André Palhano, fundador e organizador da Virada Sustentável.

Seroussi resgatou as diversas fases que, de acordo com o arquiteto e historiador Benedito Lima de Toledo, moldaram a arquitetura de São Paulo – a cidade/colonial, a cidade/tijolo, a cidade/carro e defendeu que esta quarta fase ainda está para ser definida a partir das intenções de quem vive a cidade e compõe o cenário urbano. “Estamos em uma encruzilhada, que pode moldar uma cidade acessível apenas para quem tem poder aquisitivo ou uma cidade que potencializa outros usos possíveis de seus espaços.”

Seminário Inovações Urbanas

Seminário Intervenções Urbanas reúne propostas de intervenção na cidade.

Roberta Tasselli

A afirmação soa como um convite, reforçado pelos colegas de mesa, para quem, ocupar o espaço público é um processo movido pela paixão de transformar a cidade. “Se eu acredito que o espaço se constrói pelo uso, vamos começar a usar”, aponta Laura, revelando a lógica que orientou sua decisão de – fazendo sol, chuva “e até três graus Celsius” –  ocupar o Largo da Batata, na capital paulista.

A arquiteta e outros integrantes do movimento promovem, há cerca de um ano e meio, atividades culturais e de lazer todas as sextas-feiras à noite na região e aproveitam o momento para construir bancos, mesas e outras peças de mobiliário urbano temporário, que deixam o espaço menos inóspito e mais confortável. A persistência do coletivo tem sido eficaz e hoje, espontaneamente, o Largo da Batata é palco de atividades organizadas por pessoas que não fazem parte do movimento.

“Agora, estamos discutindo com o poder público a possibilidade de usar a região como laboratório urbano para que outros espaços públicos tenham autonomia, para que possamos rever o papel do cidadão na cidade e que essas medidas se tornem política pública”, afirma Laura.

Entre os principais desafios da ressignificação do uso dos espaços públicos desponta o conflito de interesses de quem ocupa o lugar. Muitas vezes, essa transformação atrai pessoas com alto poder aquisitivo que compram  terrenos e imóveis nos arredores do local, o que gera especulação imobiliária e expulsa os antigos moradores que não têm condições de se manter mais na região – gerando um processo conhecido como gentrificação.  “Em uma sociedade em que tudo é visto pelo seu valor de troca e não pelo valor de uso, por que com os espaços seria diferente?”, questiona a ativista.

Para Seroussi, ferramentas como o Plano de Bairro podem auxiliar a brecar processos dessa natureza, assim como a forma de se ocupar os lugares.  “Quando ativamos espaços que apresentam disfuncionalidades, buscamos agir sem necessariamente resolver o problema, apenas destacando as tensões que estão em jogo nesses espaços”, conclui.