Aprender na cidade

Educadora indiana conta como atingiu excelência acadêmica ao fundir escola e comunidade

Durante a Virada Educação, no auditório da Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, Kiran Bir Sethi mostra um vídeo, como parte da palestra “Como as crianças transformam suas realidades”. Nele, um grupo de jovens indianos, que não aparentam ter mais de 10 anos, contam ao cinegrafista como fazem para prover cuidado ao seu amigo deficiente físico. Todo dia de manhã, buscam o garoto em sua casa e, montados numa bicicleta, o levam sorridente até a aula. Quando ele precisa ir ao banheiro, seus amigos e amigas o carregam, ajeitam e o trazem de volta para o chão da sala de aula. O pai do garoto, com lágrimas nos olhos, diz que não há nada mais forte que crianças que usam seu potencial para ajudar aos outros.

Esse é um dos exemplos mais significativos do projeto Design For Change, levado adiante por Kiran e que parte da premissa de que todo jovem é um agente de transformação de sua realidade. Desde 2009, a iniciativa coleciona mais de duas mil histórias e quase oito mil pelo mundo. No Brasil, ele acaba de ser batizado como Criativos da Escola.

Às margens do rio

Formada em design, Kiran também é fundadora da Riverside School, em Ahmedabad, a quinta maior cidade da Índia, com aproximadamente seis milhões de habitantes. Com a capacidade de receber 390 estudantes – dos quais 25% são bolsistas integrais, a escola se tornou referência mundial por sua pedagogia livre e inovadora. Além de ser uma instituição de ensino, também é um centro de pesquisa em educação e leva adiante inúmeros projetos sociais.

Nela, os estudantes não são divididos em séries tradicionais e são incentivados a terem projetos de impacto em comunidades vulneráveis localizadas no entorno. Participar e lidar com problemas sociais, democracia e direitos humanos não são atividades extracurriculares: são parte integral do currículo. É o chamado “currículo cidadão”, que entra em vigor desde a educação fundamental.

Alunos da Riverside conversam com homem que doa diariamente 150 cachorros quentes.

Alunos da Riverside conversam com homem que doa diariamente 150 cachorros quentes.

Riverside l Divulgação

Kiran relata que resolveu montar a escola em 2001, quando viu que seus filhos não tinham em seu vocabulário a palavra “escolha”. Naquele momento, ela decidiu que a melhor forma de melhorar a educação em seu país seria descobrindo novos caminhos com a ajuda das crianças. Por isso, cada espaço da Riverside é feito com ampla escuta: até os arquitetos obedecem aos usuários do espaço.

Pedagogia do medo

“Se você notar, as escolas tradicionais são pautadas pelo medo. Não são espaços emocionalmente seguros. E uma criança intimidada, tensa, não consegue aprender”, acredita a educadora.

Além disso, é um engano achar que uma escola nesses moldes o faz às custas do desempenho em exames tradicionais. A Riversidade atualmente está entre as dez escolas melhores ranqueadas do país nos tradicionais exames de desempenho.

“Quando eu coloco as crianças para conversar, para agir, para se associar, todo mundo pergunta se isso não é alternativo demais. Eu digo que o alternativo ao aprendizado é a educação tradicional, que separou as crianças uma das outras e da autonomia que têm para criar seu ensino”, afirma.

Ao fim da palestra, que contou com a participação de educadoras brasileiras de escolas envolvidas com a Virada Educação, Kiran conversou brevemente com o Portal Aprendiz.

Portal Aprendiz: Em sua palestra você disse que a educação tradicional é que é alternativa ao aprendizado. 

Kiran Bir Sethi: É que ela não é natural.

Aprendiz: O que é natural então?

Kiran: Aprendizado natural é quando todo o corpo está envolvido no processo, quando eu não tenho ele envolvido no meu aprendizado eu tenho oportunidades limitadas de me conectar com aquele pedaço de informação. Na escola tradicional nós não envolvemos o corpo. Temos só um tipo de pose: sentado e só um tipo de faculdade mental. E ele só diz respeito a um tipo de informação e nem essa se aprende direito, porque não se engaja com o que se aprende. Então estamos reduzindo todo o corpo de aprendizado e esse é o problema. Isso não é natural.

Aprendiz: Então você fala de uma educação integral que envolve espaço, arquitetura, comunidade, corpo e mente?

Kiran: Nós não somos independentes da vida e a educação não pode sê-lo. Nós não podemos tirar as crianças da vida e depois reintroduzi-las. O que é isso? Nós temos vida, nós somos vida, nós temos que estar nela, toda a experiência, desafios, situações, problemas que ela oferece e que me equipam para caminhar em direção a ela e transformá-la. Se eu não encontro o mundo real por quinze anos, como eu me formo e ajo sobre ele? Nós não podemos reduzir nossas crianças e tirá-las da vida. Quando pais entram em Riverside eles falam “ó, que experimental”. Mas não é. É o que deveria ser. O sistema tradicional é que é alternativo.

Portal Aprendiz: Então é por isso que o engajamento comunitário e o envolvimento com a realidade ajudam nas notas dos seus estudantes?

Kiran: Eles estão equipados, em múltiplos sentidos, para entender e processar informações. Tudo é apreendido profundamente, então quando ele tem que sentar para fazer um teste, ele onde buscar para resolver os problemas. O jeito que você se sente é o jeito que você aprende.