Transformar a cidade

Jovens resgatam identidade, território e cultura local em produção científica da Mostratec

Assim como a busca por uma sociedade que preze pela igualdade de gênero, os jovens cientistas que participam da Mostratec 2015 também demonstram atitude transformadora perante o território onde vivem. Afinal, a ciência não se faz apenas dentro de laboratórios ou salas de aula: mesmo escondida, ela acontece diariamente na rua, na praça da esquina, no parque do bairro.

Dois jovens cearenses, aliás, obtiveram tanto sucesso em seu projeto de pesquisa que conseguiram firmar parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Cascavel, no interior do estado do Rio Grande do Sul. Trata-se de um projeto que combate a homogeneização cultural, que mantinha afastada dos habitantes a história da própria cidade onde nasceram.

“Memória e história estão intrinsecamente ligados”, observa Débora, 16 anos, estudante da EE Ronaldo Barbosa. “Percebemos que, mesmo com o nosso rico patrimônio, as pessoas não o conheciam. Logo, nunca poderiam ser cidadãs de fato de Cascavel”, argumenta Victor, 17.

Os jovens levantaram que 86% dos moradores da região central da cidade desconheciam a história local. Entre 40 escolas pesquisadas, tanto da rede pública como particular, apenas cinco mantinham propostas voltadas à história de Cascavel – ao contrário do que o próprio Ministério da Educação indica.

História local, território e saber comunitário também movem projetos na Mostratec.

Trecho de cordel produzido pela dupla sobre a história de Cascavel.

Danilo Mekari

“Então saímos à comunidade para pesquisar costumes, tradições e a história de nosso patrimônio material e imaterial”, lembra Débora. Criaram ainda um acervo virtual dos principais destaques desse patrimônio, divulgando esse museu online para escolas; produziram um cordel sobre a história local; estimularam a realização de gincanas culturais sobre a história, a cultura e a memória de Cascavel.

Após um ano de pesquisa e proposição de atividades, Victor e Débora notaram que o número de pessoas que desconheciam a história local caiu de 86% para 22% dos habitantes. Veio então a proposta de parceria com a SME. “O enfoque no contexto local é responsável pelo envolvimento das pessoas com a cidadania”, finaliza Victor.

A Mostratec 2015 acontece no Centro de Eventos Fenac (Rua Araxá, 505 – Bairro Ideal – Novo Hamburgo/RS). A feira estará aberta ao público das 14h às 21h (de 27 a 29/10) e das 14h às 17h (30/10). A entrada é gratuita. Confira a cobertura do evento no Portal Aprendiz!

A história local também motivou o trabalho “Um estranhamento no olhar: visões do meu bairro”. Nele, os estudantes Pedro, Sofia e Tali, de 13 anos, da Escola Alef, escreveram cartas para fictícios moradores antigos do bairro onde vivem, em São Paulo. Foi uma maneira de conhecerem melhor o lugar onde estão crescendo.

“No início do século passado o meu bairro era pobre”, relata Tali. “O Jardim Europa só cresceu devido ao intenso comércio do vizinho Jardim América. Hoje é um dos bairros mais nobres da cidade, e tem esse nome porque um dos primeiros moradores achava as paisagens parecidas com as europeias.” A jovem critica a excessiva “elitização” do local, que criou famílias ilhadas em suas próprias moradias.

Já Sofia, moradora da Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, é contra o movimento do bairro que nega a construção de uma Zona Especial de Interesse Social – 3 (ZEIS-3), prevista no Plano Diretor da capital paulista. “Eles acham que a violência vai aumentar. É um sinal de preconceito. A desigualdade que vemos hoje entre os cidadãos tem muito a ver com o espaço geográfico onde vivem.”

História local, território e saber comunitário também movem projetos na Mostratec.

Situada dentro de um quilombo de Novo Hamburgo, a EMEF Conde D’Eu aproveita as aulas de Educação Física para promover caminhadas dos estudantes pelo território. Mas as estudantes Gabriela, 11, e Eduarda, 10, acreditam que os moradores não se identificam com o local onde vivem.

Para tentar reverter essa situação, as crianças da escola recolheram o lixo, plantaram árvores, foram atrás de histórias da comunidade e investigaram os maiores problemas da região: acesso à saúde e transporte público. As crianças também sentem falta de um local para brincadeiras. “Queremos recuperar o orgulho de morar ali. Por isso, a nossa escola quer criar uma Associação de Moradores”, conta Eduarda.

História local, território e saber comunitário também movem projetos na Mostratec.

Preocupadas com o impacto causado pela chegada de grandes empresas de transporte na cidade de Nova Santa Rita (RS), alunas da EMEF Homero Fraga resolveram mapear a biodiversidade presente no local. “Queríamos deixar registrado as transformações que já estavam acontecendo na natureza da nossa cidade”, afirma Julia, de 14 anos. Ela relatou que algumas espécies de aves já estão em processo de extinção local, assim como as árvores frutíferas. “As empresas até fazem reflorestamento, mas sempre optam por árvores mais baratas, como o eucalipto.”

História local, território e saber comunitário também movem projetos na Mostratec.

Alunos da EMEF Walter Belian pesquisam a história da escola.

Danilo Mekari

Alunos da EMEF Walter Belian, em Montenegro (RS), se interessaram pela história da própria instituição de ensino, erguida em 1980. “O que acontecia na cidade quando a escola foi fundada?”, questiona o jovem Gabriel, 13 anos. Sua turma foi às bibliotecas do município para pesquisar jornais antigos e livros sobre Montenegro, e descobriu que a escola se expandiu desde então. “Antes só tínhamos educação até o quinto ano. Hoje vai até o nono, e isso foi ótimo para a aprendizagem da comunidade.”

O repórter Danilo Mekari está cobrindo a Mostratec a convite da Fundação Liberato.