Aprender na cidade

Congresso em Santo André discute os desafios de construir uma Cidade Educadora

Município sede da Rede Brasileira de Cidades Educadoras desde fevereiro de 2014, Santo André realizou nesta terça e quarta-feira (3 e 4/11) o Encontro Nacional de Cidades Educadoras, espaço de diálogo e intercâmbio entre experiências que transformam os territórios das cidades brasileiras em locais de aprendizagem, fomento à cultura,  inclusão social e a diversidade.

Embora a Rede Brasileira de Cidades Educadoras possua 14 municípios membros (entre eles São Paulo, Santos, Porto Alegre, Belo Horizonte, Sorocaba e Santo André), mais de 30 representantes de cidades brasileiras estiveram presentes na abertura do evento, realizado no Teatro Municipal da cidade do ABC paulista. A Rede integra a Associação Internacional de Cidades Educadoras (AICE), plataforma que propicia a troca de experiências inovadoras entre 478 municípios de 36 países.

Congresso é um espaço de intercâmbio entre experiências e políticas públicas que promovem uma Cidade Educadora.

A abertura do Encontro ficou por conta da Orquestra de Cordas dos CESAs da Vila Linda e do Parque Novo Oratório.

Diego Barros Alves

Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Educação de Santo André, o primeiro dia de encontro teve a participação de 700 pessoas, entre autoridades municipais, gestores educacionais, professores e estudantes.

A coordenadora da AICE para a América Latina, Laura Alfonso, fez o discurso de abertura do Encontro. Para ela, é preciso pensar a cidade como um lugar de aprendizagem, onde devemos estar permanentemente aprendendo com convivência e diálogo. “Todas as instituições de uma cidade desprendem uma mensagem – ela pode ser educadora ou não”, afirmou Alfonso. “A desigualdade é uma questão inerente as cidades atuais. A cidade educadora promove equilíbrio, harmonia e o direito de todas e todos, garantindo o princípio de igualdade entre as pessoas, além de justiça social e equilíbrio territorial.”

Laura acredita ainda que as cidades brasileiras têm muito a ensinar aos municípios do resto do mundo. “Vejo aqui grande bagagem em educação, cultura e participação social. Que possamos aportar esse conhecimento para outros lugares do mundo.”

O prefeito de Santo André, Carlos Grana, ressaltou a participação social de crianças e adolescentes no planejamento urbano como um diferencial do seu município. Para ele, o Orçamento Participativo Criança, instaurado em 2014, foi capaz de mobilizar toda a rede municipal de ensino no levantamento das demandas das crianças não apenas para as escolas, mas também para o bairro e para a cidade como um todo. Na ocasião, também foi produzido um plano plurianual focado nas reivindicações de meninos e meninas. Essas duas ações resultaram na criação de um Conselho Mirim, que hoje assegura a participação de 1.300 crianças.

Representando a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, Emília Cipriano defendeu que, na cidade educadora, arte, cultura e educação devem estar integrados e os direitos fundamentais precisam ser garantidos. “Discutir a educação integral hoje significa discutir a cidade educadora. Não adianta ter mais tempo de aula se não houver qualidade e articulação com o território e as culturas locais.”

Congresso é um espaço de intercâmbio entre experiências e políticas públicas que promovem uma Cidade Educadora.

Santo André possui 708 mil habitantes.

Mike Slichenmyer

Saberes locais

A assessora especial do Ministério da Educação (MEC), Helena Singer, observou que o reconhecimento dos saberes e histórias da comunidade desempenha um papel fundamental no desenvolvimento da cidade educadora. “Essa cidade deve articular políticas que se voltem ao desenvolvimento local, inclusão social, participação, mobilidade urbana e desenvolvimento urbano sustentável”, argumentou. “A cidade educadora não é apenas a soma de territórios educativos, mas sim a soma de políticas públicas que trabalham orientadas para esse sentido. Um território se torna educativo quando tem intenção e um plano para realizá-lo.”

Na opinião de Pablo Gentili, secretário executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais, discursos tecnocráticos tendem a colocar a educação como um espaço de transferências de competências para inserção no mercado de trabalho competitivo. “A cidade educadora reconhece os problemas sociais e quer enfrentá-los.”

Gentili citou a “desigualdade profunda” existente na América Latina e que se constitui hoje como um grande obstáculo para a construção de cidades democráticas e educadoras. “As cidades vivenciam um contraditório processo de urbanização e desurbanização: se, por um lado, elas deveriam ser espaços acolhedores para o convívio humano, projetando processos de urbanização; por outro, movidas pela desigualdade, acabam tornando-se referência de precarização e violência.”

Congresso é um espaço de intercâmbio entre experiências e políticas públicas que promovem uma Cidade Educadora.

Autoridades municipais e especialistas em educação estiveram presentes no evento.

Diego Barros Alves

Troca de experiências

O encontro contou ainda com apresentações culturais, visitas técnicas monitoradas a locais como o Viveiro Municipal de Santo André, a Usina de Papel e a Sabina Escola Parque do Conhecimento. Também houve momentos de troca de experiências, quando foram apresentados os projetos do Conselho Mirim de Santo André e dos Centros de Educação em Direitos Humanos de São Paulo.

O projeto “Educação, protagonismo social e desenvolvimento sustentável na região de Paranapiacaba” está transformando a histórica vila ferroviária – construída em 1867 e adquirida pela prefeitura andreense em 2002. “Estamos falando de uma área preservada com pouco mais de mil habitantes que é a história viva do desenvolvimento econômico do estado de São Paulo”, afirma Fabrício Gomes.

De acordo com ele, a iniciativa está restaurando imóveis e estimulando o desenvolvimento local sustentável através de processos educativos e de inclusão social, como formação e capacitação de moradores – especialmente jovens – em monitores ambientais e culturais e a realização de um curso de educação patrimonial em parceria com o Senai. Além disso, foram criadas instâncias participativas, como conselho de representantes, um calendário de eventos oficiais de Paranapiacaba e um parque natural de nascentes.

“O turismo ambiental está se consolidando na vila histórica. Estamos estimulando o envolvimento da população local na gestão, gerando renda e apropriação local por parte da comunidade”, conclui Gomes.

Encontro Nacional de Cidades Educadoras

Posted by Prefeitura De Santo André on Quinta, 5 de novembro de 2015

Realizado na Escola Municipal Manuel Bandeira, em Guarulhos, o projeto “Caminhos para a construção de um território educativo” surgiu a partir do seguinte questionamento: para que serve a escola? Que tipo de desenvolvimento ela quer para a comunidade e para os alunos?

A partir de então, a escola criou conselhos infantis e assembleias escolares para ampliar o conhecimento dos alunos sobre a sua própria realidade, segundo Solange Adamoli. “A nossa ideia é formar um cidadão – que esse aluno se constitua como um cidadão e perceba os problemas do seu bairro.”

Visando aprimorar a sua atuação para a construção de cidade educadora, a escola organizou encontros com Helena Singer, André Gravatá e Madalena Godoy, pesquisadora e formadora do Centro de Referências em Educação Integral, e visitou a EMEF Campos Salles, referência no tema, em Heliópolis. “A reunião de pais deixou de ser informativa para ser participativa. Hoje, realizamos assembleia também com os funcionários. A cozinheira dá opinião pedagógica, a secretária fala sobre avaliação… Nos transformamos em uma escola de todos”, acredita Adamoli.

Para ela, o projeto ajudou a agrega para a escola o que é feito fora dela. “Como esses dispositivos permitem que as pessoas falem, os conflitos diminuem. Aprendem a dialogar e resolver os problemas”, finaliza.