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SP: Estudantes ocupam escola em Pinheiros contra a reorganização da rede estadual de ensino

por Débora Gonçalves, do VilaMundo.

Estudantes ocupam o prédio da Escola Estadual Fernão Dias Paes, em Pinheiros, desde a manhã desta terça-feira (10/11). Com o apoio de alunos, professores e simpatizantes, que realizam manifestação do lado de fora da escola – interditando uma das vias da avenida Pedroso de Morais –, o grupo ocupante protesta contra a reorganização da rede estadual de ensino, promovida pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), que resultará no fechamento de, pelo menos, 155 escolas estaduais, segundo levantamento do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp).

Ocupação na Escola Estadual Fernão Dias Paes. Foto: Débora Gonçalves

Embora a Escola Estadual Fernão Dias, que tem ensino fundamental (do 6º ao 9º ano) e ensino médio, não conste na lista de instituições de ensino que serão fechadas, os alunos do ensino fundamental serão transferidos para outra escola como medida de reestruturação da rede em ciclos. De acordo com a Secretaria Estadual da Educação, a instituição passará a ter apenas séries de ensino médio.

Na manhã desta quarta-feira (11/11), dezenas de policias militares cercavam o prédio da escola, impedindo a entrada de outros manifestantes no local. “É um ato que está sendo, por enquanto, pacífico e os alunos não entendem o motivo do excesso de policiais”, afirmou o estudante Gustavo Montoya, que cursa o terceiro ano do ensino médio na escola.

Montoya tem amigos que estão participando da ocupação e acredita que o fechamento de outras escolas da região, em virtude da reorganização, deve impactar a quantidade de alunos por sala de aula na Fernão Dias. “Eles querem fechar escolas e isso vai aumentar as salas, e nenhum professor consegue dar aula para 40 alunos”, defende.

Ocupação na Escola Estadual Fernão Dias Paes. Foto: Débora Gonçalves

Com cartazes em mãos, os manifestantes que defendem o movimento de ocupação estavam acompanhados pelo batuque dos tambores e palavras de ordem. Apesar de o ato seguir aparentemente pacífico, a aluna Sandy Rodrigues, que está no primeiro ano do ensino médio e frequenta o centro de ensino, afirma ter sido atingida por um gás atirado pelos policiais por volta das 9h.

Ato na Escola Estadual Fernão Dias Paes. Foto: Débora Gonçalves

“Eu fiquei sem ar por um bom tempo. Aí veio uma enfermeira, que me ajudou e eu voltei, porque eu vou lutar pelos meus direitos, e isso só me motivou”, relata a estudante. Na visão de Sandy, a remodelação na rede estadual irá interferir tanto na situação dos alunos quanto na dos professores, que correm o risco de perder o cargo.

Em entrevista ao Centro de Referências em Educação Integral, a presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Maria Izabel Noronha, estimou que cerca de 20 mil professores da categoria O podem perder o emprego com a reestruturação, pois seu contrato de trabalho é precário e a demanda por docentes deve diminuir após o fechamento de escolas no Estado de São Paulo.

Apoio aos manifestantes

O ator Pascoal da Conceição, o célebre Dr. Abobrinha do programa Castelo Rá-Tim-Bum, foi à escola Fernão Dias Paes nesta quarta-feira para prestar solidariedade aos estudantes que estão ocupando o prédio do colégio. Ao VilaMundo, o ator declarou que considera a postura dos ocupantes “exemplar e política”. “A Secretaria de Educação tomou uma decisão sem escutar os alunos e sem ter ideia do que significa o valor imaterial, que é pra lá do econômico, que uma escola representa no bairro.”

Pascoal da Conceição esteve no evento para apoiar estudantes. Foto: Débora Gonçalves

O deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL) também esteve em frente à escola. Além de manifestar apoio aos protestos, o parlamentar visitou a ocupação para checar a situação dos estudantes que ocupam o prédio. “Todas as escolas tinham que ser ocupadas pelos alunos e pelos pais, para rechaçar e dizer não à reorganização, ao fechamento das escolas. Esse movimento é um exemplo de resistência”, disse ao público concentrado no local.

Carlos Giannazi (PSOL) também compareceu à manifestação. Foto: Débora Gonçalves

A Secretaria da Educação lamentou em nota a interrupção das aulas em razão do protesto e afirmou que a diretoria tentou receber uma comissão de estudantes, que teriam rejeitado a possibilidade de conversa.

Ação policial

Segundo reportagem do G1, divulgada nesta terça, por volta das 16h40 de ontem, houve um princípio de confusão na manifestação em frente à escola porque a Polícia Militar tentou levar para a delegacia duas estudantes que deixavam o prédio – uma de 18 anos e a outra de 17. Um grupo cercou os policiais para impedir a ação e os PMs usaram cassetetes para dispersá-lo. O G1 apurou que os policiais pretendiam levar as jovens para registrar um boletim de ocorrência sobre o caso. Enquanto às 16h50 uma delas continuava em uma base comunitária conversando com os policiais, a outra – de 18 anos – havia sido liberada.

Solidariedade entre estudantes

Os ocupantes da escola Fernão Dias Paes divulgaram um vídeo no Facebook nesta quarta em apoio aos alunos que ocuparam uma escola estadual em Diadema, na segunda-feira (9/11). “Essa é a intenção dos alunos, que se expanda esse modo de se reunir para decidir o que eles querem”, diz uma jovem no vídeo. Os estudantes de Pinheiros pedem doações de suprimentos para que mantenham a ocupação.