Transformar a cidade

Mulheres da periferia: uma exposição delas por elas

“[Essa exposição] é a descoberta que, até aqui, as nossas vozes foram sendo construídas por outras mãos, outros olhos, outros ouvidos, outras bocas. Que não somos nós, mas as lentes sempre embaçadas do outro, que, lá de cima, imagina tudo que vê, mas tem medo de molhar os pés no chão da periferia. A grande mídia não sabe um terço sobre nós. E a exposição vai a fundo nas vivências dessas mulheres”. É assim que Jéssica Moreira, jornalista e co-fundadora do Nós, mulheres da periferia, define o impacto da exposição QUEM SOMOS [POR NÓS], que abre neste mês no Centro Cultural da Juventude, na zona norte de São Paulo.

Nós, mulheres da periferia

O coletivo Nós, mulheres da periferia é formado por oito jornalistas e uma designer, todas moradoras de bairros da periferia do município de São Paulo. Por meio de um site e redes sociais, produz e divulga conteúdo sobre e para as mulheres da periferia de São Paulo. O coletivo propõe reduzir o espaço vazio existente na imprensa e a falta de representatividade, buscando mais protagonismo e visibilidade. A proposta é construir um espaço com informações que extrapolem a questão de gênero a atinja o campo social e étnico. Saiba mais no site do Nós, mulheres da periferia e pelo Facebook.

A exposição foi construída coletivamente em oficinas que mobilizaram mais de cem mulheres periféricas, de 17 a 92 anos dos bairros Campo Limpo, Capão Redondo (zona sul de São Paulo), Jardim Romano, Guaianazes (zona leste), Jova Rural (zona norte),e Perus (zona noroeste).  São fotografias, autorretratos e registros audiovisuais que saíram dos encontros do projeto Desconstruindo Estereótipos, financiado pelo Programa de Valorização das Iniciativas Culturais (VAI), da Prefeitura de São Paulo, e levado adiante pelo Nós, mulheres da periferia.

A abertura será no dia 21/11 e a instalação fica em cartaz até 17/12. Jéssica explica que a exposição será dividida em sete seções, que representam um caminho da desconstrução de preconceitos até a construção da voz e das narrativas delas por elas mesmas. “Há o percurso que elas trilham, que remetem às vielas. Em cada beco, uma história, um rosto. O que antes era invisível, agora é descoberto. As palavras antes abafadas são um tesouro dentro de uma garrafa. Surge a identidade dessas mulheres e suas batalhas diárias se entrelaçam. Dessa pluralidade de vozes e experiências, forma-se a diversidade tecida por sonhos, dores e amores. Vidas que não se bastam dentro de uma caixa de padrões que a sociedade insiste em impor, se rebelam e transbordam  Saem das bordas e ocupam todos os lugares”, desenha Jéssica, sobre o percurso que espera o público.

Confira abaixo o serviço do evento, assim como uma entrevista com Jéssica Moreira, sobre o que o coletivo pretende com essa exposição, quais os desafios enfrentados e qual a importância de uma exposição como essa.

Exposição foi construída com mais de 100 mulheres.

Exposição visa questionar tratamento midiático e deslocar percepções e centralidades.

Nós, mulheres da periferia l Reprodução

Portal Aprendiz: O que o público vai encontrar na exposição?

 Jéssica Moreira: A exposição é a desconstrução da ideia de centro, tomando como referência a construção da cidade de São Paulo, do centro para as periferias. Numa referência ao espaço geográfico da cidade, a exposição pretende colocar no centro mulheres, suas histórias e seus discursos.

É importante ressaltar que o maior valor dessa exposição é a assinatura artística das participantes dessas localidades. Cada participante das oficinas é protagonista desse processo e personagem mais importante do projeto. Esse é o principal diferencial da nossa exposição, ser o resultado de um trabalho coletivo de reflexão que virou arte na voz dessas mulheres. Os visitantes estão convidados a desbravar um labirinto de inquietações.

Aprendiz: A mulher negra periférica, ou a mulher periférica, quase sempre – com valiosas exceções – foi retratada por um outro, seja da grande mídia, ou seja por veículos alternativos, escritores, artistas, documentaristas, etc. Hoje, essa exposição traz como marca a auto-representação. Qual a importância disso?

Jéssica: Para responder a essa pergunta é importante pensarmos, inicialmente, como as periferias de São Paulo são retratadas pela chamada “grande mídia”. Ao ligar a TV, em qualquer horário, temos exemplos claros do estereótipo que o coletivo deu luz durante as oficinas. Há programas vespertinos que colocam as histórias de pessoas e famílias inteiras que vivem, muitas vezes, em situação de vulnerabilidade, como um espetáculo: escancaram suas fragilidades e apresentam de forma superficial problemas que merecem uma maior complexidade. Em outros casos, teremos os programas extremamente sensacionalistas, chamados, erroneamente, de jornalismo policial. Os direitos de nossas mulheres são todos os dias violados, suas dores não são respeitadas, seja quando são parte do ciclo da violência doméstica, seja quando morrem seus filhos, os maridos. Esses programas abusam da fragilidade de nossas mulheres para escancarar sua dor como se escancara uma mercadoria.

Dito isso, a importância da exposição vem em um caminho contrário daquele explicitado acima. Nas fotos e quadros, criados por elas próprias por meio dos debates realizados durante as oficinas, é possível notar uma variedade de elementos, que vão desde a rua onde vivem até as plantas de seu quintal. Nas fotos, uma fotografou a outra, evidenciando aquilo que gostariam que houvesse nas revistas, desconstruindo a sexualização do corpo das mulheres. São detalhes, são as mãos que simbolizam o trabalho diário, os cabelos que as deixam vaidosas, o batom que não esquecem de passar, os olhos como signo de coragem, o sorriso que, mesmo em meio a tantas dificuldades, ainda floreia em seus rostos.

É a descoberta que, até aqui, as nossas vozes foram sendo construídas por outras mãos, outros olhos, outros ouvidos, outras bocas. Que não somos nós, mas as lentes sempre embaçadas do outro, que, lá de cima, imagina tudo que vê, mas tem medo de molhar os pés no chão da periferia. A grande mídia não sabe um terço sobre nós. E a exposição vai a fundo nas vivências dessas mulheres, humanizando o discurso e mostrando como somos diversas. Além disso, ter habilidades com as ferramentas tecnológicas é também um grande instrumento social. Essas mulheres perceberam como podem, com seus celulares, mudar a forma como somos vistas. E, assim, também criar nossas narrativas. Ou seja, podemos sim, por meio da comunicação, empoderar mulheres, para que elas saibam que também podem ser narradoras de suas próprias histórias, intensificando o empoderamento e servindo também de exemplo para outras mulheres à sua volta.

Aprendiz: Vocês trabalharam com mais de 100 mulheres periféricas de 17 a 92 anos. O que há de comum e diverso nesses depoimentos, nessas histórias, nessas mulheres?

Jéssica: As narrativas variam muito, mas também encontram pontos de intersecção. E o mais forte deles, notado nas seis oficinas realizadas durante o processo, é a questão da raça. As mulheres negras foram a maioria em nossos encontros e cada uma delas trouxe depoimentos de como já sofreram ou ainda sofrem racismo, mesmo dentro das periferias.

Elas trazem um discurso muito claro de que almejam igualdade entre mulheres brancas e negras. Rosana Castro de Alves, 50, do Jardim Romano (zona leste), nos narrou quando foi perseguida pelo segurança da loja de brinquedos onde procurava um jogo para seu neto. Dona Carolina, 92, da Jova Rural (zona norte), contou emocionada como era ser barrada no cinema de sua idade e como ela aprendeu a reagir e se defender do racismo. Renata Ribeiro, 17, moradora de Perus (noroeste) contou-nos do racismo ainda presente na escola onde estuda. “Se a mulher é vista com discriminação na mídia, a negra é ainda mais”, apontou Rosana, que criticou o fato das mulheres periféricas aparecerem apenas nas páginas policiais.

Esses são alguns exemplos. Muitas delas trazem histórias de luta incessante. São diaristas, contadoras, vendedoras e professoras. Contam orgulhosas sobre os filhos e filhas que se formaram na universidade e também apresentam uma crítica muito contundente sobre a falta de direitos básicos na periferia, mas enfatizam e dão muito valor àqueles que hoje elas têm, como os CEUs (Centros Educacionais Unificados), espaços onde estivemos com as oficinas.

Aprendiz: A cidade de São Paulo é notoriamente dividida por classe, raça e gênero. Se você é pobre e negro, você provavelmente vive longe do centro – ou seja, longe de equipamentos culturais, de saúde, etc. Se você ainda por cima é mulher, você tem mais chances ainda de estar confinada dentro de casa. De que maneira essa exposição contribui para romper essas barreiras? É tornando público e ocupando o público que começa a se questionar essa cidade proibitiva para tantas?

Jéssica: As mulheres que encontramos trouxeram de forma muito enfática a questão territorial. Importante explicar aqui algo que o Nós, mulheres da periferia e também o Blog Mural sempre apontam: a própria palavra periferia. Em teoria, o significado da palavra periferia é aquilo que está longe do centro, a borda de qualquer elemento. Mas, em São Paulo, o que nós notamos é que a palavra tomou novos significados e sinônimos. Dizer periferia, para muitos, é sinônimo de lugar ruim. Ou de favela (erroneamente, já que para um espaços ser considerado favela teremos outros elementos). Ao dizer em uma entrevista de emprego que você mora na periferia, suas chances diminuem, pois todos sabem das dificuldades de chegada. Mas é importante que nós todos das periferias não tenhamos vergonha de nelas morarmos, pois quem tem que ter vergonha é o Estado, de não prover direitos às bordas da mesma forma que o faz no centro.

Assim, essa exposição vem para ressignificar a própria palavra “periferia” e os estereótipos lançados, cotidianamente, ao redor dela. E principalmente, claro, quando vem acompanhada da palavra “mulher”. Assim como uma das seções aponta, nós vamos desconstruir para ocupar, desconstruir as narrativas e ocupar os lugares com as nossas vozes, de uma forma simbólica que traz também a reflexão sobre a ocupação da cidade. A exposição quebra com essas barreiras em diversos momentos. O primeiro é que as protagonistas e produtoras são as próprias mulheres dos bairros, não mais um pesquisador-observador de fora. É o olhar de dentro. No segundo quesito, barra por descentralizar a arte e cultura de forma geral, já que as exposições e eventos afins sempre ocorrem nas regiões centrais. E terceiro porque ocupa um espaço público, o CCJ. Além disso, é uma exposição pública, que dá acesso a todas e todos.

A ocupação do espaço público é de extrema importância, principalmente quando não se tem mais do que estes espaços para concretizarmos nossas produções artísticas e afins – o que é uma realidade gritante nas periferias da capital paulista. Alguns bairros, desde 2000, têm o CEU, que acabou acolhendo uma variedade de atividades. Mas ainda não dá conta, já que a criatividade nas bordas da cidade é intensa e gigantesca. E isso se dá, principalmente, por conta da falta de direitos. Nós, das periferias, tivemos que aprender a ser criativos desde que nascemos. A rua é o campo de futebol, com gol feito de chinelo havaiana, a pista do carrinho de rolimã, o palco dos sambistas com seus baldes nas mãos. As garagens de nossos pais viraram centros culturais, a praça do bairro o grande palco de manifestações várias. Os saraus pela cidade nos mostram como essa ocupação vem se intensificando, só para dar um exemplo. Nós sempre ocupamos, mas agora o fazemos de forma consciente e política, em um enfrentamento ao poder público, como um grito por nossos direitos.

Aprendiz: A abertura da exposição acontece no bojo de um período histórico no qual o protagonismo feminino esteve na pauta do dia nas redes sociais, na mídia, jornais e ruas. Como vocês enxergam esse momento e como essa exposição dialoga com isto?

Jéssica: Vivemos um momento muito importante, pois a questão de gênero está sendo evidenciada em muitos cantos. É a voz da mulher tomando capas das revistas, o noticiário. Mas, mais uma vez, é importante pensar como isso tudo está chegando às mulheres negras da periferia. Nossa preocupação é a inclusão dessa mulher no debate, pois essa mulher é a mais afetada pelas políticas públicas destinadas ao público feminino, como a questão da reprodução. Não temos hospitais em bairros onde há muito mais de 200 mil habitantes. Como assegurar direitos a essa mulher? Não temos creches para seus filhos. Como ela pode sair para trabalhar? Não temos ruas com iluminação. Como ela pode se sentir segura? As mulheres das periferias são as mais afetadas pela violência doméstica. Segundo o Mapa da Violência de 2015, divulgado esta semana, o número de mulheres negras mortas cresceu 54% em 10 anos (de 2003 a 2013), enquanto que o número de mulheres brancas assassinadas caiu 10% no mesmo período. E ainda ouvimos que o Brasil é um país que eliminou o racismo há anos. Isso é mentira. Temos ainda evidências de como o racismo está presente em nossos dias. O Dia da Consciência Negra é importante, sim, mas devemos ir muito além do 20 de novembro e das datas comemorativas. Estamos falando de questão de vida e morte: milhares de mulheres morrem no Brasil todos os dias, não podemos deixar isso para apenas uma data por ano. Devemos fazer dessa data um dia de fortalecimento para o restante do ano, de todos os anos. A exposição traz a cara, voz e mãos dessas mulheres, que infinitas vezes são excluídas e vivem na pele essas estatísticas.

Serviço: Exposição QUEM SOMOS [POR NÓS]

Abertura:: 21/11, sábado, 15h.
Visitação: de 21/11 a 17/12, de terça a sábado, das 10h às 20h; domingos e feriados, das 10h às 18h.
Local: CCJ – Centro Cultural da Juventude – Avenida Deputado Emílio Carlos, 3641 – Vila Nova Cachoeirinha, São Paulo – SP
Informações: contato@nosmulheresdaperiferia.com.br