Aprender na cidade

Mãe pede demissão para apoiar ocupação de escola: “Eles estão aprendendo a lutar”

Por Caio Zinet, do Centro de Referências Em Educação Integral

A informação de que a escola fecharia, em decorrência do processo de reorganização escolar, caiu como uma bomba na família. Primeiro, porque a filha perderia o espaço no qual havia acabado de se adaptar. Segundo, Ysabella teria que estudar em outra unidade, mais distante, e demoraria pelo menos uma hora e meia para chegar, ou seja, entre ida e volta, passaria três horas no trânsito por dia.

Saiba + Reorganização dissocia escola da vida do bairro, apontam especialistas
Estudantes reagem a processo de reorganização e ocupam escolas em São Paulo

Quando Ysabella contou à mãe que, junto com outros estudantes, havia ocupado a escola em protesto contra o seu fechamento, Bárbara respondeu de pronto: “Por que você que não me avisou antes? Posso ajudar vocês no que precisarem”.

O que Ysabella não imaginava era até onde sua mãe estava disposta a ir para apoiar a sua luta e a de seus colegas. Contratada há apenas 15 dias como vendedora de uma loja de móveis, foi com a filha até seu emprego para pedir demissão e seguiu junto com ela até a escola.

Bárbara conta que tem ido sempre à ocupação, desde o primeiro dia (12/11). Ela relata que ajuda, mas que os meninos e meninas são muito organizados e se dividem para fazer todas as tarefas cotidianas, como limpar a escola e cozinhar para quem está na mobilização.

Saiba + Em São Paulo, ocupações de escolas se fortalecem com o apoio da comunidade

Quando necessário, ela ajuda na cozinha ou limpeza, mas o protagonismo é todo deles. “Pensava que a ocupação seria uma grande bagunça, mas eles sabem o que querem, têm cabeça boa e estão muito organizados”, relata a mãe.

Cultura, esporte e lazer

A ocupação Salvador Allende está realizando atividades que não eram promovidas pela gestão escolar. Os estudantes trouxeram para dentro da instituição discussões sobre racismo e homofobia, saraus e sessões de cinema, entre diversas outras atividades culturais.

“Quando não dorme na ocupação, minha filha acorda e já quer ir para a escola e isso é porque são eles que estão fazendo tudo lá dentro. Estão trazendo coisas que não tinham antes aqui, como atividades culturais e debates”, afirmou Bárbara.

Além de encher o espaço com discussões sobre temas contemporâneos, os estudantes também estão cuidando do espaço físico como nem mesmo a gestão fazia. As paredes estão sendo pintadas e o matagal situado ao lado da escola, que havia se tornado um depósito de lixo, foi capinado e agora deu lugar a uma horta, cultivada pelos jovens.

“Os estudantes estão mais responsáveis por eles mesmos. Antes era o dia a dia normal. Iam para a escola, mas não participavam, não se envolviam. Agora é diferente porque são eles por eles mesmos: cozinham, limpam, organizam, pensam em debates e programas culturais a que querem ter acesso”, conta a mãe.

Bárbara se orgulha de sua filha e dos adolescentes que estão ocupando as escolas por todo o estado de São Paulo. “Eles estão aprendendo a lutar pelo direito deles e é isso que todo mundo tem que valorizar”