Aprender na cidade

“A gente devia manter essas escolas ocupadas e falar para os estudantes: assumam”

Para começar seu segundo mandato, Dilma Rousseff escolheu o lema “Brasil, pátria educadora”. “Ao bradarmos ‘Brasil, pátria educadora’ estamos dizendo que a educação será a prioridade das prioridades, mas também que devemos buscar, em todas as ações do governo, um sentido formador, uma prática cidadã, um compromisso de ética e sentimento republicano”, afirmou a presidenta em seu discurso de posse.

Passados doze meses, três ministros da educação e mais de R$ 9,4 bilhões em cortes de verba, não faltam motivos para desconfiar do slogan. Com as promessas e prioridades institucionalmente invertidas, em uma república mergulhada em escândalos e crises, quem poderá trazer algum alento para educadores e estudantes?

Que tal eles mesmos?

Essa é a lição que veio das ruas e escolas nos estertores de 2015. Frente à proposta de reorganização da educação estadual em São Paulo, estudantes realizaram atos, ocuparam escolas, deram aulas de cidadania, engajamento e participação. Propuseram territórios fertéis para aprendizagens. Fizeram da sua luta uma expressão unívoca daquilo que dá sentido à vida e aos processos educativos. Chamaram mães, pais e comunidades para participar do tecido vivo de sua educação, conquistaram a sociedade, derrotaram mais uma política construída de cima para baixo, com a revogação do Decreto nº 61.672.

De dentro das escolas, influenciaram estudantes de outras estados, como Goiás, que já tem dez unidades de ensino ocupadas contra a militarização e a terceirização da educação.

Para analisar esses processos e o ano da educação no Brasil, o Portal Aprendiz entrevistou a diretora da Fundação SM, Pilar Lacerda, que esteve no Ministério da Educação, entre 2007 e 2012, como Secretária Nacional de Educação Básica, além de ter presidido a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) e atuado como Secretária Municipal de Educação de Belo Horizonte(MG). Em sua análise, a educadora mistura elementos de quem já esteve na institucionalidade com o entusiasmo de quem acompanha de perto os estudantes transformando de forma autônoma sua educação. E faz uma proposta ousada:

Por que não deixar a escola nas mãos dessa rapaziada? Confira.

Portal Aprendiz: Como foi o ano da educação no Brasil em 2015?

Pilar Lacerda: No macro, não foi bom. Perdemos muito dinheiro, programas, projetos ficaram meio vazios, então eu sempre olho para o macro e desanimo. E olho para o micro e vejo que o movimento social é capaz de mudar esse quadro. E nesse olhar do miúdo, temos as ocupações que vêm fechar nosso fim de ano muito bem e movimentos acontecendo em escolas, secretarias e cidades no sentido de garantir esse modelo de escola contemporânea – apesar de eu achar muito esquisito falar em escola contemporânea quando ela já devia responder ao seu tempo. Mas, enfim, eu acho muito interessante ver movimentos que podem não ser só inspiradores, mas marcos que criam referências para pessoas buscarem por onde seguir. Acho que isso marcou 2015.

Educadora defende que ao ocuparem as escolas, jovens estão construindo na prática a educação que desejam.

Pilar defende que ao ocuparem as escolas, jovens estão construindo na prática a educação que desejam.

Arquivo Pessoal/Facebook

Portal Aprendiz: Foi um ano em que as batalhas de uma nova e contemporânea educação contra o velho modelo ficaram mais evidentes?

Pilar: Eu acho que não, mas porque o debate é mal feito. Ele poderia ser melhor. A questão de gênero, que foi retirada do plano nacional, dos planos estaduais e municipais de educação, poderia ter sido melhor debatida, podíamos ter pensando o porque é importante que a escola debata esse tema. Em lugar disso, temos uma discussão muito adjetivada e pouco substantiva. Tem muito “bobo, feio e chato” e muito pouco “por que, quando, onde e como”. As discussões do país têm sido marcada por adjetivos, de modo que não te provocam: elas te cansam.

Nesse ponto, não tivemos uma mudança de paradigma: está o setor conservador de um lado e o progressista do outro. E eles não se misturam. E o pior é que existem pautas nas quais eles podem se juntar, como a educação integral, por exemplo, que agrega muita gente e é um lugar bom de fazer o debate. Tem quem ache que educação integral é educação em tempo integral, mas se você senta com essa pessoa e conversa, você pode sair com algo produtivo. “Ah, a gente pode fazer as duas coisas? Ter mais aula e mais atividades lúdicas, artísticas? Pode entrar em contato com o território? Pode.” Aí você vai melhorando. Mas hoje temos setores influentes, da economia, da política, da igreja, dos meios de comunicação, que vão de alguma maneira interditar o debate. É como se você estivesse conversando calmamente com uma pessoa e chega um terceiro aos berros. É assim que o debate tem se dado na educação hoje em dia, um chama o outro de comunista ou de fascista e você não debate nada. Então as posições ficam camufladas, você não sabe muito bem quem é de qual lado. Tem setores que nunca entraram no campo da discussão contemporânea, o setor pentecostal, do Bolsonaro, da igreja dogmática, não entra, mas tem muitos setores que a gente está junto mas não consegue conversar.

"Nós gays

“Tivemos uma discussão sobre gênero muito adjetivada e pouco substantiva”, afirma.

Fotos GOVBA

Portal Aprendiz: A discussão parece se dar por bordões, né? “Pátria Educadora”, “Escola sem Partido”, “Ideologia de Gênero, não!”, como se fosse uma característica da contemporaneidade, da internet.

Pilar: Ai você fica em cima dos 140 caracteres do Twitter, sem tempo para que as ideias decantem. A gente não pode achar que quem discorda de você é seu inimigo, primeiro porque na política não tem inimigo, tem adversário, e a gente está fazendo política. E é bom fazer política. Eu não gosto do “Escola Sem Partido” porque a escola é um lugar de fazer política, não a política rasteira, porque quem faz política rasteira acha que a gente faz igual a eles, mas quando a criança se reúne e escolhe o cardápio do almoço na escola, ela está fazendo política, ela está aprendendo a escutar, a deixar a outra falar, a escutar opinião diferente, a argumentar. O que a gente faz o tempo inteiro é política, falar com o diferente, sair do conforto dos iguais. O desafio é ir no diferente e ali fazer um bom debate.

a escola é um lugar de fazer política

Portal Aprendiz: E as ocupações de escola em São Paulo e Goiás?

Pilar: São incríveis porque ninguém esperava. Aí foi ocupando uma, duas e três e, de repente, todos estavam de olho no movimento. Os mais conservadores achavam que não duraria uma semana, mas eles mostraram como a horizontalidade é importante e potente. No momento em que você tem um pessoal que militariza a escola – e nada mais vertical, hierárquico e autoritário do que isso -, ver jovem de 15 anos, assumindo uma tarefa de segurança da escola, quebrando a questão de gênero, com meninas cuidando da segurança e liderando assembleias e meninos cuidando da limpeza e da cozinha, por exemplo, isso, veja só, tem o cheiro do Século 21, mesmo que com quinze anos de atraso.

Tem a novidade da resistência, o lema “ocupar e resistir” é lindo, me comove por ser uma forma de resistência criativa. Não é a greve de fome clássica que você se algema ao portão e vai morrer se não te atenderem. Você efetivamente está construindo uma alternativa ao mundo. E eu acho que eles não tinham isso desde o primeiro dia, mas à medida que decidem ficar, pensam o que querem aprender e instintivamente começam a formatar um projeto de escola alinhado com o que temos discutido sobre educação integral, uma proposta na qual eles aprendem, estudam, têm autonomia, têm poder. Porque eles se empoderam, né? Quando eu sou responsável pela escola, pela biblioteca, eu estou empoderado. E ter poder é bom para transformar.

Eu acho que a gente devia manter essas escolas ocupadas, falar pra eles: assumam. É bom, eu quero ver como vai ser o currículo, vou te dar apoio e estrutura para você desenvolver essa escola. Isso seria muito bom. Só precisávamos ter um gestor público com essa sensibilidade.

Até o momento, 38 escolas estão ocupadas em todo o Estado de São Paulo. Muitas delas promovem atividades culturais abertas para a comunidade.

Entrada lotada da EE Diadema.

Reprodução

Portal Aprendiz: Porque são adolescentes lutando pelo direito de estudar, não?

Pilar: De estudar na escola que eles querem. E, à medida que isso vai avançando, eles apontam como querem a educação.

Portal Aprendiz: Esses ’20 centavos’ do fechamento das escolas, uma proposta de reorganização, que incluía o fechamento de algumas unidades, justificada pelo governo em um contexto de crise e de uma racionalidade administrativa da gestão, serviu como estopim para que os estudantes questionassem o modelo de educação, que exclui, massifica e sucateia a escola. Você acha que essa mobilização pode impactar a maneira como a sociedade brasileira enxerga a educação?

Pilar: Nessa hora você vê a divisão do velho e do novo muito claramente, pois o governo do estado, alguns jornalistas etc., não conseguem entender a novidade desse movimento. Porque a teoria da escola de ciclo único pode até funcionar, mas isso é furada: primeiro, porque não foi conversado com a comunidade; segundo, porque a gente viu que até escolas de ciclo único estavam sendo fechadas. Aí você pergunta as razões e descobre que é por conta de prejuízo, colocando em evidência a oposição entre direito e mercadoria. Eles estão fazendo o seguinte: dizendo que aquilo dá prejuízo, então deve ser fechado.

Eles podiam ter feito 94 escolas integrais, de tempo integral e de projeto integral, mas a concepção velha do mundo não consegue perceber que o que está acontecendo é transformador, que o novo sempre vem, como dizia a música da minha geração. Na cabeça do Alckmin, não adianta. O que está em disputa são duas concepções de mundo, um mundo mais compartilhado, horizontal, solidário e um que acha que tem um diretor que manda e professores que obedecem. Os estudantes colocaram isso em xeque.

HÁ duas concepções de mundo em disputa: um mundo mais compartilhado, horizontal, solidário e um que acha que tem um diretor que manda e professores que obedecem.

Portal Aprendiz: É uma juventude que já vem com outra programação, que já aprendeu de saída muita coisa do que você falava, sobre gênero, horizontalidade, compartilhamento. E é como se a estrutura do estado dissesse “não” seguidas vezes. 

Pilar: Os meninos estão lutando para garantir uma aprendizagem boa, no lugar onde eles criaram suas redes sociais, seus vínculos concretos. Os gestores não levam em consideração o que a educação integral leva muito: que ali tem a rede deles, da família, da comunidade e dos amigos. Teve um menino que falou em uma entrevista que estudava ali há sete anos – e isso é metade da vida dele! Ali tem os professores que ele gosta, os amigos, o ir e vir da escola, a sensação de pertencimento. Aí vem a reorganização e tira ele da escola, joga em uma sala superlotada, em um colégio que, muitas vezes, é “inimigo”. O tecnocrata vai dizer “Ah, que bobagem, é só um quilômetro e meio”.

Portal Aprendiz: O tecnocrata muitas vezes não entende que educação é feita de outra matéria, que não se resolve em canetada. E deu pra ver que, para essa juventude “virtual”, o território ainda importa muito.

Pilar: O estudante está com o celular, mas ele está pisando no chão, no caminho da escola, no lugar que lhe pertence. E o tecnocrata não entende isso. Eu imagino essa cena como começou, em uma reunião: “Nós estamos com um déficit e temos que aproveitar essa janela do bônus demográfico, então vamos ver quantos alunos tem aqui, olha uma escola deficitária, fecha ela e manda os alunos para outra”. Eu vejo essa reunião. De gente até bem intencionada, ninguém tem chifre de capeta. Entregaram o estudo para o secretário, dizendo que vai economizar R$ 2 bilhões. O secretário apresentou para o governador, falando “nós vamos afetar só 10% da rede e isso não é nada”. Mas são mais de 300 mil vidas!

Quando eu era secretária de Belo Horizonte (MG) e vinham com essas ideias, eu perguntava: “E se fosse seu filho?”, aí o cara dizia que não podia personalizar. Mas é preciso personalizar, tem que personalizar, ninguém perguntou para o Secretário se ele gostaria que isso fosse feito com a escola que ele estudou a vida inteira. E quando isso chega no Alckmin, ele simplesmente aprovou, dentro de sua concepção de mundo conservadora. Como não tem tradição de dialogar, não tem a tradição das assembleias escolares, chega de cima para baixo e impõe.

Portal Aprendiz: E bate em quem discorda.

Pilar:  E ele ainda falou, como se fosse uma vantagem, que não usa bala de borracha nessas manifestações, só gás de pimenta e prende uns e outros. Não entendeu nada. O jovem que tem uma vida virtual e se foi pra escola com um carregador de celular, ele está conectado com o mundo, igual estaria em seu próprio quarto. E vamos combinar que o pátio da escola é muito mais divertido. Lá, eles têm poder, não têm a mãe mandando escovar o dente. Ainda assim, eles escovaram o dente, fizeram as camas, porque eles têm essa formação. Chegou a hora de mostrar que podem, que são autônomos.

Familiares levam alimentos para alunos acampados no E.E.Prof° Josepha P. Chiavelli

Familiares levam alimentos para alunos acampados no E.E.Prof° Josepha P. Chiavelli

Não Mexa no Josepha l Reprodução

Portal Aprendiz: E como você vê o papel da comunidade e da família nas ocupações?

Pilar: Deve ter tido um momento de medo e estranhamento, dos pais ficarem com medo dos filhos, mas a partir do momento em que os jovens deram sinais de maturidade, de responsabilidade, a comunidade foi chegando, as mães foram ficando na porta – teve até a mãe que pediu demissão para ajudar! Foi tudo uma questão de ganhar a causa, de peitar o adulto que o proibia de participar e lutar pelo que acredita.

Se eles tivessem enchido a cara, tido casos de coma alcoólico, tivessem quebrado as coisas, aquilo que se espera de um adolescente – e muita gente esperava isso – eles não ganhariam apoio e legitimidade. E, sem isso, a polícia não conseguiu amedrontar e a justiça não aprovou a desocupação. Ao contrário, eles cuidaram do espaço. As forças policiais até tentaram patrocinar um vandalismo em Osasco, para ter justificativa para agir, mas ficou tão artificial que ninguém acreditou. Esses meninos saíram do script que historicamente lhes foi imposto.

(A foto que ilustra esta matéria é de Rovena Rosa/Agência Brasil, via Creative Commons)