Aprender na cidade

Livros infantis assumem o desafio de falar sobre ditadura e democracia com crianças

“A democracia é como um recreio”, definiu Marcela*, 7, ao terminar leitura  “A Democracia Pode Ser Assim”, lançado pelo selo Boitatá, da Editora Boitempo. A frase de Marcela* que mais marcou sua leitura abre o livro infantil, lançado ao mesmo tempo com a obra “A Ditadura é Assim”.

Ambas as publicações são originárias da editora Gaya Ciencia, de Barcelona, e chegaram às livrarias três anos após o fim da ditadura franquista, entre 1977 e 1978, sob o título “Livros para o Amanhã”. Foram elaboradas por uma equipe multidisciplinar, a Equipo Plantel, e relançadas recentemente na Espanha pela Editora Media Vaca.

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“Os editores da Media Vaca, Begoña Lobo e Vicente Ferrer, descobriram a coleção e ficaram surpresos com sua atualidade. Perceberam ainda que o “amanhã” ao qual a coleção se destinava ainda não havia chegado e assim decidiram republicá-los, com novas ilustrações. São essas as edições que estamos lançando, sem nada suprimir dos volumes originais”, afirma Ivana Jinkings, diretora editorial da Boitempo, que em fevereiro lançará os outros volumes da coleção, “O que são classes sociais?” e “As mulheres e os homens”.

Também em dezembro deste ano, foi lançado o “Quem manda aqui?”, pela Companhia das Letrinhas. Construído e financiado colaborativamente, o livro também busca trabalhar o poder e a política com as crianças, questionando hierarquias, construções de gênero e estrutura de poder. Ele está disponível para download no site do LabHacker.

 

Segundo ela, a publicação se torna relevante diante do período “especialmente conturbado em nosso país e no mundo”. Ivana acredita que as crianças não vivem alheias a toda essa agitação. “Elas são curiosas, interessadas, querem entender melhor o mundo que as cerca, as movimentações nas ruas, o que veem e ouvem da TV. E infelizmente as escolas, e muitas vezes os próprios pais, em geral, não possuem material adequado para ajudar os pequenos com seus questionamentos.”

Leitura mediada e escuta atenta

“Todo tema pode ser tratado com crianças. Mas há de se escolher como, saber quem vai mediar”, avalia Cristiane Tavares, mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP e colaboradora das revistas Emília e Brasileiros. Segundo ela, ao lançar mão de temas complicados, como sistemas políticos e casos de violência, não é aconselhável deixar a criança sem amparo e a leitura sem discussão.

“Quando você vai falar com a criança sobre esses temas, o mais importante é a escuta. Não tem receita pronta, mas é importante estar atento aos elementos estéticos e às chaves de leitura que a criança pode trazer, uma vez que ela vê coisas que muitas vezes a gente não viu. Não forçar a barra é importante, porque o adulto que for falar de maneira muito doutrinária, pode acabar falando sozinho”, pondera Cristiane, que irá ministrar um curso de férias chamado “Conversar sobre livros com as crianças: o que abordar e como?”, no Instituto Vera Cruz.

Política é coisa de criança

Para Cristiane, os livros da coleção Boitatá têm como mérito o trabalho gráfico cuidadoso que ajuda a envolver os pequenos e a ampliar as possibilidades de leitura. “Os livros também trazem ótimos textos informativos assinados por especialistas colaboradores da editora ao fim que podem ajudar a aprofundar a discussão, assim como as charges e o tratamento estético salta aos olhos”, analisa Cristiane.

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Se o “A Democracia Pode Ser Assim” abre muitas possibilidades de leitura, assim como o regime democrático se dá por diversos arranjos de poder, disputas e discursos, o “A Ditadura é Assim” apresenta uma narrativa linear da vida de um ditador e do que acontece com o povo de um país sob sua tutela. Para a edição brasileira, foram incluídas caricaturas de Ernesto Geisel, que governou o Brasil durante o período da ditadura militar.

Trabalhar com ditaduras não parece prontamente palatável, mas a leitura conjunta com o outro do livro da série oferece comparações possíveis. Se o vilão é apenas um, os heróis e heroínas da democracia são as muitas mãos que a constroem.

“Estes livros não são materiais simples de se fazer, pois não podem ser esquemáticos, não faria sentido publicar cartilhas, mas sim oferecer material para as crianças com os quais ela possa construir suas próprias ideias e conceitos. Acreditamos que política é também coisa de criança e que pode ser muito saudável e positivo deixá-la construir suas referências, enxergar o lugar do outro e o seu próprio no mundo”, finaliza Ivana.