Aprender na cidade

Em Goiás, projeto arrecada bicicletas para levar crianças quilombolas até suas escolas

Por Cecília Garcia, do Promenino, com Cidade Escola Aprendiz

No Vão de Almas, as almas andam a pé. Diminuem dedo por dedo, metidas na poeira das estradas de terra, as distâncias que existem entre as casas espaçadas da comunidade quilombola no município de Cavalcante, em Goiás. O tempo lá no Vão passa em outro tempo, mais lento, quase na velocidade dos animais do Cerrado. Quem mora em uma casa é vizinho de outra por uma lonjura grande como a saudade. Quem colhe maxixe, arrancou da raiz de seu quintal e, para levar a produção às cidades próximas, sobe em um caminhão sem freios, mas com especial aptidão para transitar por serras íngremes.

É possível falar que as casas são de adobe (terra-crua), mas a estrutura que as mantêm em pé, mais de quatrocentos anos depois de sua criação, vem da resistência herdada de quem teve a coragem de desbravar a Chapada dos Veadeiros. Os quilombolas kalungas são descendentes de pessoas escravizadas que se embrenharam em uma mata ondulada e de difícil acesso, no meio da Chapada. É o maior quilombo em território brasileiro, que se divide entre as comunidades Engenho II, Prata, Vão do Moleque e Vão de Almas.

Delas, Vão de Almas é a mais isolada, a 90 quilômetros da cidade de Cavalcante. A energia elétrica está sendo lentamente implantada, e muito de seu transporte ainda é feito a pé ou por animais de carga vagarosos.

No começo de 2016, as jovens Carla Marinho e Maria Lívia foram visitar a comunidade. Depois de uma chegada difícil, com direito a carro enguiçado no alto da serra, elas foram recebidas com uma hospitalidade bem interiorana: tinha milho cozido e maxixe no prato e músicas tocadas no violão.

Elas conheceram as escolas e distâncias grandes que as separam das crianças que nelas estudam. É uma comunidade de heróis cotidianos. Em salas multisseriadas e com recursos simples, professoras como Josina atravessam seus alunos à canoa quando o rio está muito alto. Os estudantes acordam muito antes de o sol raiar, às vezes não tomam café da manhã, e com a barriga vazia tomam o caminho que vai levá-los para estudar. “As crianças estão sempre na escola. Precisa chover semanas inteiras para impedir que elas estudem”, conta Carla Marinho, idealizadora do projeto De Bike pra Escola – iniciativa que pretende angariar 120 bicicletas para os estudantes.        

Ponto de partida

Vão de Almas é a mais isolada, a 90 quilômetros da cidade de Cavalcante. A energia elétrica está sendo lentamente implantada, e muito de seu transporte ainda é feito a pé ou por animais de carga vagarosos.

Vão de Almas é a mais isolada, a 90 quilômetros da cidade de Cavalcante. A energia elétrica está sendo lentamente implantada, e muito de seu transporte ainda é feito a pé ou por animais de carga vagarosos.

André Longo

Carla conheceu os percalços de transporte escolar em Vão de Almas por conta da luta de sua tia, que é promotora da região. Em uma reportagem sobre as dificuldades do transporte escolar rural, exibida pelo programa Profissão Repórter, a tia denunciou a compra de um ônibus que nunca foi utilizado, e estava pensando em ações para juntar bicicletas para a locomoção das crianças. Carla ficou muito tocada pela iniciativa. Do dia para a noite, surgiu o nome do projeto.

Unindo-se às amigas Maria Lívia e Amanda Leticcia, todas com experiência em assistência social, elas começaram a esboçar a ideia de uma iniciativa que levaria 120 bicicletas para as escolas de Vão de Almas. A escolha do meio de transporte veio de experiências prévias de crianças da comunidade, que optavam pelo transporte pela sua praticidade e facilidade de locomoção em um terreno onde veículos derrapam e atolam.

Ainda que a ideia tenha surgido em um relâmpago de pensamento, transformá-la em realidade não foi tão simples. Carla comenta: “Pensamos assim ‘vamos receber bicicletas, tem muitas por aí, vamos levantar uma vaquinha, vai ser fácil”. Elas começaram uma campanha online, mas perceberam que o processo seria lento e que envolveria toda uma logística, desde guardar as bicicletas coletadas até arcar com os fretes para buscar doações em outros estados. No dia da entrevista para o Promenino, Carla e Maria Lívia tinham conseguido 25 bicicletas e R$ 13.230 dos R$ 35.000 que pedem para reformar as bicicletas usadas e comprar modelos novos.

“Vai funcionar como um comodato: Tal escola vai receber ‘X’ bicicletas e distribuí-las de acordo com as distâncias percorridas. E no próximo ano, se a criança não ficar lá ou se mudar, a bicicleta é passada para outro aluno”, explica Carla. Ela também avisa que não é uma doação passiva. O projeto se compromete a acompanhar de perto a repassagem das bicicletas e ter uma relação próxima com os articuladores – no caso, as Secretarias de Educação locais.

Destino: escolas da região

Levar as bicicletas não é uma solução pensada somente para a locomoção. “Começa com o transporte, mas o objetivo final é a educação. As crianças precisam chegar à aula sem cansaço, e se sentindo motivadas a ir.” A bicicleta encurta distâncias, não só as físicas, mas também as que separam a criança de se munir de conhecimento e alçar voo para lutar por sua comunidade e por sua individualidade. As garotas têm ciência de que a bicicleta não resolve todos os problemas; mas funciona como uma tesourada de duas rodas neles.

Devido às ações na internet e muitas matérias abordando o projeto, o “De Bike pra Escola” está ganhando força e recebendo doações de todos os cantos do país. Com os elogios, vêm também críticas, embora Carla garanta que elas são sempre construtivas. “’Por que vocês estão fazendo isso, isso não é obrigação do governo?’, é uma das criticas que costuma aparecer. É quase como se disséssemos: tudo é obrigação do governo, nunca temos responsabilidade em nada? Não pensamos assim”, esclarece Maria Lívia.

Quando a criança quilombola ajusta os freios e gira lentamente o pedal de metal, o barulho da correia se mistura aos dos pássaros: ela goza de uma sensação de independência que só o vento transpassando a grama e atingindo o rosto dá; o menino ou a menina tem controle sobre o seu trajeto e destino. E quem tem uma bicicleta, tem também responsabilidade: mais do que um brinquedo móvel, é dever da criança zelar pela bicicleta, para garantir que, quando não precise mais dela, a bike ainda possa rodar e levar outros estudantes pelos mesmos caminhos.

Carla está fazendo cursinho para prestar medicina, e Maria Lívia acaba de começar a cursar Direito. Talvez elas não percebam, mas o “De Bike pra Escola” é um movimento de empoderamento para elas próprias, de protagonismo juvenil. Ao detectar um problema, comprometeram-se a enfrentá-lo com o que tinham à sua disposição, em conjunto e respeitando as particularidades da comunidade quilombola.

Cada casa que se ergue e se mantém em um quilombo é herança construída para resistir ao sistema escravocrata. Cada criança carrega no sangue a fortaleza de uma história. Quando ela veste o uniforme, sobe na bicicleta e começa a pedalar em direção à escola, se junta aos antepassados combativos, utilizando a educação pelo direito de existir. Chegar à escola é hoje a luta, e as almas podem ir mais tranquilas e rasantes, porque agora andam de bicicleta.