Transformar a cidade

Projeto estimula reflexão sobre os crimes da ditadura na periferia de São Paulo

Com lançamento marcado para esta terça-feira (5/4) no anfiteatro do CEU Perus, na zona noroeste de São Paulo, o projeto Clínicas do Testemunho nas Margens oferecerá apoio psicológico gratuito para os cidadãos que tenham sofrido traumas e marcas subjetivas perpetradas pela violência de Estado durante os anos de 1946 e 1988, período abrangido pela Lei da Anistia.

A iniciativa, resultado de parceria entre a Comissão da Anistia do Ministério da Justiça e organizações da sociedade civil, contará com cinco núcleos em quatro capitais do Brasil (Rio de Janeiro, Porto Alegre, Florianópolis e dois em São Paulo). Através das clínicas psicológicas, a intenção é criar um espaço de escuta dos sofrimentos causados pela violência estatal e, com isso, possibilitar que as vítimas entendam de que maneira foram atingidas pela ditadura para, então, responsabilizar os culpados.

“Um dos objetivos do projeto é tornar público esse debate e contribuir para que mais vozes falem sobre o tema e deem seu testemunho sobre o período”, afirmou o coordenador Clínicas do Testemunho nas Margens, Pedro Lagatta.

Lagatta também integra o coletivo Margens Clínicas, que oferece assistência psicológica gratuita às vítimas dos excessos de Estado causados após 1985, ou seja, depois da ditadura. “Apesar de estarmos na democracia, a violência estatal permanece, principalmente nas periferias, mirando grupos sociais específicos, e deixa marcas indeléveis na subjetividade das pessoas. Isso precisa ser falado e pensado coletivamente”, aponta.

Clínicas do Testemunho nas Margens oferece apoio psicológico gratuito para os cidadãos da periferia que sofreram traumas perpetrados pela violência estatal.

Protesto dos queixadas durante o regime militar.

Reprodução

O coordenador reitera as pontes existentes entre a violência de Estado do presente e do passado. “Ineficiente e incompleta, a transição da ditadura para a democracia deixou legados muito fortes. Queremos jogar esse fenômeno da continuidade dos arbítrios do Estado para o centro da discussão.”

Repressão na periferia

O núcleo paulistano do Clínicas do Testemunho nas Margens priorizará o atendimento em duas regiões do município que, mesmo distantes do centro da cidade, foram marcadas pela resistência ao regime de exceção: Perus e Heliópolis. “A violência que acometeu pessoas organizadas da classe média durante a ditadura é muito mais debatida do que aquela que impactou as periferias”, reconhece Lagatta.

Um dos primeiros desafios do projeto será o de achar as pessoas afetadas das mais variadas formas pela violência de Estado e leva-las para a discussão. “Há muitas pessoas que sofreram abusos que nem sequer se identificam como vítimas”, observa Lagatta. Em Heliópolis, o projeto contratará jovens moradores da comunidade que, após capacitação, farão pela região uma busca ativa de testemunhos.

“O regime militar afetou profundamente bairros e comunidades periféricas”, prossegue. O Cemitério Dom Bosco, construído em 1970 em Perus , era utilizado para enterrar corpos de indigentes, entre eles vítimas diretas do regime.  Aberta em 1990 durante a gestão de Luiza Erundina, mais de mil ossadas foram descobertas. “Sem dúvida é uma ferida aberta na história do bairro”, acredita o coordenador do projeto. Ainda em Perus, uma greve dos trabalhadores da fábrica de cimento local – conhecidos como queixadas – durante a ditadura também deixou marcas na história local.

Já Heliópolis viu sua comunidade se constituir justamente nos anos do regime. “Lá existe um histórico muito forte de resistência. Por se estabelecer em um local valorizado da cidade, houve muita luta da população para permanecer ali”, relembra Lagatta. “Hoje o bairro se considera educador e possui grupos organizados, com uma atuação que vai muito além da reivindicação por melhores equipamentos públicos.”

Não é necessário que se more nas regiões para se inscrever no atendimento. Para receber a assistência psicológica gratuita, é preciso enviar um e-mail para o endereço margensclinicas@gmail.com, preencher uma ficha de inscrição e aguardar um parecer da Comissão de Anistia. Segundo Lagatta, os trabalhos acontecerão prioritariamente em grupos terapêuticos de até dez pessoas, com duas horas de duração (a frequência das sessões será discutida entre os membros dos grupos).

Serviço
Lançamento do projeto Clínicas do Testemunho nas Margens
Data: 5/4 (terça-feira), às 19h
Local: Anfiteatro do CEU Perus (rua Bernardo José de Lorena, sem número – próximo à estação Perus da CPTM)
Evento gratuito e aberto