Aprender na cidade

Brechas Urbanas: olhares na direção de uma cidade para crianças

Atualmente, acredita a jornalista Natália Garcia, vivemos num ambiente urbano moldado de maneira anti-natural, com as crianças removidas da convivência coletiva, das ruas e praças. Um modo de vida dominado pelo medo e pela velocidade, pela necessidade de passagem atropelando a permanência e a convivência. Mas, olhando a escala mínima do urbanismo e da vida – a infância – é possível prescrutar as brechas e ver outra cidade para crianças e para todos – em seu passado, presente e futuro – não como está dada, mas como pode vir a ser.

Para levar adiante estas reflexões, o debate “Brechas Urbanas”, realizado na noite desta terça-feira no Itaú Cultural, em São Paulo, e mediado pela jornalista, que coordena o blog Cidade Para Pessoas, trouxe Vicente Lourenço Goés, que participa do coletivo Barro Molhado, um projeto que aposta no meio urbano como espaço de aprendizagem, e Roni Hirsch, do Erê Lab, que cria mobiliários urbanos para crianças.

Iniciativas do Barro Molhado e do Erê Lab mudam olhar sobre a cidade.

Iniciativas do Barro Molhado e do Erê Lab mudam olhar sobre a cidade.

Christina Rufatto l Itaú Cultural

Na dúvida, a praça

Goés relatou que sua rede – o Barro Molhado, formada por associações voluntárias – partiu do processo de debruçar-se em uma realidade antiga da humanidade: ter filhos. “Sabíamos que não queríamos uma educação institucional, então fomos para a praça entender o lugar, o nosso lugar. Percebemos que o desenvolvimento do adulto é tão importante quanto o da criança. É ele quem mais precisa de cuidado. Vimos que a criança apenas não precisa ser atrapalhada em seu desenvolvimento”.

Para o educador, a infância é um estado do ser humano, cristalizado na criança pela perda da dimensão do brincar e do cuidado entre os adultos. “No Barro, gostamos de dizer que cuidamos de infância. Quando lidamos com elas, percebemos que se trata de trabalhar com um desenvolvimento humano amplo, que escapa da compreensão limitante de uma educação padronizada. O que trazemos para a criança, o ambiente propício para seu desenvolvimento, para nós é curativo. Quando se escuta uma criança de verdade, também se escuta a criança que um dia nós fomos e a que ainda vive dentro de nós”, refletiu Vicente.

Cada família que se aproxima escolhe as atividades que quer desenvolver com os filhos dentro do projeto, que se dá majoritariamente em praças de São Paulo, formando o que Vicente qualifica como um “tecido comunitário comum e singular”. “Não adianta pensar em educação de resultados, em algo grandiloquente. A educação é o próprio viver, que vai se dar dependendo da qualidade dos vínculos que consigamos formar ao longo da vida. Viver em um centro urbano desafia a manutenção desses vínculos, então fazemos essa recostura, juntamos as partes isoladas dentro de cada um e entendemos que o que emerge produz esse indiviíduo, essa comunidade, essa cidadania, essa democracia, essa ética”, propõe.

Crianças brincam livremente em atividade do Barro Molhado. Para Goés, trata-se de "não atrapalhar seu pleno desenvolvimento".

Crianças brincam livremente em atividade do Barro Molhado. Para Goés, trata-se de “não atrapalhar seu pleno desenvolvimento”.

Blog do Barro Molhado l Reprodução

Ruas de brincar

Para ajudar a tecer essa recostura, proposta pelo Barro Molhado, Roni Hirsch trouxe sua experiência em transformar espaços públicos em lugares protagonizados por crianças, através do Erê Lab. O artista conta que seu primeiro filho, Ravi, nasceu em 13 de junho de 2013, quando manifestações tomavam as ruas da cidade. Com ele nos braços, na maternidade, pensava para onde todas estas pessoas estavam indo. De uma coisa estava certo, no entanto: estavam indo pela cidade.

“Eu via aquelas pessoas retomando a cidade, combatendo a ditadura do medo, pensando sobre suas vidas, sobre acordar todos dias e ir pro trabalho, sobre pertencer a esta massa, e viver em condomínios e prédios fechados, enclausurados entre carros. Naquele momento, eu decidi juntar meus sonhos, a arte, o design, para transformar efetivamente a cidade e a vida das pessoas. Foi ai que escrevi o ‘Manifesto’, que baseia até hoje a atuação do Erê”.

Dialogando com esta fala, o Manifesto aposta que através da experiência do brincar é possível lidar com os desafios da contemporaneidade, superar medos e criar um mundo melhor. “Acreditamos em um mundo melhor e democrático. Precisamos criar novas lideranças que compreendam a importância de se colocar no lugar do outro e das relações horizontais. Vamos abrir as portas para o lugar dos sonhos no sentido real, do possível. Que seja mais do que um lugar; que seja um caminho, uma vivência com a arte e com a cidade”, diz o texto de Hirsch.

Parquinho do Erê Lab ajuda a criar afetividade com locais da cidade.

Parquinho do Erê Lab ajuda a criar afetividade com locais da cidade.

Erê Lab l Reprodução

Segundo ele, trata-se de entender a criança como cidadão participativo da vida da cidade, com deveres e direitos. “É fundamental entendermos que a criança não existe só, ela está conectada à uma rede. Quando você cria um espaço para elas, você cria um espaço para suas famílias. Cada brinquedo que a gente faz é um pontapé para um território mais brincante”.

Criar isso, acredita, traz afetividade para os territórios, que se traduzirá em pertencimento, em cuidado, em memórias e em convivência. “Se o espaço público é um campo vazio, não há afeto que se sustente ali. No Largo da Batata, onde temos uma instalação permanente de mobiliários voltados para crianças, cria-se espaços de respiros. Vejo muitas mães das periferias da zona oeste, que vem até o Largo para fazer compras, todas cheias de sacolas. Elas param ali para descansar e deixar seus filhos brincarem. Isso desenvolve lugares e dissolve ilhas, isolamentos”, finaliza.