Transformar a cidade

Por mais participação e menos sucateamento, aprendizes ocupam Fábrica de Cultura do Capão Redondo

Atualizada no dia 1º/7, às 13h10.

Tão logo se adentra a Fábrica de Cultura do Capão Redondo (FCCR), um banner colorido anuncia em letras garrafais: “O espaço é seu!”. Pois foi com essa premissa que, desde o dia 25/5, centenas de aprendizes estão ocupando o equipamento cultural do Governo do Estado de São Paulo, localizado no extremo sul da capital paulista.

Os adolescentes, jovens e até mesmo crianças que tomaram o espaço denunciam a precarização e o sucateamento que atinge a Fábrica, gerida pela organização social Poiesis. Além de mais participação nas decisões e maior transparência da gestão, os aprendizes pedem melhorias na estrutura física do prédio, que chega a ter vários pontos alagados quando chove. Um iminente corte de verbas também os mobiliza contra o fechamento de ateliês e uma possível demissão em massa de arte-educadores.

Mas o estopim para a movimentação dos aprendizes foi a mudança do horário de fechamento da biblioteca: antes as 20h, foi antecipado para as 17h no início de maio. Os frequentadores e usuários da Fábrica se mobilizaram, passaram a realizar assembleias e a Poiesis recuou, anunciando um novo horário de funcionamento, até as 19h.

A medida não foi o suficiente para barrar a ocupação, que completa 10 dias nesta sexta-feira (3/6). Em um local distante da região central da cidade e com pouca presença de equipamentos públicos, a biblioteca da FCCR desponta como a única da região, segundo os ocupados.

Aprendizes pedem melhorias na estrutura física da Fábrica de Cultura e são contra o fechamento de ateliês e a possível demissão em massa de arte-educadores.

Sonhos. Possibilidades. Respeito. Ideias. Tentativas. Pensar, olhar, ouvir, realizar. Vitória. Grafitadas nas paredes da Fábrica de Cultura do Capão Redondo, tais palavras expressam o sentimento de jovens que acreditam na cultura como transformadora do espaço periférico onde vivem e, consequentemente, como impulsionadora de seus desejos.

O Portal Aprendiz visitou a ocupação nesta quinta-feira (2/6). Uma faixa pendurada na entrada principal afirma que a Fábrica está funcionando – apesar do corte de telefone e internet – e segue aberta para o usufruto da comunidade. E quem está dando conta do funcionamento – inclusive dos ateliês de teatro, dança, música, circo e capoeira – são os próprios aprendizes, já que a Poiesis vetou a entrada de arte-educadores na Fábrica ocupada.

“Agora somos nós por nós”, orgulha-se Renan, aprendiz de multimeios. Com jovens de todas as idades, há entre os ocupantes alguns mais experientes que outros em suas áreas de interesse: são esses os responsáveis por dar as aulas. “Vejo uma evolução coletiva. Estamos aprendendo a trabalhar em grupo”, diz Vitória, aprendiz de literatura. Sua companheira de curso, Amanda, afirma que o conteúdo aprendido no local é de qualidade. “Mas o que estamos buscando é uma maior igualdade no uso do espaço”.

Aprendizes pedem melhorias na estrutura física da Fábrica de Cultura e são contra o fechamento de ateliês e a possível demissão em massa de arte-educadores.

Ateliês e oficinas continuam acontecendo normalmente.

Danilo Mekari

Projeto do Governo de São Paulo em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), as Fábricas de Cultura têm o objetivo de ampliar o conhecimento cultural por meio da interação com a comunidade e promovem acesso gratuito a diversas atividades artísticas.

As novas configurações da Fábrica possibilitam ainda que os aprendizes circulem livremente pelos cursos oferecidos durante a ocupação. “É bom para conhecer novas áreas e ter interação com outras pessoas”, observa Bruno, aprendiz de artes visuais. “E também tem um monte de gente de fora que está vindo para conhecer”.

Para manter a ocupação organizada e articulada com o entorno, os estudantes criaram cinco grupos de trabalho: limpeza, segurança, cozinha, articulação e comunicação. Recebem alimentos doados pela comunidade e, engajados na luta por uma merenda digna, rechaçam o kit lanche cedido pela Fábrica. “É um alimento sem qualidade, baseado em conservantes”, pontua Caroline. Uma nutricionista foi chamada para visitar a cozinha e ajudar na construção de um cardápio balanceado e saudável.

Com o tempo, os aprendizes vão decodificando os segredos da Fábrica. Descobriram uma sala onde ficam estocados inúmeros equipamentos sem uso; encontram chaves de salas trancadas pela gestão, como o estúdio de música e a sala de multimeios. Semelhanças com o que aconteceu durante as ocupações que tomaram mais de 200 escolas estaduais no final de 2015 não são mera coincidência. “Aquele movimento é uma inspiração para a gente”, declara Renan. “Afinal, o mesmo processo de sucateamento, que antes atingiria as escolas, agora está atingindo a Fábrica.”

Aprendizes pedem melhorias na estrutura física da Fábrica de Cultura e são contra o fechamento de ateliês e a possível demissão em massa de arte-educadores.

Atualmente, o governo do Estado cede a gestão das Fábricas de Cultura para duas organizações sociais: a Poiesis, que controla a região norte e sul da cidade (Fábricas de Brasilândia, Jaçanã, Vila Nova Cachoeirinha, Jardim São Luís e Capão Redondo) e o Catavento Cultural, responsável pelos equipamentos da zona leste. Os contratos são feitos através de licitações que ocorrem de quatro em quatro anos – recém-renovado, o contrato com a Poiesis prevê um investimento de R$ 63 milhões.

“Cadê a verba?” e “Queremos recursos”, porém, são frases recorrentes nos cartazes espalhados pela ocupação. Em nota enviada à reportagem, a Poiesis afirma que realizou duas reuniões com os aprendizes, mas ainda aguarda o envio formal de suas reivindicações. “Infelizmente, com a ocupação, cerca de 1.300 crianças e jovens deixarão de frequentar os ateliês e trilhas. Também estão deixando de ser realizadas as atividades livres, como shows e apresentações artísticas, para milhares de pessoas”, diz a nota.

E prossegue: “Reforçamos que as atividades propostas pelos aprendizes que ocupam o prédio da Fábrica de Cultura do Capão Redondo não têm nossa concordância. Ao contrário de boatos que chegaram a circular pelas comunidades, nenhuma Fábrica de Cultura vai encerrar suas atividades ou será sucateada, nem terá educadores demitidos em massa.”

De acordo com Gisele Turteltaub, coordenadora de imprensa da Secretaria de Estado da Cultura, “não há indícios de sucateamento nem na estrutura física do prédio nem no modelo do programa”. Ela citou a página de Facebook “Contra a invasão na FCCR” como exemplo de que a comunidade do entorno da Fábrica é contrária à ocupação.

Quando questionado sobre os motivos de seu posicionamento contrário à mobilização, Cleyton Lemos, responsável pela página (que tem 195 curtidas), se limitou a dizer que a ocupação “é uma palhaçada” e que seus companheiros aprendizes são “um bando de irresponsáveis”. Ainda afirmou que daria nota dez à atual gestão.

Aprendizes pedem melhorias na estrutura física da Fábrica de Cultura e são contra o fechamento de ateliês e a possível demissão em massa de arte-educadores.

Aprendizes mais experientes estão dando aulas para os mais novos.

Danilo Mekari

Atividades externas também fazem parte da programação da Fábrica ocupada. Teatros de grupo, como a Brava Companhia, o pH2, o Lona Preta e o Clariô já se apresentaram para os aprendizes, que agora negociam uma apresentação do rapper Mano Brown.

Opinião contrária à de arte educadores que trabalham na Fábrica de Cultura do Capão Redondo e, por receio de represálias trabalhistas, preferiram não se identificar. “Acredito que o sucateamento vai acontecer não na quantidade, e sim na qualidade do serviço. Haverá uma diminuição do número de educadores, e como a oferta de cursos e atividades serão praticamente as mesmas, haverá sobrecarga e consequente diminuição da qualidade dos cursos oferecidos”, aponta um arte educador.

Ele acredita que as prováveis demissões serão baseadas em critérios políticos. “As intenções reais serão maquiadas com questões mais objetivas, como atrasos e assinaturas erradas de ponto, mas sabemos que haverá critérios políticos por trás das demissões. Educadores que batem de frente e questionam as orientações pedagógicas da instituição serão os alvos prioritários, e o corte de verbas vem a calhar para disfarçar a questão e eliminar esses opositores.”

Na visão de uma arte educadora, estimular a autonomia e o empoderamento dos aprendizes faz parte da filosofia da FCCR, e agora eles vivem um momento em que são protagonistas de seu processo histórico. “Estão ligados à situação política atual, com as reivindicações secundaristas, com os órgãos de cultura ocupados. O que está acontecendo no mundo eles estão reverberando.”

Segundo ela, a retenção de verbas parou reformas e impediu a compra de novos materiais, e os boatos da demissão em massa nunca foram esclarecidos pela Poiesis. “Tudo que a gente pede de clareza com relação ao trabalho nunca é esclarecido – pelo contrário, sempre acham um jeito de florear e usar uma retórica para que não consigamos compreender claramente o que será feito no futuro.”

Aprendizes pedem melhorias na estrutura física da Fábrica de Cultura e são contra o fechamento de ateliês e a possível demissão em massa de arte-educadores.

Estimular alimentação saudável é um dos feitos da ocupação.

Reproducao

Responsável pelas oficinas de capoeira durante a ocupação, o aprendiz Jonathan demonstra clareza ao conectar a situação atual do país com a mobilização na FCCR. “Hoje no Brasil quem manda é o dinheiro. E são eles [Poiesis] que tem dinheiro. De nossa parte, devemos trazer a comunidade para o nosso lado, para mostrar que nós mesmos damos conta da Fábrica”, argumenta.

Aprendizes estão panfletando matérias da ocupação pelo bairro, utilizando mega fones para amplificar suas ideias e desmentir boatos de que a ocupação está prejudicando a Fábrica. Com mais de mil curtidas, a página de Facebook “Aprendizes de olho” publica notícias e informações feitas pelos próprios ocupantes.

Recentemente, no dia 29/3, sem aviso prévio, as Bibliotecas do Parque Villa-Lobos e do Parque da Juventude (Biblioteca São Paulo), administradas pelo Governo do Estado, tiveram seu horário de fechamento reduzido das 21h para as 18h30. O horário noturno era especialmente relevante para frequentadores dos cursos noturnos das unidades.

“O que precisamos é conseguir que a comunidade entre nessa Fábrica, que ainda sofre arbitrariedades pois é gerida por pessoas que não estão lá, não sabem as necessidades de lá. Quando os aprendizes ocupam a Fábrica é para dizer que ela é nossa, que eles querem participar”, observa uma arte educadora.

“A experiência política de ocupar é um processo que gera crescimento em todos os envolvidos, se conhecendo e se auto conhecendo, promovendo troca de informações. Isso é de uma riqueza enorme, adquirindo conhecimento e apropriação de uma forma que não tem como retroceder. Acredito que a partir de agora a Poiesis não vai conseguir só impor a opinião dela”, pontua.

Aprendizes pedem melhorias na estrutura física da Fábrica de Cultura e são contra o fechamento de ateliês e a possível demissão em massa de arte-educadores.

Aprendizes panfletam em espaços do Capão Redondo.

Danilo Mekari

Rodrigo participou do ateliê de circo no ano da fundação da FCCR, em 2013. Hoje, se sentiu compelido a apoiar a causa e dá aulas de circo para os jovens aprendizes. “Alguns querem restringir o debate ao horário de funcionamento da biblioteca. Mas não é só isso: o que estamos gritando é que não adianta apenas a Poiesis dizer como é. A gente quer ter voz ativa dentro da Fábrica”, finaliza.

Nova ocupação

Nesta sexta-feira (1º/7), os aprendizes da Fábrica de Cultura da Brasilândia também ocuparam o equipamento, administrado pela Poiesis. Os jovens são contra o corte de verbas, a redução de ateliês, a demissão em massa de arte-educadores e a falta de transparência da organização social que gere a Fábrica.

Um debate público sobre o sucateamento destes equipamentos culturais do governo do Estado de São Paulo está marcado para este sábado (2/7), a partir das 16h, na Fábrica de Cultura do Capão Redondo (rua Algard, 82 – Jd. São Bento).

(A pedido das fontes, todos os nomes utilizados na matéria são falsos.)