Aprender na cidade

Em São Paulo, cortejo pela democracia articula linguagens artísticas ao território

Distante exatos 34 quilômetros do marco zero de São Paulo, onde vestígios de uma natureza intacta faz duvidar que ainda estamos na capital paulista, o Centro de Educação em Direitos Humanos (CEDH) da zona oeste – localizado no CEU Pêra-Marmelo, no bairro do Jaraguá – promove até esta sexta-feira (10/6) a 2ª Jornada pela Democracia, evento que utiliza linguagens artísticas para realizar debates e atividades sobre a democratização das comunicações.

Uma dessas linguagens artísticas e libertárias escolhidas para envolver crianças de dois a três anos de idade com a comunidade local foi um cortejo infantil, que percorreu as ruas vizinhas do CEU na tarde de quinta-feira (9/6), apresentando múltiplas linguagens artísticas para os pequenos cidadãos de São Paulo.

A 2ª Jornada pela Democracia é organizada pela Diretoria Regional de Educação de Pirituba/Jaraguá em conjunto com os cinco CEUs da zona oeste paulistana (Pêra-Marmelo, Perus, Parque Anhanguera, Vila Atlântica e Jaguaré) e o CEDH Oeste. Conta ainda com o apoio das Secretarias Municipais de Educação, Cultura e Direitos Humanos e Cidadania.

Apesar do frio intenso, fazia sol no momento em que as crianças ultrapassaram os portões do CEU e se esparramaram para a cidade que o cerca. Acompanhadas de pais e professores, foram deixando de lado o receio inicial e se adaptando ao ambiente urbano, dividindo o espaço da calçada com pedestre e o da rua com carros, sempre chamando a atenção de quem estava nos arredores.

Fizeram barulho, cantaram cantigas infantis, deram risadas, tocaram diversos instrumentos, carregaram placas e, ao final, puderam conhecer um pouco mais do bairro e da comunidade em que vivem. Ao voltarem para o espaço do CEU, uma nova rodada de músicas e cirandas populares espantou o frio e garantiu a diversão de meninas e meninos, impressionados com a presença de um boi-bumbá.

Ação fez parte da 2ª Jornada pela Democracia, evento que utiliza linguagens artísticas para realizar debates sobre a democratização das comunicações.

Como são crianças muito pequenas, os pais foram convidados a participar do cortejo, também com um desejo de envolvê-los ainda nos processos educativos dos filhos. Muitos dos presentes apoiavam a ação fora da sala de aula. “É muito importante a escola mostrar a sua cara para o bairro, e também as crianças se apresentarem para o lado de fora”, afirma Tatiane, mãe de Ana Caroline.

Para Eliane Lorieri, musicista e arte educadora da rede municipal, cujo trabalho busca valorizar a cultura popular, a troca entre escola e comunidade – em suma, entre crianças e moradores do bairro – é muito rica e possibilita novos olhares para todos. “Hoje, a cultura popular é pouco valorizada. Engolimos muita cultura que vem de fora. A época junina é muito propícia para resgatar essa festa típica brasileira”, observa Eliane, que apresentou para as crianças ritmos como o coco e o cacuriá.

Ação fez parte da 2ª Jornada pela Democracia, evento que utiliza linguagens artísticas para realizar debates sobre a democratização das comunicações.

“É preciso pensar no CEU como um território educativo. Esse espaço é da comunidade e para a comunidade”, aponta Luciene Amor, coordenadora de projetos educacionais do Pêra-Marmelo. “Aqui na região o acesso ao lazer é muito escasso. O CEU proporciona cinema, esporte, cultura, e buscamos trazer a comunidade para dentro do CEU e levar o CEU para a comunidade também.”

Com esse movimento realizado, o CEU cumpre uma de suas funções, segundo Marina Franco, também coordenadora de projetos educacionais: o de envolver a comunidade e as famílias na formação das crianças. Ela comemora a realização de mais uma atividade vinculada aos CEDH Oeste.

“Fomos desenvolvendo um processo de sustentabilidade para que déssemos continuidade ao projeto. Para isso, focamos no envolvimento da comunidade e dos espaços escolares, apostando que, por mais que o governo mude ou que nós não estejamos mais aqui, as ações tenham continuidade no território. Se as crianças e a comunidade estiverem envolvidas, eles mesmo se apropriam desse espaço.”

Ação fez parte da 2ª Jornada pela Democracia, evento que utiliza linguagens artísticas para realizar debates sobre a democratização das comunicações.

O evento será finalizado no dia 10/6, a partir das 19h, com o Festival Canto de Resistência, que acontece no teatro do CEU Parque Anhanguera (Rua Pedro José de Lima, 1020).

Quanto mais fortalecido o projeto dos CEDH estiver, menos exposto às mudanças na gestão pública ele estará. “Desde o início, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania deixou claro que, mesmo se perdêssemos vínculo ou contrato, tínhamos que fazer de uma maneira que os Centros se fortalecessem por si só e, com isso, se tornassem fixos”, argumenta Meire Souto, coordenadora do núcleo educacional do CEU Pêra-Marmelo.

Entre as atividades programadas, estão as Jornadas pela Democracia, cafés literários, cineclubes mensais e participação no Festival Entretodos. “Hoje o CEU se expandiu e é um Polo de Educação em Direitos Humanos – desenvolvemos ações muito fortes nesse sentido”, finaliza Meire.