Aprender na cidade

Mobilidade, universidade e poéticas mobilizam Cidade Educadora em Passo Fundo (RS)

No interior do Rio Grande do Sul, Passo Fundo, com seus quase 200 mil habitantes, funciona como uma cidade polo para uma região onde vivem 1,3 milhões de pessoas. Por abrigar muitos serviços, recebe milhares de visitantes todos os dias, propondo desafios para a mobilidade urbana que superam seu tamanho. Além disso, padece, como toda cidade brasileira, de uma cultura de rua centrada no automóvel.

Foi à sombra desta questão que Passo Fundo passou a sonhar em se tornar uma Cidade Educadora. Desde 2011, a Universidade de Passo Fundo (UPF), instituição de ensino comunitária, tem ajudado a concretizar esse projeto de cidade.

Quem conta essa história é Márcio Tascheto, professor da Faculdade de Educação da UPF e pesquisador de processos educativos em espaços não escolares. Ele coordena o “Programa UniverCidade Educadora: circulando cidadania”, oficializado na universidade em maio deste ano.

“Em 2011, começamos a costurar uma proposta de extensão universitária que pensa o território para além da prestação de serviços, eventos e cursos. Tentamos nos aproximar de política públicas que atravessem a universidade com as dinâmicas sociais, construindo uma indissociabilidade entre ensino e prática, pensando uma formação integral”, relembra Tascheto.

Ele relata que trouxe a experiência que teve no Ministério da Educação com o programa de educação integral Mais Educação, que aposta nas potências educativas do território para incentivar o desenvolvimento de sujeitos. Segundo o professor, a influência da educação básica ajuda a “desossificar” o ensino superior.

“O desafio era transformar essa concepção integral e articulada dentro do currículo. Educadores como Paulo Freire e Anísio Teixeira foram importantes, mas também buscamos inspiração em universidades argentinas e uruguaias, criando intercâmbios e fazendo com que nosso movimento ganhasse cada vez mais corpo.”

Três desafios para a construção de uma universidade conectada com a cidade, segundo o professor Márcio Tascheto:

  1. Ampliação da participação estudantil na extensão universitária: “Nós temos 18 mil alunos, mas só 3% fazem extensão. Isso se dá porque muitos dos nossos estudantes são trabalhadores, então precisamos pensar em bolsas e em medidas de ampliação da permanência dos estudantes na universidade”

  2. Curricularização da extensão: “Pensar a extensão dentro de um projeto acadêmico, que organize os planos curriculares em função dela e não de maneira fragmentada. É preciso extensionalizar o currículo”

  3. Vinculação permanente com o território: “Quando se vincula permanentemente, outras formas de sala de aula surgem e as possibilidades formativas que se criam, com outros sujeitos do território, são imensas. Se você está vinculado com as demandas sociais, cria-se um potencial imenso de projeto de cidade, de mobilização democrática do território e de ampliação da atuação da universidade de forma mais orgânica”

Pedagogia da mobilidade

O pontapé desta ideia surgiu em uma articulação em torno da mobilidade urbana. Em busca de soluções, foi constituído um fórum, em 2011, com mais de 20 entidades – entre elas iniciativas privadas, empresas, ONGs e sociedade civil organizada. “Tinha polícia rodoviária, secretárias municipais, bombeiros, gente da educação, da saúde, representantes de pessoas com deficiência, das crianças, enfim, membros de toda a cidade dispostos a discutir o espaço urbano e o direito à cidade.”

Coordenado pela universidade, por meio da Vice-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (VREAC), o grupo ajudou na consolidação do Fórum de Mobilidade Urbana e Educação, uma ferramenta de participação social, assim como de um plano que articula ações de mobilidade, desenvolvimento sustentável, acessibilidade e educação na cidade. “Como a empresa de ônibus define seu conteúdo educativo? Como transformar isso num programa didático envolvendo outros parceiros? Isso são algumas das coisas que agora desenvolvemos com o UniverCidade Educadora”, afirma Tascheto sobre o programa, que tem como objetivo “promover e articular ações educativas relacionadas a mobilidade urbana no município de Passo Fundo, ampliando o controle social da população no que tange aos diversos tipos de modais e formas de circulação, visando uma vida de qualidade e a sustentabilidade ambiental na perspectiva do direito à cidade”.

Desde então, a cidade, com a participação do programa e da prefeitura, colhe resultados positivos.  O professor relata que houve uma diminuição de acidentes, verificada estatisticamente, além da qualificação do debate sobre mobilidade, que se tornou uma maneira de pensar a cidade. “Despertou uma perspectiva sensorial que instigou diversos espaços de discussões, avançando sobre os direitos do pedestre, construindo meios de transporte alternativos, como ciclovias, revitalização de parques e praças, enfim, a efetivação e construção coletiva de um plano de mobilidade que a cidade não possuía”, analisa.

Reunião do Fórum de Mobilidade Urbana em Passo Fundo.

Reunião do Fórum de Mobilidade Urbana em Passo Fundo.

Reprodução

O próximo passo está na elaboração de uma série de reportagens chamadas Vidas em Movimento, que visa construir um olhar sensível e poético sobre a mobilidade de sujeitos na cidade. O primeiro, “A cidade e as Rodas”, irá analisar a experiência dos cadeirantes na cidade, a partir de seus depoimentos. “A cidade e as Imagens” focará na experiência dos deficientes visuais e “A cidade e o silêncio” irá perceber como os deficientes auditivos entendem o ambiente urbano. “A ideia é que sejamos reconhecidos como uma Cidade Educadora”, sonha Tascheto.

Canções para trafegar infâncias

Para embalar estes sonhos, o poeta e escritor Daniel Retamoso Palma, que mora na região, está compondo dois cancioneiros: “Canções de Transitar Infâncias” e “Canções de Meninar as Ruas”. As obras, que ainda buscam financiamento, irão ter composições musicais e suporte visual, possivelmente em animação. “O ‘Canções de Transitar Infâncias’ tem um viés mais pragmático, de ajudar a criança, através da fantasia, a circular pela cidade. Já o ‘Canções de Meninar as Ruas’ busca dialogar com o conceito de Cidade Educadora pensando em logradouros poéticos”, explica.

 

“As cidades têm ruas com nomes muito potentes em termos de exploração poética, como Rua da Aurora, Beco da Saudade, Travessa dos Perdões. A cidade tem um enorme potencial lúdico e pedagógico que, tornado intencional e elaborado, pode modificar vidas. Quem sabe esse movimento de olhar para as cidades não pode ajudar a reverter a ruína de nossas estruturas políticas através de novas redes e coletivos?”, indaga.

Ele conta que os livros também podem virar espetáculos musicais e teatrais, como aconteceu com sua obra anterior, o Jardim de Cataventos, composto em parceria com o músico Marcelo Schmidt. Segundo Palma, tais trabalhos podem “fomentar processos de aprendizagem dispondo um arsenal poético como ferramenta de trabalho em aulas de Ensino Fundamental”. E conta com a inspiração e parceria do programa UniverCidade Educadora para dar asas ao projeto.

“Pensar uma cidade para crianças talvez coincida, hoje, com o próprio pensar utopias que nos alimentem o anseio por uma sociedade mais digna, igualitária, e menos assombrada pelo corporativismo e pelo apego cego aos pequenos e grandes poderes. A sensibilidade da criança como inventora de novos usos da palavra no próprio processo de desbravar a materialidade sígnica é um caminho do qual não se pode fugir, quando pensamos em arte e, principalmente, poesia. Com isso, pensar uma cidade para as crianças é devolver a poesia à República, e nossa república, cada vez mais, tende a ser o fenômeno urbano, onde travamos nossas lutas e potencializamos nossas paixões”, projeta o poeta.

(A foto que ilustra essa matéria é de Halisson O.Rocha, via Flickr/Creative Commons)