Transformar a cidade

Em Belém do Pará, mobilização comunitária quer a permanência de museu na Casa das Onze Janelas

Na beira do rio Guamá, no município de Belém do Pará, há um museu de arte contemporânea. Atualmente, esse equipamento público está aberto aos visitantes graças à mobilização comunitária e cidadã que pede a revogação do decreto nº 1568, do último dia 17/6, no qual o governo do Estado autoriza a criação de um polo gastronômico da Amazônia na edificação histórica onde, desde 2001, funciona o Museu Casa das Onze Janelas.

Situada no recinto histórico de Belém, que compreende os bairros da Cidade Velha e Campina e possui inúmeros patrimônios materiais e imateriais da cidade, como a feira Ver-o-Peso, o Forte do Presépio, o Museu de Arte Sacra, a Catedral da Sé e a Praça do Carmo, a Casa das Onze Janelas foi construída no século 18 por um senhor de engenho e, desde então, já abrigou um hospital e uma base militar.

Localizada no centro histórico de Belém, Casa das Onze Janelas pode vir a sediar um grande projeto do governo estadual: o Polo de Gastronomia da Amazônia.

A Casa das Onze Janelas no olhar de Luiz Braga, um dos fotógrafos do acervo.

Luiz Braga

No início do milênio, o espaço foi adquirido pela Secretaria de Estado da Cultura para fazer parte do Projeto Feliz Lusitânia, que pretendia requalificar o patrimônio histórico do núcleo de fundação da cidade. Em quinze anos de existência, o Museu Casa das Onze Janelas tornou-se referência para a arte brasileira contemporânea feita e exposta no norte do país. Artistas importantes como Luiz Braga, Alex Flemming, Rosângela Rennó, Miguel Rio Branco, Miguel Chikaoka, Cildo Meirelles e Adrianas Varejão possuem obras no local.

Porém, desde que a capital paraense recebeu o título de cidade membro da Rede de Cidades Criativas da Unesco, com destaque para a gastronomia, em 2015, ganhou impulso um projeto que tira do espaço sua função voltada para a experimentação artística e transforma-o no Centro Global de Gastronomia e Biodiversidade da Amazônia, projeto que inclui também a criação do Polo de Gastronomia da Amazônia, tocado pelo Instituto Atá.

Conheça o Museu da Casa das Onze Janelas a partir de um tour virtual pelo espaço.

 

Reação

Após a divulgação do decreto, um movimento realizado por artistas, estudantes, professores e agentes culturais está realizando ocupações culturais no Museu e pede a revogação imediata da medida. Argumentam que, além da falta de transparência no que se refere à implementação do projeto, o governador Simão Jatene se recusa a dialogar com representantes do Movimento A Casa das Onze Janelas é Nossa, inclusive denominando-os como “meia dúzia” de artistas.

Para o artista visual Alexandre Sequeira, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) que possui obras no acervo do Museu, a mobilização foi criada para “se colocar à frente” de um processo que consideram extremamente negativo no que se refere à gestão daquilo que é público. “A decisão foi tomada pelo governo sem a menor conversa e interlocução com o meio artístico. Este Museu firmou por 14 anos sua imagem intimamente relacionada com o prédio que o abriga, de valor histórico”, aponta Sequeira. “A sua localização é privilegiada e tornou possível estabelecer relações próprias com o entorno, o rio, o horizonte – a área externa tem obras instaladas, feitas para permanecerem ali, em diálogo com o que há dentro do espaço.”

Localizada no centro histórico de Belém, Casa das Onze Janelas pode vir a sediar um grande projeto do governo estadual: o Polo de Gastronomia da Amazônia.

Mobilização está realizando oficinas artísticas e ocupando o espaço do Museu.

Reprodução / Faebook A Casa das Onze Janelas é Nossa

Até agora, o movimento já organizou seis ocupações artísticas no Museu, que agora abriga diversas ações, atividades, aulas públicas e oficinas ligadas à permanência do espaço em seu local de origem. Além disso, a mobilização se esforça para convocar uma audiência pública sobre o tema para o mês de agosto.

“É um momento em que o governo será obrigado a se manifestar publicamente e explicar que projeto é esse. Para além de desativar um museu que já tem história e uma atuação importante na região, outro ponto negativo é não ter a menor ideia do que virá com o novo projeto”, observa Mariano Klautau, fotógrafo e professor da Universidade da Amazônia (UNAMA).

“A partir do momento em que o poder público cria um museu, ele não pertence mais ao Estado, e sim ao público, e não pode ser extraído segundo o interesse particular de uma gestão. O Museu é da comunidade e ocupa um lugar estratégico da produção artística contemporânea não apenas do Pará”, defende o fotógrafo. “Quem deve procurar um novo lugar é o Polo, e não o Museu.”

Localizada no centro histórico de Belém, Casa das Onze Janelas pode vir a sediar um grande projeto do governo estadual: o Polo de Gastronomia da Amazônia.

Artistas pedem audiência pública com o governo para o mês de agosto.

Reprodução / Faebook A Casa das Onze Janelas é Nossa

Órgãos relevantes, como a sede paraense do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN-PA) e a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura, do Ministério da Cultura, já se posicionaram a favor do movimento que pede a permanência do Museu na Casa das Onze Janelas.

A artista Val Sampaio também é contra a mudança do Museu para espaço ainda desconhecido. “No meu entendimento, no momento em que o Museu sair do lugar onde foi pensado, é como decretar sua morte, perder sua identidade.”

Para ela, basta analisar rapidamente o discurso do decreto para perceber que o projeto traz à tona uma ideia de gentrificação e homogeneização da cultura paraense, conhecida por ser rica, diversa e heterogênea.

“No momento em que se retira a arte dali, você não tem noção do que representa esse prédio para a cidade. Passar por cima dessa história é uma falta de respeito muito grande com um lugar constituído e uma atitude de poder arrogante que atropela um território cultural já constituído”, conclui Val.

A reportagem tentou contato com representantes da Secretaria de Cultura do Estado do Pará (SECULT-PA) e do Instituto Atá, mas não obteve respostas.