Aprender na cidade

Em Correntina (BA), dicionário criado por estudantes valoriza variante linguística local

do Centro de Referências em Educação Integral.

“Azular”, “biscoitar”, “bucho quebrado”, “sutilin”, “impaludismo”. Esses são alguns dos termos que circulam pelo território de Correntina, na Bahia, e que dão conta de resgatar a história de inúmeras famílias do campo e suas tradições. Carregadas de simbologia e proferidas mais naturalmente pelas pessoas mais velhas, essas expressões também encontram eco na fala dos mais jovens, ao repetir em seus contextos as fala dos bisavós, avós, pais, mães e outros familiares.

Não por acaso, os termos também chegam às salas de aula. E são motivo de observação das docentes de Língua Portuguesa Rozângela Gomes e Aparecida Amaral Silva, no Colégio Estadual de Corretina, unidade que atende cerca de 400 estudantes nas modalidade Ensino Médio e Ensino Médio integrado ao Ensino Técnico.

“Era comum vê-los usando os termos para situar um erro de linguagem dos familiares”, comentou Rozangela, entendendo a necessidade de promover uma ação pedagógica que abarcasse a diversidade linguística da região. “Era preciso mostrar a eles que a língua sofria variações de acordo com seu contexto”, explicitou.

Projeto de pesquisa

Surge então a proposta de investigar o campo da diversidade linguística a partir dos próprios moradores. As docentes e os alunos construíram juntos um questionário e os próprios estudantes conduziram as pesquisas de campo – a atividade envolveu as turmas do 1º ano do ensino médio e 1º ano do ensino técnico.

Os jovens foram em busca de conhecer as histórias dos moradores das áreas urbanas e rurais, procurando evidenciar os costumes e as culturas dos núcleos familiares e traçar paralelos com a vida antigamente e a atual. Tinham como demanda deixar os relatos fluírem livremente e estarem atentos a quaisquer termos diferentes, que deveriam ser prontamente anotados.

Os jovens foram em busca de conhecer as histórias dos moradores das áreas urbanas e rurais, procurando evidenciar os costumes e as culturas locais.

Estudantes lideram projeto de pesquisa com moradores de Correntina.

Reprodução

Palavras encontradas e seus significados

Azular – sumir; ir embora.
Biscoitar – comer de graça
Bucho quebrado – estar com lombriga
Cabeça de bode – ovo cozido servido com farinha
Carãozim – carona, ir ou vir de algum lugar sem pagar nada
Cremilda – refere- se à dentadura
Impaludismo – palidez
Intiriçado – triste
Lunga – pessoa que não suporta desaforo
Morredeira – desânimo
Primeirão – antigamente
Ritinia – voz bonita
Safanão – chamar a atenção de alguém
Sutilin – pedido de silêncio
Travial – vida de sempre
Vacidera – erva cidreira
Xuxuda – uma dor

Com as informações em mãos e de volta à sala de aula, o trabalho foi catalogar todas as palavras e buscar sinônimos em alguns dicionários. “Muitas delas não foram encontradas. Pudemos verificar que algumas palavras existiam, mas eram pronunciadas de outra maneira; outras não existiam e as entendemos como neologismos”, colocou Rozangela.

A tarefa se apoiou na sociolinguística, e situou as falas dos entrevistados dentro do contexto das variantes linguísticas, levando em consideração fatores que influenciam no falar como o gênero, nível de escolarização e acesso à educação e bens culturais, faixa etária, classe social etc. Com o trabalho, o grupo trouxe à tona alguns preconceitos e puderam repensar suas posturas diante de determinadas variantes linguísticas.

Nasce o Pequeno Grande Dicionário

O grupo decidiu dar visibilidade ao conjunto de termos e assim nasceu a ideia de compor um dicionário. O nome – Pequeno Grande Dicionário, veio de um aluno, como relembrou Rozangela: “pequeno pelo tamanho, mas grande pelo valor”. O produto foi apresentado na primeira Feira de Ciências realizada pela escola e, premiado, rendeu a participação do colégio na Feira de Ciências em Salvador.

A escola também ficou entre as 50 melhores experiências inscritas no Criativos na Escola, iniciativa que faz parte do movimento global Design for Change e encoraja crianças e jovens a transformarem suas realidades, colocando-os como protagonistas de suas próprias histórias de mudança.

Para a professora Rozangela, a iniciativa contribuiu para construir uma cultura de respeito na escola, e também para valorizar os alunos. “Senti que o trabalho de pesquisa liderado por eles contribuiu com a auto estima da turma e também para um olhar sobre o potencial que eles têm de fazer projetos e contribuir com a modificação da realidade”, reconheceu.