Transformar a cidade

Crise de abastecimento passou, mas crise hídrica permanece, apontam organizações de SP

“A questão da água está resolvida”, afirmou em março o governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB). De acordo com dados da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de SP), o Sistema Cantareira, uma das principais fontes de abastecimento da capital paulista – maior metrópole da América do Sul – está operando atualmente com 75% de sua capacidade total.

Engana-se quem pensa, porém, que a crise hídrica está solucionada. “A crise de abastecimento de fato diminuiu. Mas a hídrica continua: nossos mananciais estão poluídos, os rios Tietê e Pinheiros continuam sujos, enchentes ainda destroem vidas. Além do mais, a Sabesp não resolveu um de seus piores problemas: a falta de transparência”, opina Marussia Whately, uma das idealizadoras da Aliança pela Água, articulação que reúne, desde 2014, cerca de 70 entidades que visam colaborar para a construção da segurança hídrica em São Paulo.

Marussia critica também os investimentos realizados pelo governador para estancar o problema. “A crise de abastecimento foi superada em um curto prazo. No futuro, no entanto, talvez volte mais forte, pois as soluções do governo são paliativas – como construir uma nova represa que terá um custo operacional altíssimo – enquanto continuamos dando descarga com água potável direto no rio Tietê.”

Atividade da Virada Sustentável, roda de diálogo ContAí debateu as medidas tomadas pelo poder público para solucionar a falta de água em São Paulo.

Trecho do Sistema Cantareira no auge da crise hídrica.

Ninja/Contadagua.org

A roda de conversa ContAí fez parte da Virada Sustentável 2016, que acontece até domingo em São Paulo.

Diretora executiva da organização Águas Claras do Rio Pinheiros, Stela Goldenstein acredita que a enorme poluição do curso d’água carrega uma carga simbólica para a cidade: ao invés de compor a paisagem, servindo como um espaço de lazer, transporte e abastecimento de mercadorias, é descuidado, maltratado e mal utilizado.

“A crise hídrica nos revelou que temos menos água do que pensávamos e utilizamos mais do que temos. Precisamos avançar na questão da segurança hídrica com uma visão de sustentabilidade da água que envolve soluções a longo prazo, gestão do território, parcerias entre gestores públicos e privados, enfim, uma nova cultura da água”, argumenta Stela.

Ela acredita que a crise foi aguçada não só pela má gestão das reservas hídricas, mas também por conta de contínuos erros na gestão do próprio território da cidade. “O que vemos em cada rio e córrego é um resultado daquilo que acontece no território, um estado de degradação ambiental que só pode resultar em má qualidade da água e impossibilidade de usá-la de uma forma racional.”

Segundo Stela, um exemplo de como a má gestão do espaço urbano abre espaço para a degradação ambiental ocorreu no final de julho, quando um grupo de sem-teto ocupou e desmatou um terreno de preservação ao lado da represa Billings, na zona sul da cidade. “´É preciso que o poder público invista com eficiência na recuperação do território, na urbanização de áreas periféricas e suas redes de esgoto, além de obter mais eficiência nas áreas de tratamento da água.”

Atividade da Virada Sustentável, roda de diálogo ContAí debateu as medidas tomadas pelo poder público para solucionar a falta de água em São Paulo.

Falta ou excesso d’água: a crise hídrica não acabou.

Milton Jung

Para o representante da iniciativa Rios e Ruas, José Bueno, diante de uma crise de apropriação da cidade pela população, é necessário gerar envolvimento permanente das pessoas com a questão hídrica. “Devemos envolver pessoas em relação a esse bem comum. Temos a ideia de abrir um córrego concretizado, gerando ganhos sociais e ambientais, e mostrar que São Paulo pode ser um exemplo nesse tema.”

Coordenadora da Rede das Águas da Fundação SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro acredita que a crise hídrica não começou em 2014. “Vivemos esse problema desde que deixamos de mergulhar e nadar em nossos rios, retificando-os e chamando de marginais as suas várzeas, ou utilizando-os como extensão da tomada para gerar energia elétrica – ou até como extensão da descarga.”

Contrariando o discurso do governador paulista, Malu prevê um cenário pessimista para os próximos anos. “No auge da crise hídrica atual simplesmente diminuímos a proteção das florestas com a aprovação o novo Código Florestal, que permitirá uma degradação ainda maior de mananciais, gerando um processo de desertificação do solo”, observa.

Atividade da Virada Sustentável, roda de diálogo ContAí debateu as medidas tomadas pelo poder público para solucionar a falta de água em São Paulo.

Maquete que fará parte da exposição “Rios Des.Cobertos”.

Estúdio Laborg

A exposição “Rios Des.Cobertos – O resgate das águas da cidade”, que mostrará uma visão única da relação de São Paulo com seus rios, ocupará o Sesc Vila Mariana a partir do dia 29 de setembro.

De olho nas eleições municipais de 2016, as entidades mostrarão para todos os candidatos/as a prefeito e vereador quais são suas demandas em busca por água limpa e abundante na cidade. “Queremos saber as suas propostas e como eles vão se comprometer para isso”, aponta Marussia. “Afinal, é preciso pensar um novo modelo de cuidado com a água para dar conta do esgotamento de recursos do planeta. Precisamos trabalhar na transição do modelo atual para uma nova cultura de cuidado com a água.”

Stela questiona: “A quem compete garantir água de qualidade na cidade?”, relembrando que o modelo institucional e as tomadas de decisão e investimento não dão conta de um problema que afeta diretamente a qualidade de vida das pessoas e, por fim, a sustentabilidade da vida nas cidades. “A distribuição difusa das responsabilidades torna mais difícil a governança e cobrança pela sociedade civil.”

Malu cita a ligação mística, espiritual e emocional do ser humano com a água. “A gente veio dela, mas não cuidamos dela. É preciso repactuar essa relação e botar a água na agenda de políticas públicas, e não apenas eleitorais”, finaliza.