Aprender na cidade

Cidade Educadora e migrações: desafios e potências na construção de territórios educativos

Falar de territórios educativos e de cidades educadoras não prevê uma utopia já em curso. É no diálogo entre os “desafios negativos” e as “potencialidades positivadas” da cidade que iremos descobrir a cidade que queremos e como construí-la, ou como arte-educadora Cristina de Branco propôs, o “aprender a resistir” que será tão necessário para atravessar o “estado de exceção permanente, a violência 360 graus sistêmica, a sanha militarista e o ódio racista que perpassam os cidadãos de São Paulo e o momento político do Brasil”.

 A educadora, uma das fundadoras do projeto Visto Permanente, que traz vídeos de imigrantes no Brasil exercendo atividades artísticas, questionou a recepção que os estrangeiros recebem ao aportar por aqui. “Temos que pensar que a Cidade Educadora que nos constrói e educa tem sua dinâmica social permeada pelo racismo, o que faz com que certas comunidades sejam menos bem-vindas, como as negras ou de fenótipo indígena. Então quando eles chegam aqui, essas estruturas reverberam e incrementam as vulnerabilidades. Ao chegar, essas comunidades reverberam a mesma segregação social da sociedade.” A fala de Cristina aconteceu durante o debate “A Cidade como Território Educativo”, durante o Seminário Educação e Migração: Caminhos para uma cidade educadora”, organizado pela Associação Cidade Escola Aprendiz, por meio de seu programa Cidades Educadoras, em parceria com a Editora Moderna e apoio do Museu da Imigração, que, trazendo educadores e ativistas da área, se debruçou sobre os desafios que permeiam a construção de uma Cidade Educadora no contexto das populações migrantes.

Para Cristina de Branco, populações migrantes já compõe e fazem a cidade.

Para Cristina de Branco, populações migrantes já compõe e fazem a cidade.

Pedro Ribeiro Nogueira

“Temos que tomar cuidado para não reverberar a mídia hegemônica”, continuou, “que proclama palavras como “invasão” quanto toca no tema do direito humano à migração e nem na exotização dessas populações”. Para desfazer esses estereótipos e combater o preconceito, é preciso entender que as comunidades migrantes, “que chegam a um organismo e uma sociedade politicamente tensas”, não precisam ser incluídas, “pois elas já fazem parte, constroem e são a cidade”. É partindo disto que o Visto Permanente, que já tem mais de 50 vídeos no ar, propõe a representação do imigrante “como um sujeito criativo, construtor e agente”. Cristina, que trabalha na Secretaria de Educação da Prefeitura de São Paulo com formação docente, e viaja por São Paulo conversando com professores, relatou seu sonho de uma Cidade Educadora.

“O grupo Kantuta Bolívia, reúne 300 pessoas e desfila pela cidade em bloco com sua cultura folclórica, com sua identidade cultural que as conecta com o mundo. Apenas no ano passado superaram o não sistemático da subprefeitura que dizia que não havia interesse em que eles desfilassem na Avenida Paulista e saíram no meio de um dos principais centros da América Latina, os 300 e suas famílias. A nossa cidade educa também contra aquilo que a gente quer lutar contra, contra aquilo que exclui. Seguiremos lutando por essa São Paulo que vê e interage e é Kantuta Bolívia na Avenida Paulista”.

Um museu em transformação

Construindo essa São Paulo de maneira dinâmica, Tatiana Waldman relatou a sua experiência no Museu da Imigração. O equipamento público, que fica na antiga hospedaria de imigrantes do Brás, têm em suas atribuições a missão de preservar a memória do passado mas acompanhar os movimentos migratórios  de maneira contínua.

“Nós vemos o Museu com um papel muito forte de contrapor o discurso que estereotipa os imigrantes e oferecer a oportunidade de conhecer e incorporar outros modos de viver, a partir do estímulo a reflexão crítica e do contato com outras culturas”, analisou Tatiana, que ressaltou que o museu recebe um grande influxo de escolas. Do total de cerca de 85 mil visitantes, 57 mil eram de estudantes e professores.

Para fazer a memória do presente de maneira ativa, o Museu realizou recentemente a mostra “Cartas de Chamada de Atenção”, realizadas após uma série de oficinas com imigrantes de diversos países africanos recém-chegados ao país. As Cartas de Chamada eram um antigo costume dos imigrantes que, ao desembarcar por aqui, escreviam aos seus parentes e amigos para contar da viagem e convidá-los a virem para cá. Hoje, a ideia é que eles contem suas vidas e chamem a atenção do poder público e daqueles responsáveis pelo seu atendimento. As cartas produzidas em oficinas viraram uma grande exposição itinerante em 2015.

“A hospedaria que virou museu segue tendo sua função social, estabelecendo diálogos entre passado e presente, chamando atenção para a experiência migratória”, relata Tatiana, que convidou todos os presentes para o lançamento, no dia 24/9, da Exposição “Direitos migrantes: nenhum à menos”, que parte do entendimento de que a migração é um direito humano que independe de nacionalidade, origem e destino, para trazer relatos e histórias orais dos imigrantes que hoje fazem São Paulo, focando na participação social e nas narrativas das mulheres em movimento.

 Territórios educativos na prática Seguindo a toada do debate, Sueli Ramos, professora da Emei João Theodoro, contou sua experiência na escola, que, dividindo muros com o Parque da Luz, no centro de São Paulo, recebe um variado corpo estudantil de 256 crianças, da qual 79 são imigrantes bolivianos, peruanos, sírios e equatorianos. Ela provocou seus colegas docentes, ressaltando as dificuldades da profissão, a lutarem para que suas escolas estimulem a liberdade.

Sueli descreve as atividades desenvolvidas na João Theodoro.

Sueli descreve as atividades desenvolvidas na João Theodoro.

Pedro Ribeiro Nogueira

“As crianças imigrantes não tinham o direito de existir, de brincar, de ser, na escola tamanho era o peso da diferença, do estranhamento e do preconceito. Para desconstruir essa realidade, fomos para o nosso entorno, procurando um território pensante que cutuque as normas, incomode que está estabelecido”, relata, mostrando o mapeamento das oportunidades educativas da região. “Apostamos em passeios e contando com as organizações que apareceram para nos ajudar a pensar em como realizar este processo educativo, passamos a discutir cidade, identidade, gênero, a priorizar o brincar e trazer cada vez mais o território para a escola e a escola para o território, buscando as situações de vida e processos locais de onde essas crianças e famílias vivem, aproximando-as da escola e transformando as realidades”, relata Sueli. A jornalista e pesquisadora em educação, Giovanna Modé, da Campanha Latino-Americana pelo Direito à Educação, ressaltou que não há metodologia prontas para lidar com o tema, mas que não há como contornar a necessidade de estimular a participação da comunidade no processo educativo. “Não é romântico, a educação se dá em negociações tensas e cotidianas, ainda mais em uma instituição tão enraizada com a escola, mas não podemos perder de vista que na escola pública encontros significativos são possíveis e mais, ninguém sai o mesmo de um encontro verdadeiro”.

A
Para Giovanna Modé, o direito à educação passa pela garantia de uma educação de qualidade.

Para ela, garantir o acesso à educação é só o começo da batalha pelo direito à educação, que jamais poderá prescindir de uma luta permanente pela qualidade desse acesso. “Quando falamos de diversidade e diferença não podemos cair na folclorização: tudo que temos é resultado de muito esforço dos atores envolvidos na educação, que lutam pelo compromisso de um sistema público aberto e que vá ao seu limite para contemplar a diversidade da maneira mais intercultural possível, mas isso não é do dia para noite”, alertou. (A foto que ilustra essa matéria foi retirada da página do Facebook do Visto Permanente)