Aprender na cidade

Crianças e jovens discutem política e cidadania na Mostratec 2018

Assuntos como política e cidadania nem sempre fazem parte do cotidiano de crianças e jovens no Brasil. É de dois em dois anos, quando as eleições se dão em nível municipal e federal, que esses temas são discutidos com mais frequências dentro dos ambientes escolares.

Este ano, diante da instabilidade e insatisfação política, os participantes da Mostratec 2018, maior feira de ciências e tecnologia da América Latina, se debruçaram sobre o tema, empreendendo projetos de cidadania enquanto prática que precisa ser cultivada na escola.

A Mostratec 2018 aconteceu em Nova Hamburgo (RS) dos dias 23 a 25 de outubro. Alunos da Educação Infantil, Ensino Fundamental, Médio e Técnico de 27 estados brasileiros e 22 países apresentaram trabalhos em  áreas como tecnologia, história, identidade, engenharia, biologia e robótica. Confira a reportagem Mostratec 2018: com pesquisas inovadoras, estudantes olham para o território e suas culturas.

Os projetos vão desde pesquisas sobre os temas mais debatidos nas últimas semanas eleitorais, como as fake news, até exercícios de cidadania que impactam comunidades e territórios.

Os estudantes da Escola Municipal Morada do Sol, em Campo Bom (RS), tinham o desejo de conhecer mais sobre a história do bairro homônimo e o que seus moradores desejavam para o território. Nasceu assim o projeto “Aqui é Morada! Quais as necessidade do bairro Morada do Sol?”.

Depois de aulas e diálogos sobre patrimônio local, os estudantes do terceiro ano do Ensino Fundamental foram a campo para ouvir estas necessidades. Isabelli Mileni Cardoso, de nove anos, relata que “quando andamos pelo bairro, vimos que faltavam muitas coisas. Fizemos pesquisas com os nossos pais e vizinhos, e concluímos que eles queriam mais saúde, mais farmácias e mais segurança.”

Munido das informações e fotos coletadas, o projeto tornou-se um exercício de cidadania. Os alunos deslocaram-se até a Câmara de Vereadores da cidade, onde conversaram com o prefeito e com algumas secretarias para entender o que era possível fazer para melhor a área da Saúde.

estudante da escola morada do sol na mostratec

Da esquerda para direita, a orientadora Deise Jerusa da Costa Forte e os estudantes Icaruã Carvalho Duarte e Isabelli Mileni Cardoso / Crédito: Cecília Garcia

“Eles disseram que não havia verba para construir um novo posto, mas que se podia arrecadar para melhorar o que já existia”, explicou Icaruã Carvalho Duarte, de oito anos. A segunda parte do projeto foi então conversar com o posto de saúde e com a Secretaria de Saúde.

Para a professora orientadora, Deise Jerusa da Costa Forte, a prática possibilitou que não só as crianças como também os moradores percebessem política como ato cotidiano: “O que um vereador faz? Ele corre atrás do que está errado, conversa com as pessoas, vê como isso pode melhorar. Não foi muito diferente do que vimos as crianças fazendo. Imagine um menino de oito anos conversando por telefone com a secretária de saúde, cobrando respostas. As crianças precisam disso, dessa vivência na política.”

Leitura e fake news

A partir da leitura e resenha do livro distópico 1984, do escritor inglês George Orwell, no qual um governo totalitário controla os meios de informação e de produção de conhecimento, utilizando notícias falsas ou distorcendo a História, os estudantes da EMEF Sete de Setembro, em Canoas (RS), pensaram seu projeto de pesquisa. “Depois que a gente leu o livro, decidimos pesquisar mais sobre e traçar um paralelo com o que está acontecendo no Brasil politicamente”, explica Beatriz Ritzel Dutra, de 14 anos.

estudantes montam projeto de fake news na mostratec

Da esquerda para a direita, os estudantes Saimon dos Santos, Thuanni Dauinheimer Silveira e Beatriz Ritzel Dutra / Crédito: Cecília Garcia

O projeto “O Controle da Informação na Era do Fake News”, dos alunos do primeiro ano do Ensino Médio, empreendeu então uma pesquisa dentro das escolas gaúchas para entender como e porquê algumas notícias falsas eram disseminadas. A feitura da pesquisa não foi fácil, como relata Saimon dos Santos, de 15 anos: “Muitas escolas se recusaram a nos responder, acharam o tema muito polêmico”. Mesmo assim, eles conseguiram reunir 127 entrevistas.

Elaborando algumas perguntas sobre fake news que circularam nos últimos meses sobre temas como direitos humanos, efetividade de vacinas ou o nazismo, os estudantes constataram que “quanto maior o grau de escolaridade e de leitura, menor a chance da pessoa ser enganada por uma fake news”, explica Thuanni Dauinheimer Silveira, de 14 anos. Ficou também evidente a relação entre notícias falsas e as redes sociais como fonte.

Arte para a conscientização

Os estudantes da Escola Estadual Ministro Jarbas Passarinho, em Camaragibe (PE), por sua vez, desejavam criar espaços de fala para os alunos dentro do ambiente escolar. “A nossa problemática era entender como o protagonismo estudantil pode ser incentivado dentro das escolas. Na maioria delas, professor e aluno não interagem um com o outro, professor fala e aluno escuta. Então queríamos criar mecanismos para incentivar o espaço de fala”, explica Felipe José Lima de Farias Lemo, de 15 anos.

Escolhendo a arte como caminho, o projeto “Eu não me Kahlo: uma análise estética da obra de Frida Kahlo sob a perspectiva da arte como manifestação política” utilizou as obras e a vida da artista mexicana para que os estudantes pudessem criar um espaço de acolhimento e diálogo, utilizando suas próprias experiências para se fortalecer enquanto corpo estudantil.

projeto não me kahlo na mostratec

Obras feitas durante o projeto “Não me Kahlo” / Crédito: Cecília Garcia

“Quem estuda Frida percebe que as obras da artista são obras que, ao serem analisadas, possuem vários espectros culturais, geográficos e econômicos, além de falar muito sobre sua própria vida”, explica Luana Evellyn dos Santos, de 15 anos. Por meio da leitura de sua obra e biografia, os estudantes foram convidados a ressignificar espaços da escola pouco utilizados, como a biblioteca, e a criar obras por meio da escrita, fotografia e pintura.

Outro elemento essencial foi o uso das redes sociais. Entendendo-as como espaço de criação, o projeto coletou depoimentos, fotos e criou um canal onde os estudantes puderam expor seus pensamentos e trabalhos, inspirando outras escolas e outros projetos a usarem a arte para abertura de diálogos.

Conheça outros projetos sobre cidadania e política da Mostratec 2018

projeto pomar na escola na mostratec 2018

Crédito: Cecília Garcia

Os estudantes da escola EMEF São Luís (Bom Princípio/RS) criaram um pomar na sua escola, junto com a comunidade, utilizando os princípios do agroflorestamento.

projeto revolução cubana na mostratec 2018

Crédito: Cecília Garcia

Projeto “Revolução Cubana – A Representação da Invasão da baía dos Porcos na imprensa brasileira” analisou como a mídia tratou esse evento histórico. As responsáveis foram as estudantes Alice da Cruz Busatto e Karolayne de Lima Recoba, do Instituto Federal Sul-Rio-Grandense.

projeto regime militar em livros didáticos na mostratec 2018

Crédito: Cecília Garcia

A estudante Leticia Beatriz Monteiro Barbier investigou como a ditadura militar é registrada nos livros didáticos. Ela é estudante do Colégio Interativa, em Londrina, Paraná.

*A repórter participou da Mostratec a convite da Fundação Liberato