Aprender na cidade

Escola além dos muros: a comunidade de aprendizagem de Tremembé (SP)

Por Ingrid Matuoka, do Centro de Referências em Educação Integral

Em Tremembé, município no interior de São Paulo, as 17 escolas públicas da cidade transbordam seu potencial educativo para além dos muros, transformando os bairros em uma imensa escola a céu aberto. Em outras palavras, constituem uma verdadeira comunidade de aprendizagem.

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O processo de mudança teve início em 2014, quando a secretaria de Educação do município firmou uma parceria com o Instituto Natura para iniciar a implementação da comunidade de aprendizagem na cidade.

“Esse projeto era uma oportunidade de fazer acontecer a educação integral, que tem como um dos princípios o entendimento de que todos são responsáveis pela educação das crianças e que esta pode acontecer em diferentes espaços“, diz Cristiana Berthoud, secretária de Educação do município.

O projeto foi então levado para todas as escolas, que aderiram voluntariamente logo no primeiro ano. Professores, diretores, alunos e familiares foram incentivados a estreitar laços por meio de diversas atividades educativas, para além das reuniões pontuais e festas comemorativas.

Uma dessas atividades foi a Tertúlia Literária, que propõe a leitura e debate de obras clássicas por um grupo de pessoas. A iniciativa foi tão bem-sucedida que tornou-se parte do currículo das escolas, substituindo as aulas de ensino religioso.

Assim, ao longo de 3 anos, a parceria entre as famílias e as escolas foi se consolidando. “Antes de sair dos muros, é preciso fortalecer essa atuação: as escolas precisam conhecer as famílias, e as famílias precisam saber o que acontece dentro das escolas”, afirma Cristiana.

pessoas se reúnem em comunidade em praça para ver um filme em tremembé (sp)

A praça revitalizada agora serve de cinema e teatro / Crédito: Instituto Natura

Pertencimento ao território

Em 2017, o projeto estava amadurecido o suficiente para expandir-se para o território. Tremembé é uma cidade pequena, com apenas 40 mil habitantes, e assim como várias outras carece de espaços de lazer e acesso à cultura. Por isso, o primeiro passo foi revitalizar uma área verde que estava abandonada, com ajuda de moradores próximos.

“É fundamental criar espaços de participação, ampliar as interações entre as pessoas, com atividades das quais todos possam participar, e construir um sentimento de pertencimento à cidade. Esse é o objetivo de uma comunidade de aprendizagem”, explica Fernanda Pinho, coordenadora de projetos do Instituto Natura.

moradora mostra inventário

Uma das estações de leitura e sua madrinha, responsável por cuidar da instalação. / Crédito: Instituto Natura

A praça passou, então, a abrigar diversas atividades, como cinema e teatro ao ar livre, aula de dança, vivência em inglês para crianças, feiras orgânicas, hortas comunitárias com distribuição gratuita dos alimentos, observação dos astros, contação de histórias e formação de seus contadores.

Outra ação foi a instalação de estações de leitura: estantes espalhadas pela cidade com um acervo de livros disponíveis para a população retirar, ler, devolver e também alimentar com doações.

Até o final do ano, Tremembé deve ter 12 destas estações; 6 já foram instaladas. Em alguns pontos, todos os livros foram retirados logo no primeiro dia, o que levou a comunidade a se mobilizar prontamente para pensar estratégias de como prover novas obras por meio de campanhas.

“Temos conseguido desenvolver, aos poucos, uma cultura de participação e uso do espaço público, dentro de um entendimento de que todos são responsáveis pela educação das crianças, porque a escola sozinha não tem como dar conta dessa melhora que a gente precisa“, conta Fernanda.

Engajamento da comunidade

Para desenvolver e manter todas estas atividades que compõem uma comunidade de aprendizagem, é preciso intensa participação social. Mas mobilizar as famílias dos estudantes e outros moradores nem sempre é tarefa fácil.

Thamires César é uma das articuladoras locais do projeto e conta que é preciso muita paciência e um trabalho diário no sentindo de conhecer quem são as pessoas, mostrar o projeto e entender como cada um pode ajudar.

“Antes as pessoas só tinham interesse em participar das atividades, mas hoje querem ajudar a organizar e a pensar nas próximas. Estão engajados e ficam felizes quando a atividade dá certo. Mas para conseguir isso, é preciso criar laços ”, explica.

Uma das voluntárias na comunidade de aprendizagem de Tremembé é Elaine Aparecida Couto, mãe de dois meninos em idade escolar, que começou a se envolver com o projeto por meio da escola dos filhos assim que as atividades começaram, em 2014.

Para ela, o maior mérito do projeto foi aproximar famílias e escolas. “Todos participam e eu vejo que as crianças ficam mais incentivadas, o que é importante para a aprendizagem. Nossa escola melhorou muito depois desse projeto”, conta.

crianças esculpem argila com morador mais antigo de comunidade

Crianças aprendem a esculpir em argila com um morador da comunidade.

Todos os meses, os voluntários da comunidade, os membros da secretaria de Educação e do Instituto Natura se reúnem para conversar sobre o andamento dos projetos e planejar as próximas ações. “Conforme vamos descobrindo mais pessoas, vamos ampliando nossa rede. E essas reuniões mensais servem para conectar a todos. Nelas, todos podem dar opiniões, participar, e descobrir como podem ajudar”, explica Thamires.

Avaliando o desenvolvimento do projeto, Cristiana Berthoud se diz confiante sobre o caminho percorrido até aqui e os rumos futuros. Para a secretária, a comunidade tem finalmente percebido sua parcela de responsabilidade na educação de todos os cidadãos. “Acho que eles estão entendendo que as crianças não aprendem só em um determinado horário do dia e que param de aprender quando saem da escola. Elas aprendem o tempo todo e com todo mundo.”