Aprender na cidade

A partir dos saberes locais, projeto transforma bairro de Jacareí (SP) em escola a céu aberto

Localizado às margens da rodovia Dom Pedro I e distante cerca 6 km do centro de Jacareí (SP), o bairro Jardim Pedramar enfrenta problemas comuns aos territórios periféricos, mas é também terreno fértil para múltiplas aprendizagens. O fato foi comprovado por mais de 400 estudantes de 15 escolas da rede pública do município.

Entre outubro e novembro deste ano, os estudantes tomaram as ruas e espaços da região para vivenciar oficinas interativas sobre temas como consciência ambiental, cultura popular e artes visuais por meio do projeto “Bairro Ambiente Educativo”, que visou trazer novas perspectivas para a educação escolar.

graffiti

Alunos pintam mural coletivo de graffiti com supervisão de grafiteiro do bairro

Gláucia Veloso

Todo bairro é educador

Iniciativa do coletivo Cultura no Morro, com patrocínio do Grupo CCR e apoio institucional da Cultural de Jacarehy José Maria de Abreu, o projeto transformou o bairro Pedramar em um “quintal do mundo”, tornando os mestres e saberes populares ali presentes em grande professores.

“A inspiração foi no turismo de base comunitária e a educação na prática, com o conceito de cidade educadora, já visto em ações similares no Estado de São Paulo, por exemplo, em Paraisópolis com o roteiro ‘Paraisópolis das Artes’”, conta Thiago Vinicius, coordenador geral do projeto.

Saberes do território

Presente na raiz identitária do território do Vale do Paraíba, a cultura do moçambique – dança ou folguedo de origem afro-brasileira – foi representada e apresentada por Mestre Nego, reconhecido como Mestre da Cultura Viva da cidade. “O Mestre Nego está desde o começo do bairro, possibilitando o acesso a essa cultura e também tendo ligação com a capela de São Benedito, o santo que representa essa manifestação”, conta Thiago. Com o mestre, as crianças tiveram a oportunidade de aprender sobre respeito e diversidade, conhecer sua trajetória e a relação histórica da capela com o moçambique.

cultura popular

Mestre da Cultura Viva da cidade, Mestre Nego falou sobre sua trajetória e cultura com os alunos.

Gláucia Veloso

Outra figura de destaque foi a de Dona Cida. Em 2015, a professora aposentada de 80 anos abriu sua garagem para expor seus livros para a comunidade durante o festival AgromerArte. Foi assim que nasceu a biblioteca comunitária Ler para Crescer, que ao longo da realização do projeto “Bairro Ambiente Educativo” sediou contações de estórias e um teatro de fantoches.

“É fundamental a experiência desse equipamento, pois a comunidade é carente de equipamentos públicos. A biblioteca supre parte da deficiência educativa a qual o bairro está exposto”, explica Thiago.

Outras atividades desenvolvidas foram a produção de um mural coletivo de graffiti com Alan Tubão, grafiteiro de Jacareí, e a visita a um remanescente de Mata Atlântica localizado às margens do córrego do Tanquinho, com o pesquisador de natureza Thiago Mesquita.

trilha mata atlântica

Visita a um remanescente de Mata Atlântica localizado às margens do córrego do Tanquinho.

Gláucia Veloso

“Além do Thiago apresentar o espaço para os estudantes e proporcionar uma vivência na mata atlântica, ele também fala sobre a preservação e a importância de escutar a natureza, usando dinâmica de adivinhar o nome dos animais por meio do som”, conta o coordenador.

O saldo final foram alunos sensibilizados para a importância de compreender o espaço onde vivem e com uma nova percepção de que o aprendizado está em todos os lugares e momentos. “Precisamos ampliar a percepção de escola. Entender os mestres populares, o saber popular, a dinâmica do território. Acreditamos que um aprendizado que converse com a realidade do aprendiz, faz mais sentido na hora de absorver aquilo que pode ser aplicado na vida real. O aprendizado direto no território tem um valor diferenciado, podendo ser compreendido por seu aspecto intimista e realista”, finaliza Thiago.