Transformar a cidade

Projeto Cidades Sem fome: esverdeando a cidade com agricultura urbana

O alface se apoia no pé de amora ainda prematuro, que divide a mesma porção de terra com o manjericão. Na horta da Dona Sebastiana, o balaio de hortaliças foi trançado para protegê-las, como explica a idosa agricultora: “Parece que uma planta, junto da outra, tem uma força maior. O ambiente equilibra, uma hora é quente, aí a outra planta do lado faz sombra, outra hora é chuva demais, vento demais, enfim, as pancadas da vida. Parece um monte de amigo plantado junto!”, explica.

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A horta da dona Sebastiana é uma boa analogia para a força coletiva da organização Cidades sem Fome, da qual ela e mais 114 agricultores fazem parte. Fundado em 2004 pelo administrador Hans Dieter Temp, o projeto ocupa espaços vazios da cidade de São Paulo com agricultura urbana, convertendo-os em hortas comunitárias.

“Quando tem um terreno que se fala que é “abandonado”, as pessoas jogam lixo, entulho, resto de construção. Isso cria um território passivo para a comunidade e um problema crônico para a municipalidade”, explica Hans, andando entre mudas de alface na horta de São Mateus, bairro da zona leste da capital. “Mas com a horta comunitária, você muda o entorno. O que antes era um passivo ambiental se transforma em um lugar de trabalho e renda para as pessoas.”

As 25 hortas localizadas nos bairros de São Mateus, Cidade Tiradentes, Itaquera e São Miguel Paulista atendem o entorno de seus território, além de oferecer hortaliças orgânicas para empresas. O projeto também desenvolve parcerias com escolas públicas e está começando a desenvolver estufas agrícolas com metade do custo.

dona sebastiana vende hortaliças em são mateus

Dona Sebastiana na frente de sua barraca de hortaliças / Crédito: Cecília Garcia

Cecília Garcia

Desafios de uma agricultura urbana e orgânica

Quando ganhou uma bolsa para estudar técnicas agrícolas na Alemanha, Hans ficou surpreso ao ver como qualquer espaço vazio nas cidades europeias era utilizado para cultivo de hortas ou outras atividades comunitárias. Ao voltar para o Brasil, nos anos 2000, ele percebeu que São Paulo, cidade de clima subtropical, repleta de lotes vazios e com demanda gigantesca por alimentação, poderia se beneficiar das hortas comunitárias.

Bairros como São Mateus são considerados “bairros territórios”: sua população ativa geralmente trabalha no centro da cidade, e gasta sua renda em produtos por lá. Hans acredita que as hortas comunitárias são um jeito de girar a economia local.

Desde seus primórdios e até hoje, a Zona Leste é onde o Cidades sem Fome atua: “Fomos descobrindo que a região reunia características muito boas para esse tipo de projeto. Ela não era tão densamente povoada como outros espaços urbanos, e contava com enormes áreas físicas ainda disponíveis”, conta Hans.

A maioria dos 115 agricultores que trabalham nas hortas são pessoas com mais de 50 anos e com bastante dificuldade de continuar no mercado de trabalho ou de sobreviver apenas com a aposentadoria: “Na capital, o público de terceira idade é extremamente carente. As pessoas geralmente vieram de outro estado, trabalharam 15 ou 20 anos em São Paulo, mas não o suficiente para ter aposentadoria. Outras chegam aos 60 sem ter uma capacitação”, adiciona o agricultor.

hans no meio da plantação de couve em são mateus

Hans, criador da organização Cidades sem Fome / Crédito: Cecília Garcia

Para ter direito a um pedaço de horta, os agricultores passam por um processo de formação em técnicas de plantio, comercialização e higienização das hortaliças. Os produtos por eles cultivos não levam nenhum tipo de agrotóxico ou inseticida. Quem se encarrega das pragas são os ativos sabiás, joões-de-barro e joaninhas.

O contador Joaquim Peres Neto, uma enciclopédia ambulante das ervas, estava desempregado quando conheceu o projeto: “Quando eu cheguei aqui, vi que tinha muita gente plantando alface. Aí resolvi ir para o lado das ervas. E, de pouquinho e pouquinho, fui aprendendo muita coisa”, afirma o agricultor.

Embora diga que o dinheiro não é muito, a satisfação de ajudar as pessoas com problemas de saúde vale o trabalho. “Me interessa dar uma qualidade de vida para as pessoas que vem aqui, e uma consciência maior sobre alimentação”, relata Joaquim, mostrando o frondoso arbusto de ora-pro-nóbis que ocupa o terreno dividido com outras três famílias agriculturas, inclusive a de Dona Sebastiana.

seu joaquim no pé de ora-pro-nóbis

Seu Joaquim mostrando o pé de ora-pro-nóbis / Crédito: Cecília Garcia

Transformando a malha urbana com agricultores

O projeto Cidades sem Fome foi pioneiro na maneira como as organizações, o governo e a comunidade tratam os territórios em desuso dentro da malha urbana: “A dificuldade que maioria das entidades tem de conseguir espaços urbanos ou de emparceirar com os órgãos os detém, nós conseguimos ultrapassar”, comemora Hans.

Isso só foi possível depois de um denso mapeamento das áreas, descobrindo a quem pertenciam. Assim, companhias elétricas, que ocupam com altas torres de energia imensidões de terra, por exemplo, podem ter espaços transformados em áreas de cultivo e socialização.

O projeto também foi fundamental na criação de uma legislação federal sobre a agricultura urbana. Na época de sua criação, os agricultores em perímetro urbano não gozavam dos mesmos direitos dos da área rural: não conseguiam microcrédito, acesso à políticas públicas de comercialização, ou escoamento de sua produção para bancos de alimento ou merenda escolares. Foram idas e vindas de Hans e agricultores para Brasília, em conversas com o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), que criaram terreno para a criação do Programa Nacional de Agricultura Urbana e Periurbana, em 2018.

Dona Sebastiana é uma das beneficiárias dessa política. Sua horta é referência no Bairro de São Mateus e suas hortaliças atraem desde locais até pessoas que cruzam a cidade para comprá-las. Ela vende de tudo: alface – Genival, o falecido marido da agricultora, era “fascinado por alface, e ficava até bravo se falavam que era para ele parar de plantar tanto” – cenoura, coentro e roxos corações de banana.

A partir de 2019, por demanda local, Dona Sebastiana conta que vai diversificar a horta: “Agora eu tenho necessidade de plantar de tudo. Quando a gente entra num negócio que nem esse, tem que gostar de plantar, gostar e gostar. Tem coisa que é mais valiosa, que dá mais trabalho, que demora mais, mas é exigência do público”, diz.

Sentada sob a sombra de sua barraca, Sebastiana conta que mantém a Associação dos Agricultores da Zona Leste (AAZL). Ela afirma que é árduo trabalhar em comunidade, mas que luta muito para que o coletivo seja como a sua horta, onde verduras dependem uma das outras para prosperar: “Um se apoia no outro. Se não der a mão, não vai. Tem que passar necessidade junto, sofrimento junto, para depois sorrir junto.”

pés de alface em horta comunitária em são mateus

Pés de alface, que o marido da Dona Sebastiana amava plantar / Crédito: Cecília Garcia