Transformar a cidade

Projeto Transcuidadorxs oferece formação profissional para população trans e travesti

Camila Miller de Oliveira está ansiosa. Faltam apenas quatro dias para começar suas aulas no projeto social Transcuidadorxs, que fornecerá formação para a população trans e travesti paulistana para que possam cuidar de idosos. A jovem, que nunca tinha pensado em trabalhar com geriatria, vê como única a oportunidade de se formar profissionalmente.

“É um projeto maravilhoso. População trans para trabalhar no Brasil só com indicação. Você dificilmente vai ter a oportunidade de trabalhar numa loja ou ser chamada para uma entrevista, como acontece com os cisgêneros.”

A iniciativa partiu do Instituto Amazônia Saúde e Bem-estar, centro de referência em envelhecimento saudável e longevidade. Madson Douglas Ribeiro, coordenador técnico do instituto e um dos responsáveis pelo curso, explica: “Vivemos no país com o mais alto índice de violência contra a população LGBT. Então, antes de prepará-las para trabalharem com a pessoa idosa, faremos elas se sentirem acolhidas e seguras”.

O curso gratuito de 100 horas tem como base as diretrizes do projeto de lei PLC 11/2016, que prevê a regularização da função de cuidador. As aulas teóricas incluem gerontologia, introdução ao Estatuto do Idoso, políticas protetivas de assistência social e orientação à pacientes críticos. Já as práticas contarão com o auxílio de voluntários já pacientes da clínica.

primeira turma de cuidadores  trans

Primeira turma do projeto Transcuidadorxs / Crédito: Amanda Marfree, que está ao centro da imagem. Camila Miller está no canto esquerdo.

Empregabilidade trans

“A empregabilidade travesti e trans sofre com a grande transfobia, desde a social até a institucional”, declara Amanda Marfree, ativista pelos direitos LGBT. “O mercado de trabalho pede capacitação, idiomas, desenvoltura e uma formação acadêmica legal. Então quando se fala de uma população vulnerável, que é expulsa de casa e se prostitui, você está falando de uma população basicamente sem formação.”

Ainda que nos últimos anos tenha havido um aumento de 300% na contratação da população trans pelo mercado de trabalho brasileiro, segundo matéria publicada na revista Exame, são igualmente grandes as cifras de violência e descaso. Cerca de 82% da população trans e travesti não consegue concluir os estudos, de acordo com dados da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Assim, muitas e muitos ainda têm que recorrer a prostituição.

O nome social é definido como a adoção/adequação do senso de identificação do sujeito referenciando o nome que o representa, evitando a exposição desnecessária do indivíduo, o constrangimento de ser tratado de uma forma que não condiz com sua condição humana, psicológica, moral, intelectual, emocional e que não o representa. Conquista do movimento LGBT, o nome social foi sancionado por decreto presidencial em 2016. Fonte: USP Diversidade.

Quando Amanda soube da iniciativa proposta pelo instituto, ofereceu-se para ser a ponte entre a organização e a população LGBT, que ela conhece dos anos de militância e do programa Transcidadania, política pública criada em 2015 pelo então prefeito Fernando Haddad que oferece auxílio financeiro para custear formação e inserção no mercado de trabalho dessa população.

Além de convidar as futuras e futuros estudantes para a formação, Amanda também teve o cuidado de formar o próprio Instituto com relação ao que deveria ser feito estruturalmente para receber a nova turma.

“A população trans tem muito potencial, mas quando se coloca uma população excluída desde nova dentro de uma hipócrita sociedade de padrões heteronormativos existe o choque. Então eu os orientei com relação a respeitar o nome social, mesmo que ainda não tenha sido feita a retificação, e também sobre o uso de banheiros. Mulheres trans usam o banheiro feminino e homens trans o masculino.”

Madson e seu grupo técnico incluíram no curso uma formação adicional: a da saúde psicológica do cuidador. “Teremos disciplinas e orientações que trabalham a inteligência emocional em situações de stress. Ainda não sabemos como a população vai reagir e tratar um cuidador trans, então ela e ele precisam estar preparados para esse encontro.”

Alta procura e expectativa

Em janeiro de 2019, foi marcado o primeiro encontro para o que Instituto e futuros alunos tivessem a oportunidade de se conhecer. Tanto Amanda quanto a equipe técnica tiveram uma surpresa: esperavam cerca de 15 a 20 participantes, mas se depararam com uma lotação de mais de 40 pessoas. A procura mudou os planos de manter aulas somente às sextas-feiras, abrindo uma nova turma aos sábados.

Camila foi uma das alunas que conseguiu se inscrever na primeira turma. Velha conhecida de Amanda, ela estava desempregada fazia três meses, sendo seu último cargo como atendente em uma perfumaria.

A plataforma Transempregos disponibiliza vagas e serviços para população trans e travesti.

“Eu saí de casa aos 16 anos, e quando cheguei em São Paulo foi para fazer programa. Nessa época, eu nunca imaginei que poderia trabalhar. Para mim, o nosso lugar era na esquina.”

Ela atribui tanto ao programa Transcidadania quanto à iniciativa Transcuidadorxs a possibilidade de “voltar a estudar, sonhar com um trabalho e cuidar do meu pai idoso.”

Para Madson, as salas lotadas e a longa lista de espera para novas turmas significam que a iniciativa é mais do que necessária para a equidade de gênero no mercado profissional brasileiro. “A população trans e travesti, assim como outras em situação de vulnerabilidade, só precisam de uma oportunidade. Nada melhor do que formar pessoas capacitadas tecnicamente e reforçar sua cidadania”, conclui.