Aprender na cidade

No museu londrino Horniman Museum & Gardens, acervo está ao alcance das mãos

O museu Horniman Museum & Gardens, em Londres, possui um grande acervo de história antropológica e natural. Instrumentos musicais raros, animais empalhados e até o esqueleto do que por muito se pensou ser uma sereia japonesa, mas revelou-se uma estátua de papel machê e peixe, cativaram os olhos dos mais de 800 mil visitantes do último ano.

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Mas o que torna especial o museu localizado no subúrbio londrino de Forest Hill é menos sua coleção e mais o que se pode fazer com ela: os mais de 3 mil objetos não ficam encerrados em vidraças inalcançáveis e são usados como ponto de partida de uma série de atividades envolvendo a comunidade e o território.

A Julia Cort é há seis anos responsável pela gestão da relação entre comunidade e museu, garantindo que os anseios do entorno, muito diverso cultural e racialmente, sejam levados até a instituição. “Meu trabalho é mudar o museu para que ele seja mais alcançável”.

Não é uma tarefa simples, tendo em vista que, nos últimos anos, o bairro tem sofrido um processo de gentrificação, o que afastou a comunidade originária dos arredores. Ainda assim, Julia acredita que é papel da instituição entender como fazer-se relevante para quem está dentro e fora do território.

Em entrevista ao Portal Aprendiz, aproveitando sua estadia em São Paulo para o seminário Em Contato: Comunidades, Cultura e Engajamento, em parceria com o Museu da Imigração e o British Council, a antropóloga inglesa relata como o museu tece sua relação com o território, potencializando objetos do vasto inventário:

galeria do mundo dentro do horniman museum

“Galeria do Mundo” tem objetos de várias culturas / Crédito: Divulgação do blog do museu

Portal Aprendiz: O que faz o Horniman Museum & Gardens diferente de outros museus de Londres e do mundo?

Julia Cort: Vou começar com o que o torna parecido. Nosso acervo antropológico e de instrumentos musicais é conhecido nacionalmente como significante, e a coleção de história natural está em vias de se tornar também. Há nele outras atrações para além do acervo, como o aquário ou jardim. Isso nos torna similares a outros museus: possuímos uma coleção bem-quista e atrações diversas.

O que nos faz diferente é que não estamos no centro de Londres. Se você é um turista e vem para Londres com uma lista de cinco coisas que precisa ver se tiver um dia na cidade, não estaremos lá (risos).

Estamos em uma comunidade localizada no sudoeste de Londres chamada Forest Hill, que é historicamente umas das mais diversas e desiguais, apesar disso estar mudando nos últimos anos.

Quando turistas visitam museus, eles geralmente o fazem uma vez e nunca mais voltam. O nossos visitantes da área próxima vêm muito, alguns duas a três vezes por semana. Então eles sentem muito amor e pertencimento pelo Horniman Museum & Gardens.

dentro da sala do museu horniman

Sala dentro do museu / Crédito: Divulgação

Portal Aprendiz: O museu é muito colorido e parece estar sempre repleto de atividades que envolvem o acervo, como apresentações de música que usam os instrumentos musicais. Como vocês potencializam esse acervo?

Julia: 60% dos visitantes do museu são famílias e a maioria têm crianças bem novas, com menos de cinco anos. São esses os nossos visitantes regulares e eles precisam de um acervo que seja acessível para crianças e também continuamente interessante, porque eles irão voltar várias vezes.

O que sabemos sobre o aprendizado de crianças e museus é que elas não aprendem lendo etiquetas e placas, e que também seus pais não as ensinam lendo essas mesmas placas. Crianças aprendem pelo tato, experiência e conversa.

Por exemplo, na galeria de história natural, existe uma área onde o visitante pode aprender qual seu papel em proteger o meio ambiente e a natureza. Muitos deles não têm jardins, mas a área do sul de Londres tem muitos parques e eles percebem que podem ter atitudes que ajudem a proteger esses parques. Crianças aprendem tocando em espécies de pássaros, colocando suas mãos e pés em pegadas de outras criaturas.

Existe também um programa educacional para as famílias. Isso é diferente do que acontece em outros museus, porque o público alvo não são só as crianças. Existe uma política sem celular dentro das atividades; parentes e cuidadores não podem ficar no fundo das salas com seus telefones. Eles estão no chão com as crianças, aprendendo juntos.

Uma das razões que esses pais davam sobre não se sentir confortáveis em museus era não saber responder o que seus filhos perguntavam. Então o Horniman os ensina também, modulando maneiras para que sejam criativos com as crianças em casas e em outros museus.

Aberto em 1901, o museu começou com a coleção de objetos antropológicos e naturais do filantropo Frederick John Horniman. Desde seus primórdios vitorianos, a ideia era que o museu atendesse à comunidade local.

Agora, sobre o acervo. O Horniman possui um acervo cultural com peças que os visitantes podem se relacionar, mas também peças que não, porque pertencem a outras culturas. Fazemos esse contato sempre, e de maneira inovadora, criando uma forte agenda anti-racismo, mostrando ao visitante que todos no mundo estão tentando ser bons seres humanos de jeitos específicos às suas culturas.

Tentamos mostrar objetos cotidianos de pessoas de todo o mundo e relacionar isso com o dia a dia do visitante. Na nossa nova galeria de arte, Word Gallery, por exemplo, há uma exibição de roupas inuit e alguns objetos para tocar como pele e pelo de foca, criando uma reflexão sobre aquele modo de vida. Ao lado desse objeto, uma capa de chuva de uma loja local.

Chamamos isso na antropologia de fazer o estranho familiar e o familiar estranho. Se você pegar seu dia a dia e conhecer o de outras pessoas é possível parar de vê-las como estranhas. Então, conectamos nossos objetos com pessoas e pessoas com pessoas, porque pessoas conectam pessoas melhor que objetos.

vários instrumentos musicais

Acervo de instrumentos musicais do Horniman Museum & Gardens / Crédito: Sofia Spring

Portal Aprendiz: O Horniman Museum & Garden possui uma vasta coleção de instrumentos musicais e vocês os usam em programas como o “Music in the Making“, que cria atividades baseadas nos instrumentos musicais disponíveis. Isso pode ser usado para aproximar diferentes culturas?

Julia: O “Music in the Making” é um projeto novo pensado para fazer a coleção de instrumentos musicais mais relevante para a comunidade local. Em setembro, fizemos uma grande simpósio onde convidamos pessoas do território e perguntamos o que poderia ser feito. O que disseram foi que os instrumentos musicais do museu estão sempre silenciosos, atrás de vidros, e não podem ser escutados, e o quanto seria legal trazê-los à vida. Eles também disseram que seria legal criar um espaço onde seriam divididos saberes sobre instrumentos musicais.

Então eles pediram para que criássemos um espaço de trocas, onde pessoas pudessem trocar essas habilidades, performar umas com as outras, experimentar os gostos musicais de outras pessoas. Essa comunidade local também compartilhou que música é algo que todo mundo pode experienciar e que traz as pessoas juntas, mas é também algo que as mantém separadas. Se você gosta de ópera, você é diferente de uma pessoa que gosta de Grime [gênero de música urbana nascido na Inglaterra].

Então se estamos falando sobre instrumentos musicais, temos que falar sobre as pessoas que os usaram, os fizeram, as celebrações onde são tocados. E também é possível abordar a ciência por trás desses instrumentos, o que é muito atrativo para comunidades escolares.

casal toca instrumentos dentro do horniman museum & gardens

Os visitantes podem experimentar e tocar alguns instrumentos, dividindo seus conhecimentos / Crédito: Divulgação do blog do museu

Portal Aprendiz: Aproveitando a deixa, como vocês se relacionam com a comunidade escolar do território?

Julia: Quando as escolas visitam, elas têm 45 minutos de sessão baseada em um tema de sua escolha. Se escolheram máscaras, podem experimentar máscaras. Se instrumentos, poderão tocá-los. Esses encontros são facilitados pela equipe do museu.

Há também clubes regulares dentro do museu. Seus participantes são crianças que vão até o Horniman no contra-turno da escola, geralmente de populações vulneráveis cujos pais não podem cuidar delas de tarde.

Por fim, há os projetos com escolas hospitalares, escolas para pessoas com deficiências e para crianças e adolescentes em medidas socioeducativas. Nestes casos, normalmente o sistema escolar falhou com elas, então precisam de um jeito diferente de aprendizado.

Portal Aprendiz: Como o museu trabalha e engaja a comunidade?

Julia: Fazemos a maioria dos nossos trabalhos com parcerias. Isso significa que é possível garantir desde o começo a construção de uma relação forte, em que as necessidades do grupo com que o museu trabalha sejam atendidas, sem impor nada para populações e organizações que já têm muito o que fazer com poucos recursos.

O museu está nessa comunidade local como um recurso. Sabemos que como museu não seremos verdadeiramente relevantes para nossa comunidade local – e então não estaremos fazendo nosso trabalho – a menos que façamos parcerias. Não é só sobre o que o museu pode fazer pela comunidade, mas o que as pessoas da comunidade podem fazer pelo museu.

Trabalhamos com diferentes grupos no momento. Grupos migrantes, grupos de saúde mental, pessoas com problemas de aprendizado, e as famílias. Cada grupo tem uma especificidade, diferentes tipos de necessidades e expectativas com relação ao museu, então meu papel é fazer com que tudo que é dito pela comunidade seja ouvido na instituição.

Conectamos nossos objetos com pessoas, e pessoas com pessoas, porque pessoas conectam pessoas melhor do que objetos.

Portal Aprendiz: Julia, você pode trazer um exemplo de como essa comunicação floresce para alguma atividade ou programa concreto dentro do museu?

Julia: Uma das coisas que essa comunidade trouxe em uma das reuniões é sobre a necessidade de abordar os estigmas associados à saúde mental. Eles desejam acesso a um espaço não necessariamente feito por uma instituição de cuidado mental, mas um público, mais neutro.

Uma das alternativas tem sido fazer sessões mistas e workshops que misturam os públicos e que são lideradas por pessoas com deficiências mentais. As famílias que vêm para uma atividade manual, por exemplo, encontram pessoas com severa necessidade de cuidados mentais, e percebem-as fora dos estereótipos.

Já as pessoas que frequentam as unidades mentais têm o desejo de tentar retornar ao mercado de trabalho e reconstruir sua autoestima e confiança. Querem um ambiente bem estruturado onde elas podem tentar, mas ao se sentirem desconfortáveis, também terem acesso a um espaço recluso. Então elas podem fazer parte das atividades manuais, por exemplo, cuidando dos objetos, das matérias-primas, sem necessariamente interagir com o público, se assim quiserem.

capoeiristas celebram capoeira dentro do horniman museum & gardens

Apresentação de capoeira dentro do museu / Crédito: Divulgação do blog do museu