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Indicados ao Oscar, “Pantera Negra” e “Infiltrados na Klan” trazem reflexões sobre raça e gênero

O filme Pantera Negra (2018) é considerado um fenômeno da cinematografia recente. Baseado no quadrinho homônimo da Marvel Comics, o longa é uma das maiores bilheterias da história do cinema mundial, sendo a maior de seu ano de lançamento. É também o primeiro longa-metragem de super-heróis a ser indicado à categoria de melhor filme no Oscar, onde concorre à outras sete indicações.

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Para além de suas cifras expressivas, o filme também chacoalhou o debate sobre representatividade negra – e sua ausência – na história do cinema. Em matéria do The New York Times, Jamie Broadnax, fundadora do Black Girl Nerds, um site de cultura focado em cultura nerd, comentou:

“É a primeira vez em muito tempo que nós vemos um filme com personagens negros centrais, onde temos agência – capacidade de um agente intervir no mundo. Os personagens são líderes de um reino, inventores e criadores de tecnologia avançada, e não lidando com pobreza, dor ou sofrimento, como comumente estamos acostumados.”

Olhar para um filme enquanto ponto de partida para discussões sobre raça, gênero ou outros temas é um dos grandes desdobramentos da potência cinematográfica, como afirma Clementino Júnior. Ele é cineasta e criador do Cineclube Atlântico Negro, projeto que exibe e discute mensalmente filmes da diáspora africana.

O Portal Aprendiz convidou Clementino a compartilhar sua perspectiva crítica e pedagógica tanto sobre filme Pantera Negra quanto sobre o Infiltrado na Klan (2018), filme dirigido por Spike Lee e que também concorre ao Oscar de Melhor Filme de 2019.

personagem shuri do filme plack panther

Shur (Letitia Wright) é a irmã do príncipe T’Challa e responsável por toda inteligência e tecnologia de Wakanda / Crédito: Divulgação do filme

Pantera Negra como filme respiro

Para Clementino, “Pantera Negra” é um balaio de referências da luta de movimentos negros norte-americanos.

“É um filme referencial aos Panteras Negras, movimento social que inspirou a criação dos quadrinhos por Stan Lee. Os Panteras Negras eram um movimento de resistência dentro do Estados Unidos, cuidando da comunidade, das escolas e da alimentação no guetos norte-americanos. E justamente por apresentar uma outra lógica de sociedade mais igualitária e justa, foi duramente reprimido pelo governo.”

A referência se estende também aos seus dois protagonistas: T’Challa (Chadwick Boseman), que é o herói e líder do reino de Wakanda, e seu nêmesis, o expatriado Erik Killmonger (Michel B. Jordan). “São personagens que de alguma maneira dialogam com pensamentos revolucionários dos negros em diáspora. É possível fazer a analogia do Pantera Negra com o próprio Martin Luther King e de Erik com o Malcolm X.”

O Oscar, maior premiação do cinema norte-americano, tem sido palco de muitas críticas, tanto por sua branquitude quanto pela majoritária indicação de cineastas homens. Para Clementino, é preciso reconhecer a importância das últimas premiações terem olhado para a cinematografia negra e produzida por mulheres, mas também encarar essa movimentação com cautela: “As grandes produtoras ainda são comandadas por homens brancos. Para mudar isso, é uma construção de longo prazo.”

Wakanda, país imaginário onde se passa a narrativa, é notória enquanto uma nação que convive harmonicamente com a natureza, enxergando-a como potência tecnológica – visão de mundo diferente das dos países colonizadores.

Clementino, que tem longa experiência dentro de espaços pedagógicos e de cineclubes, fala da dificuldade que é o público entender a África enquanto continente diverso. “Um filme como esse é um respiro, porque sempre a mídia retratou os mais de 50 países africanos sob uma perspectiva de miséria e da pobreza.”

Por fim, o cineasta celebra a diversidade das personagens femininas, como Nikia, protagonizada pela atriz Lupita Nyong’o e que luta por uma aproximação maior de Wakanda com as outras pátrias africanas.

“As mulheres pretas têm um papel de consciência de grupo e de comando da ação fundamental. Na ficção afro-futurista, são as personagens femininas que pensam, agem e quebram as regras quando necessário para fazer justiça. Elas orientam os homens do filme, com destaque especial para as coadjuvantes que são a irmã do rei, Shuri (Letitia Wright), e também a chefe de segurança do Rei de Wakanda, Okoye (Danai Gurira).”

os protagonistas do filme Infiltrado na Klan

Os protagonistas Ron Stallworth (John David Washington) e Patrice Dumas (Laura Harrier) no filme “Infiltrado na Klan” / Crédito: Divulgação

“Infiltrados na Klan” como leitura da história racial

Dirigido por Spike Lee, o filme baseado em fatos reais conta a saga de Ron Stallworth (John David Washington), novato na polícia do Colorado nos anos 1970. Para revelar planos da Ku Klux Klan local – grupo de supremacia racial que mata e persegue populações minoritárias nos Estados Unidos – o jovem policial desenha uma plano de infiltração: enquanto se comunica com o grupo por meio de telefonemas e cartas, ele envia seu parceiro, o policial branco e judeu Flip (Adam Driver), como seu dublê, para participar das reuniões presenciais.

“Eu acho esse filme tão fabuloso que até me surpreende ele estar dentro do Oscar”, explica o cineasta. “É uma história importante para resgatar a história norte-americana, trabalhando-a com humor e fazendo as pessoas perceberem o quanto era forte e ainda é o preconceito nos Estados Unidos.”

Para contar essa narrativa, Spike Lee recorreu a recursos cinematográficos do blaxploitation, movimento que teve seu auge nos 1970, e que trazia para frente e para detrás das câmeras artistas e diretores negros, que desafiaram com agressividade, irreverência e humor o status quo norte-americano.

“É um bom filme para se discutir em rodas de conversa, porque permite uma camada diversificada de leituras. Há um distorção muito bem pensada da narrativa clássica de polícia e ladrão. O policial negro é discriminado, há também uma questão étnico-racial com os judeus.”

O cineasta também chama atenção para a protagonista Patrice Dumas (Laura Harrier), que é do movimento dos Panteras Negras: “A ativista, que se torna o par romântico do policial, é articuladora das reuniões e mobilizações antirracistas. Ela chama a atenção para a identidade negra que o policial mascara em sua função, que por vezes não lhe permite assumir que há uma diferença entre o policial que ele é e os demais. Essa diferença é a fagulha que dispara toda a ação do filme.”

Contraindicação

Dos longas indicados à melhor filme, “Green Book: O Guia” (2018) é um dos que Clementino critica. O longa narra uma longa viagem de carro pelo sul norte-americano, protagonizada pelo pianista Don Shirley e seu motorista branco.

“Green Book é feito na perspectiva do motorista branco e racista em desconstrução que acompanha Don Shirley. Em todo o momento ele é colocado em voga, deixando o protagonista, que não é somente um gênio, como também importante na luta de direitos humanos, de lado. Também há um fetichização da questão da homossexualidade do protagonista. Para além de ser um filme de brancos falando sobre os negros, ele também tem uma péssima direção e não soube aproveitar os pontos fortes do roteiro. Não nos representa”.