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Contra fake news, BBC News Brasil cria oficina de alfabetização midiática para jovens

As notícias falsas viajam 70% mais rápido que as verdadeiras no Twitter. Esse dado, divulgado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) em março deste ano, atribui o fato ao caráter muitas vezes sensacionalista dessas fake news. Ainda segundo o mesmo estudo, quando são relacionados à política, elas se espraiam ainda mais depressa.

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É para ajudar jovens estudantes a identificar a autenticidade das matérias jornalísticas que a BBC News Brasil criou a Oficina de Leitura Crítica de Notícias. Duas videoaulas, disponíveis on-line, explicam e propõem exercícios sobre o fazer jornalístico e ferramentas para perceber o que é uma fake news.

“O nosso objetivo é instrumentalizar o ceticismo entre esses jovens, fomentando a curiosidade e também a desconfiança”, explica Silvia Salek, diretora de redação da BBC News Brasil e uma das idealizadoras do projeto. A oficina foi apresentada ao público no seminário Beyond Fake News, em São Paulo, em março de 2019.

Evento também trouxe personalidades para debater fake news e jornalismo comunitário, como Lilia Melo, eleita melhor educadora do Brasil, e Rene Silva, criador do Vozes na Comunidade.

Evento também trouxe personalidades para debater fake news e jornalismo comunitário, como Lilia Melo, eleita melhor educadora do Brasil, e Rene Silva, criador do Vozes na Comunidade.

Como funciona a oficina?

Pensada para ser disseminada em escolas por todo o Brasil e multiplicada por educadores e gestores, a oficina tem duração de cerca de 1h30, e é dividida em dois módulos, com videoaulas de 10 minutos cada.

O primeiro módulo demonstra como nasce uma matéria jornalística. “Ele mostra o que está por trás da notícia, qual a missão do jornalista e como é seu trabalho, ressaltando a importância do olhar crítico para a feitura da pauta”, explica Paula Adamo Idoeta, repórter da BBC News Brasil.

A BBC possui  programas de alfabetização midiática (media literacy, em inglês) com jovens também na Inglaterra, Nigéria, Quênia e Índia. O piloto do projeto brasileiro é largamente inspirado nos materiais trabalhados nas escolas desses países, visando desenvolvimento do pensamento crítico.

Ainda durante o primeiro módulo, o convite é que os estudantes leiam matérias que façam sentido em sua realidade e consigam apontar nela respostas para cinco perguntas fundamentais do jornalismo: o quê, como, onde, quando e por quê.

A segunda parte da oficina trata da desinformação: “Queríamos explicar o impacto da disseminação de uma notícia falaciosa e como é possível identificar o que a gente trata como fake news”, prossegue Paula.

O exercício dessa etapa é justamente o de identificar aspectos da matéria que podem demonstrar sua improcedência: a falta de fonte, títulos sensacionalistas ou a manipulação de imagens ou utilização delas fora de contexto.

O piloto da oficina aconteceu na E. E Martim Francisco, escola na zona sul da capital paulista, com estudantes de 14 a 19 anos. Eles puderam analisar uma notícia falsa da época da epidemia de febre amarela em São Paulo, além de criarem perguntas para Dom Pedro I em um hipotético cenário de volta ao tempo na vinda da família real portuguesa ao Brasil, em 1808.

Uma oficina para ser multiplicada

Em workshop realizado com educadores no mesmo evento, Silvia  Salek sinalizou que o projeto agora deve passar por “uma rodada de apresentação nas escolas brasileiras, mostrando o material disponível na internet e como utilizá-lo”.

Para além de mostrar possíveis maneiras de explorar o conteúdo das oficinas, o workshop serviu para que educadores pudessem dar sua opinião sobre como adequar as oficinas às múltiplas realidades da escola.

“Na periferia, as notícias que vêm da grande mídia não importam”, sinalizou uma educadora da plateia. “Como não fazem parte de suas realidades, e a periferia é sempre retratada de forma equivocada, eles nem olham para a notícia. Então antes de ter fake news, tem que ter uma new. Achei legal o projeto no sentido de ajudar o aluno a ler mais e ler de uma forma crítica”.

Onde é possível acessar os vídeos?

Os vídeos e os exercícios estão disponíveis no canal da BBC News Brasil. Se você é educador ou gestor de uma escola e quer receber uma apresentação do projeto, é possível entrar em contato com a BBC News Brasil por meio do email: paula.ai@bbc.co.uk