Aprender na cidade

Educação para a diversidade como alternativa à cultura de violência

Dez pessoas morreram em um episódio violento na Escola Raul Brasil, em Suzano (SP). Ex-estudantes entraram armados na manhã do dia 13 de março e atacaram alunos, educadores e gestores – além de um comerciante próximo. O episódio, que não é o primeiro a acontecer em escolas brasileiras e guarda semelhanças com outros lugares do mundo, reacendeu a discussão sobre a cultura da violência e também sobre a posse de armas no Brasil.

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O país ocupa o primeiro lugar no ranking de mortes por armas de fogo, segundo o Global Burden Disease, órgão da OMS (Organização Mundial da Saúde) que pesquisa causas de morte. E são os jovens, principalmente os negros, suas maiores vítimas. Os homicídios também acontecem nos primeiros meses de uma política de flexibilização do porte de armas iniciada pelo decreto Nº 9.685, assinado pelo presidente Jair Bolsonaro no começo do ano.

Para especialistas em educação e juventudes, é preciso refletir sobre como a cultura da violência impacta os jovens, e como é na educação para a diversidade que pode haver uma resposta social para se evitar a violência.

Cultura de violência e suas narrativas

Para Maria Thereza Marcílio, presidente da ONG Avante – Educação e Mobilização Social, o episódio de Suzano e seus similares não podem ser analisados sob qualquer ótica reducionista: eles são violentos porque a sociedade onde eles estão também o é. “Somos um país profundamente desigual desde sua origem e fundado na violência. O processo de colonização foi brutal, com praticamente o extermínio da população indígena e 300 anos de modelo escravocrata.”

Além de sua edificação violenta, o Brasil também perpetuou a brutalidade em seu projeto de país: é um dos que mais mata sua população LGBT, com altos índices de feminicídio e violência contra a mulher e também possui a terceira maior população carcerária do mundo.

Somam-se a isso processos ainda não sanados de violência do próprio Estado, como a ditadura civil-militar, ou de assassinatos de lideranças políticas e comunitárias que representam essa diversidade, como a vereadora Marielle Franco, cujo homicídio ainda não foi solucionado:

“Nosso país tem uma tendência histórica de não encarar seus desafios e isso acontece com problemas extremamente arraigados como racismo, machismo, LGBTfobia. A violência é a faceta visível dessa dificuldade, da falta de coragem de estar no mundo visando o bem comum em primeiro lugar”, explica Flora Daemon, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRJ) e autora do livro “Sob o signo da infâmia: das violências em ambientes educacionais às estratégias midiáticas de jovens homicidas/suicidas“.

Essa cultura da violência encontra alinhavo com os discursos institucionais recentes no país. As soluções para a violência apresentadas na esfera federal – com um presidente que defende o armamento da população e o Ministro da Justiça Sérgio Moro investindo em um pacote “anti-crime” de medidas, em sua maioria punitivas e persecutórias, também contribui para essa narrativa de violência, como afirma Vitor Blotta, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV).

“Com o aumento das formas de acesso a armas e a propagação de uma ideologia da arma de fogo como única maneira de se obter segurança, há a construção de visões de mundo mais propensas a aceitar e a recorrer essas formas privadas e letais para a resolução de conflitos.”

Jovens e a cultura da violência

A maioria dos ataques às escolas, inclusive os de Suzano, foram perpetrados por jovens homens. Em comum, eles tinham um apreço pela cultura das armas, as quais expunham em redes sociais, e também nelas faziam apologia à violência contra grupos de mulheres, LGBT e negros.

“Os jovens, por serem sujeitos em formação, podem ser profundamente atravessados por afetos enfáticos que são propagados pelo senso comum e que geralmente flertam com intolerâncias diversas”, complementa Flora.

Blotta ressalta que não é acaso a escola ser um alvo: “As lógicas de repressão e violência como forma de socialização e até mesmo de transmissão de conhecimento nas escolas acabam tendo diversos resultados negativos, como exclusão, dificuldade de pertencimento e bullying, o que se radicaliza e se estende com o acesso constante à informação e mídias sociais. Apesar de cada caso ser um caso, começamos a identificar padrões, como jovens excluídos e não assistidos, com fácil acesso a armas e participação em culturas violentas em sites e grupos de internet.”

Ambos os especialistas afirmam que, em tragédias como essa, o caminho mais adotado tanto por autoridades como pela sociedade é o de culpabilizar o jovem e se eximir da responsabilidade.

“Se hoje os jovens – e, lamentavelmente até crianças – reproduzem discursos e práticas violentas, não quer dizer que eles sejam necessariamente sujeito violentos em definitivo. Eles estão em formação. E precisam entender que há outros caminhos possíveis e melhores para todos enquanto coletividade. E nós, adultos, pais, educadores, precisamos tomar a frente desse processo, ter a coragem de enfrentar esses desafios históricos e não simplesmente contar com a sorte e abrir mão de nossas responsabilidades”, afirma Flora.

marcha contra violência nas escolas amaoznas

Marcha contra violência em Manaus (AM) / Crédito: Secretaria de educação do Amazonas

A escola para a diversidade como horizonte possível

Em episódios como esse, os olhos se voltam para a escola, questionando-a em sua capacidade de mediar conflitos e lidar com a diversidade inerente a um país tão social e culturalmente diverso. Para Maria Thereza Marcílio é importante lembrar que a escola também é constante alvo da violência, e têm sido, nos últimos meses, bastante perseguida:

“É difícil falar de escola para a diversidade quando a escola tem sido vista como fábrica de doutrinação e alvo de violência”, relata. “A escola tem sido vista como inimiga da sociedade, e professores como agentes de doutrinação ou até de perversão sexual. Quando você destrói o significado e o simbólico da escola e ainda não dá condição para ela se estruturar, criando tetos de gastos, cortes de verba e desrespeito à legislação, você está empobrecendo a instituição.”

Ainda assim, na opinião da educadora, a escola é – por excelência e em marcas pétreas da Constituição de 1988 – o espaço para se debater e pensar a diversidade. “A escola mais do que nunca é demandada a ter esse papel de lida com a diversidade, porque o mundo tem caminho na explicitação dela. Somos todos seres diversos, e a escola é o lugar de acolhimento para nos formar de modo a conviver, de conseguir estar numa sociedade que vê na diferença uma complementaridade positiva.”

Mas para que isso seja possível, a escola tem que funcionar em simbiose com o seu território e comunidade; ela sozinha não dá conta das complexidades da violência brasileira. “Escolas não são ilhas, são inseridas em lugares próprios, com cada um que está ali com cultura, o diretor, o aluno, o porteiro. Ela só será de qualidade quando a sociedade valorizá-la enquanto necessária. E todos nós temos responsabilidade nisso.”

Blotta, que coordena o Projeto Observatório de Direitos Humanos em Escolas também concorda: “A escola é instituição mediadora do espaço de formação privado da família e dos espaços públicos compostos por outras instituições. Nesse sentido, creio que projetos de educação democrática, educação para a cidadania e educação em direitos humanos são fundamentais para combater essas tendências de belicismo, antagonismo e estruturas violentas que atravessam a sociedade e com isso as escolas.”

Em seu projeto, são desenvolvidas atividades de sensibilização, formação e monitoramento em direitos humanos junto aos estudantes e agentes escolares a partir de temas presentes em seu cotidiano. “Com isso, buscamos contribuir para aumentar o pertencimento e o protagonismo juvenil nas escolas, melhorar as relações interpessoais e também abrir espaços e oportunidades que surgem nessas parcerias entre escola, comunidade, universidade e atores públicos locais.”