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Wikifavela: dicionário colaborativo reúne saberes locais da favela

Favela é um território que aglutina diferentes experiências sociais e culturais. Não é possível defini-la com um só verbete. A complexidade desse território é tanta que inspirou escritoras como Conceição Evaristo – que nasceu em uma delas e as fez de cenário em livros como Becos da Memória (2006) – e os parangolés de Hélio Oiticica.

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É no desejo de bosquejar a favela como produtora de conhecimento intelectual e social que nasce o Wikifavela – Dicionário de Favelas Marielle Franco. Lançada em 16 de abril, a página contém 155 verbetes construídos de forma coletiva sobre diferentes assuntos que permeiam e são produzidos ativamente nesse território.

Sônia Fleury, socióloga e coordenadora do projeto, explica que a iniciativa de catalogar os saberes locais das favelas surgiu durante a feitura de pesquisa acadêmica no campo. “Percebi que do ponto de vista do conhecimento acadêmico havia fragmentação grande do tema em áreas como antropologia, geografia e etc. E trabalhando nas favelas, me deparei com a imensa produção intelectual dentro delas. O projeto dá liga entre essas duas áreas.”

Temas como baile funk, participação comunitária e cultura são alguns dos exemplos que compõe o dicionário, apoiado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ).

O nome do projeto homenageia a vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018 em crime ainda sem solução. Ela foi uma das escritoras responsáveis por verbetes como a UPP. “Com isso, mostra-se que o trabalho dela não se cala e que vamos continuar sua luta pela emancipação da cidadania e dos direitos humanos”, diz Sônia Fleury.

Para tecê-lo de maneira horizontal e participativa, foram convidados não só acadêmicos da área, mas principalmente as pessoas que vivem e experienciam as favelas. A plataforma está aberta a quem quiser complementar verbetes, criar novos e adicionar imagens.

O Wikifavela permite ainda que diferentes pontos de vista sejam escritos sobre um mesmo tema, congregando a diversidade de olhares tão própria desse espaço: “É por isso que é um dicionário de favelas no plural, porque desafia os estereótipos sobre favela que muitas vezes pautam as políticas públicas. As favelas não são homogêneas e produzem tipos diferentes de socialização”, sentencia Sônia.

Abaixo, o Portal Aprendiz extraiu 6 verbetes que abordam questões relativas a território, direitos humanos, cultura e cidades educadoras.

Baile Funk: Herdeiros dos bailes black dos anos 1970, os bailes funk surgem na cidade do Rio de Janeiro na década de 1980. Já em meados desta década, o antropólogo Hermano Vianna, pesquisador pioneiro do funk, estimava que mais de um milhão de pessoas frequentavam os bailes da cidade. A maioria delas, jovens pobres e negros, moradores de favelas, subúrbios e periferias.

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Museologia Social:  Sintetiza-se na ideia de que os mecanismos de valorização da memória e das ações de preservação tenham como prioridade a busca pelo direito à diversidade, à dignidade humana, o respeito e os princípios de liberdade (…) Há hoje diversas expressões da museologia social no Brasil, que representam e refletem aspectos da luta e resistência da população urbana, como: Museu da Maré, Museu de Favelas, Museu das Remoções, Museu do Horto, Sankofa Museu da Rocinha e outros.

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Direito à favela:  Um posicionamento social, político e pedagógico em defesa do direito à vida, constantemente desrespeitado na favela. A experiência comunitária é evocada e compreendida como pressuposto fundamental para o acesso e a garantia dos direitos fundamentais que constam na Constituição Brasileira de 1988. Por isso, toma-se como referencial a partilha de conhecimento prático, por parte da favela, e teórico, tanto por parte da comunidade quanto da universidade. Propõe-se, portanto, a união entre a teoria e a prática para a geração de práxis inclusiva, proativa e libertadora da favela.

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Literatura de favela: O verbete procura mapear a cultura de favela que se expandiu na década de 90, sondando as manifestações artísticas produzidas nas favelas. Através de obras de três autores, Carolina de Jesus, Paulo Lins e Luiz Paulo Corrêa e Castro, desenvolve o conceito de literatura de favela, identificando as tipologias recorrentes de favela-inferno e favela-idílio na produção literária que dialoga com a temática da favela.

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Mapas afetivos: Ao colocar na centralidade da representação as percepções sensoriais das pessoas, os mapas afetivos de forma direta ou indireta são capazes de desenvolver identidades territoriais, indicando lugar (afetividade com o espaço) e não-lugar (esvaziado de sentido para o ser). Ao ilustrar essa dicotomia entre afetivo e não efetivo, esses mapas sensoriais são capazes de iniciar a tessitura de experiências das pessoas e sua relação com os espaços-tempos por onde coabitam sentimentos plurais sobre o espaço. Foi a partir dessa perspectiva cartográfica, que os educadores e as educadoras do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré – CEASM, desenvolveram junto às educandas e aos educandos do Curso Preparatório para o Ensino Médio da instituição o projeto de Mapas Afetivos da Maré.

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Favela é cidade: Quem é central na produção do maior espetáculo cênico do mundo, expresso no Sambódromo, e apenas comparável aos grandes estádios de futebol, onde a ginga do movimento afro incendeia a disputa em forma de drible e gerador do gol?!? Samba, religião e futebol atravessando a avenida, a rua e a praça e o espetáculo. E a madrugada do amanhecer que coloca em cena a construção do funcionamento laboral e orgânico da cidade, desce de onde? (…) E então, favela e periferia não são centro? Portanto, cidade que será também cidadania, democracia, quando acesso e direito forem comuns e públicos, da educação básica à saúde preventiva, bem como a cultura da moradia e do ir e vir.

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