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Centro boêmio de Natal (RN), Beco da Lama é revitalizado com grafites inspirados na cultura popular

Quem andou nos últimos dois meses pelo Beco da Lama, reduto boêmio de Natal (RN), deparou-se com figuras inusitadas grafitadas nos muros: tem um lobisomem de olhos amarelos uivando para o céu; um boi maranhense adornado de fitas dançantes; e também Câmara Cascudo, ladeado por figuras da cultura popular a qual dedicou uma vida de pesquisa.

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Os grafites são parte de um projeto de revitalização da rua Vaz Gondim, popularmente conhecida como Beco da Lama, iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura com investimento da prefeitura. A região histórica, de bares com laureadas cachaças e casas de artigos religiosos afro-brasileiros, virou tela para 48 grafiteiros, em sua maioria potiguares.

Miguel Carcará, grafiteiro, educador social e responsável pela coordenação do projeto, explica o porquê da escolha desta arte urbana para valorizar o espaço público: “Quando você olha o grafite, na verdade você está olhando para o povo que o produz, o povo que habita a cidade e suas comunidades.”

figuras do imaginário popular no beco da lama

Alguns dos grafites que adornam o Beco da Lama, em Natal (RN) / Crédito: Miguel Carcará

Valorização da produção e da cultura local

Não há quem não conheça na capital potiguar a figura de Câmara Cascudo (1898-1986). Folclorista e pesquisador da cultura popular, o artista dedicou sua obra a sabedoria popular e as lendas e causos locais.

“Câmara Cascudo é uma pessoa muito representativa do nosso estado, e nós pegamos essa parte de sua pesquisa que passeia pelas lendas e crenças populares porque elas tem uma parte lúdica, que dá para trabalhar bem nos grafites”, conta Carcará. Lobisomens, sacis, curupiras e outros representantes do bestiário brasileiro adornam os muros.

Ainda que o projeto seja recente, previsto para terminar em novembro, o grafiteiro afirma já ser possível notar uma comoção entre os moradores, comerciantes e passantes: “O espaço se tornou mais ativo e teve um avanço na cena artística local.”

figuras mitológicas como o saci a curupira

Figuras mitológicas brasileiras fazem parte dos grafites / Crédito: Miguel Carcará

Grafite como inclusão social

A iniciativa da prefeitura de Natal é uma narrativa de contrapelo a como o poder público em geral olha para o grafite e para a arte urbana em outras cidades. Em São Paulo, a gestão do ex-prefeito João Dória (PSDB) travou em 2017 e 2018 um embate com pichadores e grafiteiros locais, apagando espaços emblemáticos de grafite como a avenida 23 de maio. O Tribunal de Justiça de São Paulo condenou a ação.

Para Carcará, é muito importante que o poder público reconheça a riqueza cultural dessa manifestação artística e não endosse discursos criminalizantes: “o grafite, no Brasil, é uma ferramenta de inclusão social. Há dez anos, milhares de jovens ociosos que poderiam estar inseridos no crime optaram pelo grafite e hoje são artistas reconhecidos, não só nacional, mas internacionalmente. Quando um governo se recusa a entender isso, ele está negando a cultura de um povo.”

Ele também acredita que a revitalização do Beco da Lama mostra o poder da arte em desvelar o melhor que uma cultura local produz: “nos tempos difíceis em que estamos vivendo, com tantos conflitos ideológicos, só a arte é capaz de produzir um espaço de autoafirmação das pessoas e mostrar o potencial que elas carregam.”