Aprender na cidade

Festa junina no Maranhão: bumba-meu-boi e saberes locais passados de geração para geração

No Maranhão, não fumegam as mesmas comidas e não se dançam as mesmas danças juninas que no restante do Brasil. A estrela da celebração é o boi que, colorido e adornado de fitas, nasce, é batizado e morre nas toadas da manifestação cultural bumba-meu-boi. Nas comidas, fulguram os camarões e a vinagreira, arbusto vigoroso típico da culinária local.

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“A partir do dia 14 de junho, dá-se o pontapé da comemoração junina. Em um grande círculo, se misturam o bumba-meu-boi, as quadrilhas estilizadas e as danças que vieram da Europa, para fazer uma festa bem brilhante”, explica Kyannia Girardi, nutricionista e moradora de Arari, cidade a 165 quilômetros da capital maranhense.

No pequeno município rural, conhecido pelas pororocas do Rio Mearim e pela orquestra Boi Bonito de Arari, a festa junina é uma celebração dos saberes passados de geração em geração. Na Estação Conhecimento, centro educativo para crianças e jovens localizado na cidade e também onde Kyannia trabalha, a festa é motivo de aprendizado de saberes locais. Danças e comidas fazem parte do percurso pedagógico das crianças.  

“Reforçarmos com as crianças a importância dos modos de fazer fantasias, tradições, brincadeiras e receitas, para que eles entendam que podem perpetuar isso. Pular fogueira, ver o batizado do Boi, tudo está envolvido em uma coisa maior que é a cultura local”, reforça a nutricionista.

festa junina no maranhão arraial de todos

Arraial São João de Todos, um dos mais típicos de São Luís / Crédito: Governo do Maranhão

Bumba-meu-boi: a celebração maranhense da festa junina

Marcando o solstício de inverno no hemisfério sul, a festa junina é uma tradição de origem pagã e europeia, que se espraiou pelo Brasil sorvendo tradições musicais, culinárias e festivas das comunidades afro-brasileiras e indígenas. Câmara Cascudo explica no livro Dicionário de Folclore Brasileiro:

“São João é festejado com as alegrias transbordantes de um deus amável e dionisíaco, com farta alimentação, músicas, danças, bebidas e uma marcada tendência sexual nas comemorações populares, adivinhações para casamento, banhos coletivos pela madrugada, prognósticos de futuro, anúncio da morte no curso do ano próximo. O santo, segundo a tradição, adormece durante ao dia que lhe é dedicado tão ruidosamente pelo povo, através dos séculos e países. Se ele estiver acordado, vendo o clarão das fogueiras acesas em sua honra, não resistirá ao desejo de descer do céu, para acompanhar a oblação, e o mundo acabará pelo fogo.”

No bumba-meu-boi, manifestação popular brasileira que metamorfoseia de nome a depender de seu estado, o boi é o principal componente cênico e coreográfico. De acordo com o Dossiê Bumba-meu-Boi, há relatos históricos da brincadeira do Boi nas regiões Norte, Nordeste e Sul no começo do século XVIII. 

É Maranhão que nasce a primeira festividade de apreço pelo bovino – sagrado em múltiplas mitologias e mitos de origem em todo mundo: O relato pioneiro é uma nota pequena no jornal Farol Maranhense, em 1829.

O bumba-meu-boi é uma festa articuladora de significados lúdicos e religiosos. Como um dos berços da manifestação cultural, ele já sofreu represálias públicas, sendo por um tempo até reprimido de ser dançado por seus brincantes, mas hoje é festejado popularmente em várias regiões do Estado, com variações musicais e de personagens a depender da localidade.

Em comunidades rurais, como Arari, os preparos das festas envolvem toda à comunidade. “Conseguimos trabalhar as particularidades de cada uma das famílias de nossa comunidade rural, agregando suas contribuições culturais. Realizamos, por exemplo, oficinas mão da massa, trabalhando a culinária típica de Arari”, explica Kyannia. 

orquestra de bumba-meu-boi

Orquestra Boi Bonito de Arari / Crédito: Fábio Pereira e divulgação do Facebook

A culinária maranhense se espraia nas festas juninas

As comidas juninas são importantes saberes dessa manifestação cultural. Enquanto nas regiões sul e sudeste do país são conhecidos quitutes como curau e quentão, nas cidades maranhenses outras comidas figuram nas barracas.

Jailson Mendes, cozinheiro da Estação Conhecimento, aprendeu a cozinhar com seus pais e avós. Hoje, ele leva esses saberes ancestrais na preparação das comidas da Estação, feitas com ingredientes locais. “As receitas eu aprendi com a minha mãe, e com ela desvendei que sabia cozinhar bem. Essa é a cultura do Maranhão: o saber culinário é passado de geração em geração.”

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O camarão é a estrela muitos dos pratos típicos juninos. Crustáceo natural de rios e mares, ele aparece salpicado com gergelim, usado como recheio de torta, no inconfundível vatapá e na comida mais comum das festas juninas: o arroz de cuxá, um misturado de gosto inconfundível, que leva além do camarão uma planta chamada vinagreira, arbusto tradicional maranhense.

Para o cozinheiro, o que faz a diferença na hora em que ele frita a carne rósea do camarão ou adiciona o alho aos pratos é saber a procedência dos alimentos. “Os ingredientes são da nossa terra, o coco, o milho, a vinagreira. Todos vindos de pequenos produtores. Eu tenho orgulho de utilizar os ingredientes, porque é tudo orgânico e saudável, não tem agrotóxico em nada e a vida da gente tá sem risco.”

Outro alimento tradicional das festividades juninas maranhenses é a canjica feita à base de milho. Jailson ensina como ela é preparada, em uma receita também vinda de família:

“A canjica tem vários jeitos de preparar, mas a mais saborosa é aquela que você rala o milho fresco e depois passa no liquidificador. Depois você acrescenta o coco e o leite condensado, para dar mais sabor. Aí faz o primeiro passado: coloca manteiga na panela, deixa ela evaporar todinha, acrescenta o batido do liquidificador, deixar pegar uma fervura e acrescenta o açúcar. Vá mexendo e sempre experimentando, colocando a colher na mão, até chegar em um ponto um pouco de bagaço. Depois coloca e um recipiente, e não esquece de bater um pouco de canela.”

festa junina arroz de cuxá

Arroz de Cuxá / Crédito: Pé na Estrada