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Lélia Gonzales: defensora do feminismo afrolatinoamericano e da universidade acessível

Na edição de 1991 do jornal do Movimento Negro Unificado (MNU), a antropóloga Lélia Gonzales (1935-1994) escreveu sobre a necessidade de uma produção acadêmica alcançável para a população afro-brasileira, principalmente às mulheres negras: 

“Temos que nos voltar para dentro do quilombo e nos organizarmos melhor no sentido de dar um instrumental para esses que vão chegar e vão continuar o nosso trabalho. Veja que isso é muito sério, em termos da nossa comunidade, essa ausência instrumental que lhe possibilite colocar em pé de igualdade com as populações não-negras, que têm acesso extraordinário à informação”. 

Gonzales foi pioneira em olhar para o feminismo sob uma ótica racial. “Ela trazia a necessidade e urgência de um feminismo negro que falasse das pluralidades e questões da mulher brasileira”, explica Luana Tolentino, mestra em educação pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). 

Ainda que seu pensamento seja referência dentro da academia e da militância negra, ela goza de pouco alcance ou publicações que o permitam espraiar para fora desses círculos. Segundo Luana, também autora do artigo Por um Feminismo Plural: escritos de Lélia Gonzales no Jornal Mulherio, isso tem a ver com o processo de invisibilidade negra que a própria antropóloga combateu em sua produção. 

“Ela enfrenta uma questão ainda comum entre os intelectuais negros, que é o silenciamento e a invisibilidade. Seu material, que é espaçado, ainda não foi olhado pela universidade, que é um espaço legitimador do pensamento e do conhecimento. Quando a universidade fecha as portas para indivíduos como a Lélia, a circulação do pensamento e produção teórica encontra uma dificuldade grande de circulação.” 

lélia gonzales em reunião do ipcn

Reunião do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN) / Crédito: Medium Rodadas

 

O feminismo negro e acessível 

Lélia Gonzales nasceu em Belo Horizonte (MG), mas viveu a maior parte da sua vida no Rio Janeiro, onde se formou em História e Filosofia, com mestrado em Comunicação e doutorado em Antropologia. Foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado, dominava o francês e o espanhol e lecionou em faculdades como a PUC-Rio. 

Ser mulher negra e ter passado por grandes percalços para estar na universidade pautou sua temática acadêmica: o feminismo afrolatinoamericano e sua acessibilidade para muito além de muretas conceituais. 

“Ela questionava o fato da matriz dos pilares do feminismo do Brasil serem eurocêntricos, pautados na trajetória de mulheres brancas, se opondo ao silenciamento em relação às especificidades das mulheres negras e latino-americanas”, explica Luana. 

Para fazê-lo, ela olhava o componente racial como determinante no tecido das relações social afrolatinoamericanas. A psicanálise foi uma poderosa ferramenta de estudo da pesquisadora, que delimitou um racismo à brasileira alicerçado na sua própria negação de existência. Ela também olhou com cuidado para os elementos culturais e sociais relacionados à diáspora e ao processo de escravização. 

Outra característica fundamental do trabalho de Lélia, para Luana, foi sua luta pela acessibilidade de linguagem – que encontra paralelo nos trabalhos da norte-americana bell hooks: “Os textos da Lélia não têm essa linguagem que a universidade entende como padrão. Ela não queria se afastar da comunidade negra, e os nossos não estavam na universidade. Era necessário criar uma linguagem e escrita que possibilitasse aos sujeitos conhecer e ter acesso à essa produção.” 

Ela discorria sobre o pretoguês, expressão que explica como os vocábulos e expressões africanas e afro-brasileiras são determinantes na construção do português. 

“Aquilo que chamo de ‘pretoguês’ e que nada mais é do que marca de africanização no português falado no Brasil (…). O caráter tonal e rítmico das línguas africanas trazidas para o Novo Mundo, além da ausência de certas consoantes, como o l ou o r, por exemplo), apontam para um aspecto pouco explorado da influência negra na formação histórico-cultural do continente como um todo”. 

Resgate das obras de Lélia

São duas as obras que Lélia produziu em vida: Lugar de Negro, compilado de textos seus e do sociólogo argentino Carlos Hasenbalg; e também Festas Populares no Brasil, livro sobre cultura afro-brasileira presente em manifestações populares.

Recentemente, a União dos Coletivos Panafricanistas (UCPA) reuniu sua obra no livro Primaveras para as Rosas Negras: Lélia Gonzales em primeira pessoa, com uma tiragem pequena. 

Para Luana ainda é necessário investir na massificação da obra de Gonzales. “Nós estamos com um movimento importante de tradução da Angela Davis, bell hooks, Audre Lorde, Grada Kilomba. E a Lélia não tem tido esse destaque. É como se, apesar de toda contribuição dela, ela ainda estivesse vivendo um processo de marginalização e invisibilidade.” 

Mas ainda, para a pesquisadora, a pouca capilaridade da produção de Gonzales também tem a ver com uma universidade que ainda não universalizou o acesso e nem seu olhar para a produção negra brasileira. 

“Se hoje, com todas as políticas públicas de igualdade, eu enfrento dificuldades enquanto professora universitária, imagina nos anos 1970, como Lélia fazia para circular nesse espaço e ter sua produção teórica reconhecida. Essa dificuldade de circulação é um processo longo, desde o ingresso à permanência, até possibilidade de produzir. Em que momento nós mulheres negras podemos dedicar uma vida ao intelecto?”.