Criar na cidade

10 obras para visibilizar a homossexualidade na literatura

*Publicada originalmente no site de notícias Brasil de Fato com o título De clássicos a novidades, dez obras para visibilizar a homossexualidade na literatura. A autoria é de Luiza Mançano. 

 

Há 50 anos, tinha início a rebelião de Stonewall nos Estados Unidos (EUA). O protesto de 1969 é considerado o estopim das lutas LGBT, acendendo o pavio para a organização do movimento em todo o mundo.

Mais do que um movimento por reconhecimento institucional, a efervescência da mobilização ao final dos anos 1960, junto com outros movimentos, como o de direitos civis da população negra e o movimento feminista, se deu também no campo cultural.

Na literatura, autores e autoras começaram a escrever mais abertamente e visibilizar experiências homossexuais em suas obras. Além disso, uma série de livros proibidos, esquecidos ou que abordavam de forma indireta o tema passaram a ser recuperados.

Para visibilizar esta produção, o Brasil de Fato organizou uma lista de dez livros de literatura contemporânea publicados no país, entre clássicos e lançamentos, que abordam o tema da homossexualidade e da bissexualidade.

Terra estranha, de James Baldwin (1962)

Publicado alguns anos antes da rebelião de Stonewall, o romance do escritor afro-americano James Baldwin, protagonizado pelo personagem Rufus, aborda temas como a bissexualidade e relacionamentos entre pessoas negras e brancas nos EUA. O país, marcado pela segregação racial, vivia um crescente movimento pelos direitos civis da população negra. Foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras no ano passado.

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O beijo da mulher aranha, de Manuel Puig (1976)

A obra de Manuel Puig é considerado um dos primeiros a assumir o tema da homossexualidade na literatura argentina. O escritor argentino é um dos fundadores da Frente de Libertação Homossexual no país e exilou-se antes do início da ditadura por receber ameaças de morte na ocasião do lançamento de seu livro The Buenos Aires affair. Escrito no exílio, no México, O beijo da mulher aranha tem como personagens um preso político, Valentin Arregui, e Luis Molina, um homem gay amante de cinema e acusado de seduzir um menor de idade. Eles dividem uma cela na prisão durante a ditadura. O romance ganhou adaptação cinematográfica dirigida pelo cineasta Hector Babenco, em 1985, quando Puig vivia no Brasil.

livros)LIVRO_8Marcellina, de Cassandra Rios (1977)

A escritora brasileira Cassandra Rios (pseudônimo de Odete Rios) é uma figura ímpar na literatura do país, a primeira a escrever sobre homossexualidade feminina, com muitas obras eróticas publicadas em alta tiragem. Cassandra Rios teve seus livros censurados pela ditadura militar, foi perseguida e ficou conhecida como “a escritora maldita”. Neste seu romance, também censurado e republicado em 1980, a personagem Marcellina é uma prostituta que vive uma relação homoafetiva, mas que possui um discurso conservador, explorando as contradições das normas sociais da sociedade patriarcal.

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Em breve cárcere, de Sylvia Molloy (1981)

O romance da escritora argentina também é reconhecido como um dos primeiros a tratar a obra da homossexualidade na literatura argentina, desta vez, com a perspectiva de uma mulher. No romance, a personagem – apresentada sem um nome – é escritora e tradutora e vive em um quarto onde anteriormente viveu um triângulo amoroso conflituoso com outras mulheres, Vera e Renata. A obra explora temas como a busca de uma identidade, o descobrimento do próprio corpo e a homossexualidade feminina.

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Morangos mofados, Caio Fernando Abreu (1982)

O livro de contos é a quarta obra do escritor Caio Fernando Abreu e foi publicado nos últimos anos da ditadura brasileira. Dividido em três partes, os contos exploram o tema da homoafetividade em um contexto de repressão e silenciamento, mas também de intensificação da contracultura e surgimento dos primeiros grupos de libertação homossexual no país. Em um dos contos, Os sobreviventes, um casal se frustra em sua tentativa de ser heterossexual, e há muitas referências a elementos da cultura homossexual do período, como o Ferro’s bar, conhecido como “Stonewall brasileiro”.

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Argonautas, Maggie Nelson (2015)

A obra autobiográfica da escritora estadunidense Maggie Nelson foi publicada no Brasil em 2017 e tem como centro do relato o relacionamento entre a autora e o artista Harry Dodge. Uma família nada tradicional, composta por duas pessoas nascidas do sexo feminino, uma delas vivenciando um processo de transição de gênero (Harry) e a outra uma gestação. Uma obra sensível e íntima que explora temas como a transformação do corpo, a política conservadora dos EUA, com perseguição a grupos LGBT e as ameaças a direitos e conflitos internos relacionados à experiência queer e à maternidade.

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Amora, de Natalia Borges Polesso (2015)

O livro da escritora brasileira Natalia Borges Polesso, vencedor do Prêmio Jabuti (2016), é composto  por 33 contos que exploram o tema da homossexualidade feminina, com enredos que exploram o descobrimento da sexualidade, rompimentos afetivos, preconceitos e histórias de amor atravessadas por ele, da juventude à velhice. Um dos contos, intitulado Vó, a senhora é lésbica?, foi tema de questões do Enem do ano passado, e a autora foi atacada por setores conservadores. Na contramão do ódio pregado, ganhou uma versão em curta-metragem em 2018.

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Aquele que é digno de ser amado (2017)

Abdellah Taïa, cineasta marroquino, foi o primeiro escritor árabe a assumir sua homossexualidade publicamente. Seu livro Aquele que é digno de ser amado ganhou uma edição brasileira em 2017 pela editora independente Nós. Composto por quatro cartas ficcionais, todas atravessadas pela questão da homossexualidade, o livro aborda também questões como exílio e estrangeiridade, além de tensões entre a mitificada liberdade francesa e a exploração e subjugação dos povos africanos no colonialismo, cujas fraturas aparecem nos relacionamentos do personagem Ahmed.

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Tribadismo: mas não só, Bárbara Esmenia (2018)

O livro de poemas de Bárbara Esmenia foi publicado pela padê editorial, fundada em 2015 pela autora do livro junto a também poeta Tatiana Nascimento e voltada para a publicação artesanal de autoras negras, lésbicas, bissexuais e transsexuais. Os poemas de Tribadismo: mas não só, segundo poemário da autora, versam sobre a lesbianidade pensada para além da ideia de experiência moderna e ocidental, em uma escrita que evoca conceitos e imagens ancestrais para escrever a subversão das mulheres a partir da própria sexualidade como uma proposta política.

 

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3.255 km, de Helena Zelic e Mariana Lazzari

Publicado ao final de maio pela nosotros, editorial, o livro-caderno 3.255 km é uma troca de cartas entre as autoras durante o período em que viveram em países diferentes, Helena no Chile e Mariana no Brasil. Os poemas e fragmentos formam um mapa íntimo de um relacionamento entre mulheres tecido (e escrito) à distância, entre a espera e o encontro, uma celebração do amor lésbico para nossos dias de resistência pessoal e coletiva.

Fragmento do poema aula de poesia

    – a saudade é um imprevisto

que se alarga pelo continente,

poderia dizer

e mostrar tuas fotografias.

sinto falta do calor

mas vejo nas miragens.

o que meio primeiro, a palavra

ou o mundo?

questionaria ao país sem nome

já sabendo sua resposta –. 

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