Criar na cidade

Projeto Amazônia das Palavras leva literatura para escolas e comunidades ribeirinhas

O rio Amazonas, que serpenteia três países e o segundo maior do mundo, é também quintal de muitas comunidades ribeirinhas e escolas públicas brasileiras. Quem perto dele e de seus afluentes vive tem uma relação afetuosa com a água, muitas vezes tirando dela seu sustento e usando-a como meio de transporte entre cidades e outros estados. 

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Em novembro de 2018, um barco zarpou de Manaus (AM) e percorreu sete cidades fluviais até Porto Velho (RO). Era o projeto Amazônia das Palavras, que se repete este ano levando literatura e cultura para escolas ribeirinhas da região amazônica. 

“Essa região tem uma demanda forte por cultura, principalmente as crianças e adolescentes”, explica Fernanda Kopanakis , produtora-executiva da iniciativa. “E para nós do Amazônia das Palavras, a viagem é um caminho de mão dupla. Temos acesso a novos conhecimentos, como a força que a cultura oral tem na região”. 

Durante um mês, as instituições foram inundadas com oficinas de escrita, produção cinematográfica, cultura indígena, além de atividades culturais diversas, como apresentações circenses. 

barco usado no projeto amazônia das palavras

Barco usado no projeto / Crédito: Divulgação Facebook

Dentro das escolas, objetivo é tornar literatura relacionável

Ainda que sejam percorridos à barco os quilômetros que separam as cidades, todas as atividades acontecem dentro da estrutura escolar. “Isso faz com que saiamos da nossa realidade e conheçamos a da escola. Interagimos com os professores e professoras e estabelecemos um diálogo. É também dentro das escolas que fazemos doações dos livros e as atividades com os escritores convidados”. 

A curadoria de livros do primeiro ano tentava não só trazer publicações que dialogassem com a realidade ribeirinha e indígena de muitas escolas, mas também tornar mais relacionável o conteúdo literário, levando os autores das obras para conversar com as crianças. Ano passado, os convidados foram Daniel Mundukuru, autor e militante indígena, e o escritor José Roberto Torero. 

“Em Itacoatiara (AM), por exemplo, os estudantes ficaram encantados em ter acesso ao livro e ao seu autor, o Daniel. Assim se quebra um pouco a comum distância entre o público com os escritores”, recorda Fernanda. Este ano, a curadoria de livros levará também pedidos feitos pelos educadores e pelas próprias crianças. 

daniel munduruku no amazônia das palavras

Daniel Munduruku foi um dos escritores levados pelo projeto / Crédito: divulgação Facebook

Em 2019 o barco parará nas cidades de Manaus, Iacoatiara, Nova Olinda do Norte, Borba, Novo Aripuanã, Manicoré, Humaitá e Porto Velho.

Além da leitura, outra atividade importante é a do exercício da escrita: “embora quase sempre já tenham escrito algo, muito dos alunos se sentem inibidos em dizer que produziram aquilo, porque a maioria das vezes a escola é um lugar formal e fechado em torno dos conteúdos. As oficinas podem ser um momento de desabrochar essa criatividade”. 

As outras atividades também trabalham a partir da realidade local da comunidade ribeirinha: na oficina de sons, por exemplo, o oficineiro levou ruídos que acontecem em ambientes próximos aos rios e também o produzido por objetos usados no cotidiano das comunidades que dependem dele para sobreviver.

Ainda que grande parte do trabalho do Amazônia das Palavras se centre em literatura e na palavra escrita, o contato com a cultura indígena que permeia toda região influenciou decisivamente na escolha pelo trabalho com a oralidade, como conta Fernanda: 

“Tentamos incentivar que as histórias sejam produzidas a partir das histórias de outras gerações, contadas oralmente. Surgem relatos incríveis, como a história do boto, ou o mito indígena de porque a Lua tem manchas. É a importância da cultura oral na tradição indígena que ainda permanece”. 

Criança lendo sua obra para a turma / Crédito: divulgação facebook

Criança lendo sua obra para a turma / Crédito: divulgação Facebook