Criar na cidade

Slam: um manifesto poético liderado pelas juventudes das periferias

*Andressa Basílio, especial para o Portal Aprendiz 

Na tarde do último sábado de julho, o público, ainda tímido, começa a se aglomerar na praça em frente à Casa de Cultura Municipal do Ipiranga – Chico Science, na zona sudeste de São Paulo. A música que toca no alto falante cessa, todos ficam em silêncio. A cantora, compositora e poetisa Cinthya Santos, conhecida como Kimani, pega o microfone:

“O silêncio é uma prece, nos calar é divino. Eu já perdi a conta de quanto veneno santo me deram e eu vou só engolindo, eu sei. Somos revoltados demais aos olhos dos outros. É que estamos cobrando o que fizeram há 400 anos com o nosso povo. E sujeito de fala escarra racismo reverso na nossa cara, mas ninguém reverte a história ou ressuscita corpo de quem morreu na chibata.”

A poesia Deixa eu dizer o que penso dessa vida é uma das tantas de sua autoria que ela tem na ponta da língua e nos gestos expressivos para competir nas batalhas de poesia falada das quais participa desde 2017. Moradora do Grajaú, zona sul de São Paulo, Kimani se consagrou como um dos principais nomes do slam no Brasil.

A torcida, as notas dos jurados, etapas eliminatórias não escondem que o slam é competição acirrada. Mas, para quem participa, ele é também um espaço de empatia, de conexão consigo mesmo e com outros.

“É um processo terapêutico, quase de cura mesmo. Os poetas são muito verdadeiros em relação às suas vivências. Tem gente falando sobre como foi violentada, sobre ter enfrentado a depressão, sobre opressões diárias. A gente cria um vínculo forte entre todos que estão ali”, revela Kimani.

Entenda o Slam

Nessa mistura de jogo, poesia, crítica social e intervenção urbana, os poetas se reúnem em espaços públicos para declamar seus trabalhos. Cada poeta, ou slammer, tem 3 minutos para se apresentar e, no máximo, 10 segundos extras de tolerância. Não é permitido o uso de objetos cênicos ou música. Só voz, microfone e performance.

Os jurados, escolhidos aleatoriamente na plateia, dão notas de 0 a 10. A cada rodada se classificam os poetas com maior nota até um deles sagrar-se campeão. Dos slams regionais saem competidores para os campeonatos estaduais. Os vencedores disputam o Slam BR, que normalmente acontece no final do ano. O finalista representa o Brasil na Copa do Mundo de Slam, disputada em Paris, na França.

Apesar dos textos literários abordarem assuntos diversos, a maioria deles é centrada em militância política, mazelas sociais, questões de gênero e raça. A poeta e escritora Aline Anaya começou a mostrar suas composições em saraus, como acontece com grande parte dos competidores. “Como eu sou uma mulher preta, lésbica e moradora da periferia, eu percebo esse espaço como uma maneira de me colocar, de ter voz.”

Criado na década de 80 nos Estados Unidos, na rabeira da popularização do hip hop, o slam chegou por aqui só nos anos 2000, trazido pela atriz e MC Roberta Estrela D’Alva. Em pouco tempo, essa literatura viva e visceral foi se popularizando e hoje são mais de 150 grupos organizados, em 18 estados brasileiros.

“O slam é a democratização da palavra. Toda e qualquer pessoa pode ser protagonista, disputar com igualdade, o que é muito sedutor. É também a prática da escuta, na qual se abre uma fresta no tempo para as pessoas se conectarem, se olharem nos olhos e partilharem o que vivem”, define a jornalista e mestre em comunicação Jéssica Balbino, pesquisadora de literatura marginal e hip hop.

Ela lembra, no entanto, que a popularização do slam não é diferente do que aconteceu com outros movimentos, como os saraus, que também envolvem poesia, fala e escuta, e o rap.

“No Nordeste nunca deixamos de ter trovadores, prosadores e repentistas, tudo muito próximo ao que o público vive hoje com os slams. Eu penso que mais do que uma redescoberta da poesia, estamos vivendo uma novidade no formato do fazer poético.”

Quando a arte ocupa a rua

As juventudes das periferias compõem a maior parte do público que participa dos slams. O motivo está ligado a uma particularidade da competição no Brasil: a ocupação dos espaços públicos. Enquanto os slams internacionais acontecem em teatros ou bares, por aqui as batalhas se desenrolam em praças, parques, ruas sem saída e até embaixo de viadutos.

São Paulo é considerada a capital nacional do slam, com mais de 60 grupos. O Slam da Guilhermina, na zona leste da capital, foi o primeiro a realizar as batalhas ao ar livre e acabou influenciando outros grupos pelo país. Desde 2012, toda última sexta-feira do mês, mais de 300 pessoas se reúnem na praça ao lado da estação de metrô Guilhermina-Esperança para ouvir os poetas.

“Num slam de rua você não precisa de uma grande infraestrutura. São basicamente pessoas reunidas num lugar acessível e gratuito”, define o idealizador do Slam da Guilhermina, Emerson Alcalde. “Isso democratiza o acesso à literatura e à poesia. Muita gente que está de passagem, não vai ao teatro ou a espaços que promovem atividades culturais, pelo preço ou pela dificuldade de acesso. Já o espaço público é de todos.”

Slam da Guilhermina, em São Paulo

O Slam da Guilhermina, na zona leste da capital, foi o primeiro a realizar as batalhas ao ar livre.

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No documentário Pelas Margens – Vozes Femininas na Literatura Marginal, a poeta e slammer, Luiza Romão, associa o movimento aos primórdios do teatro, que começou como uma arte feita em espaços públicos. “O sarau e o slam tem um pouco esse caráter, é o exercício máximo da cidadania. Acho que esse movimento de literatura marginal periférica que estamos construindo traz de novo o âmbito público para a arte. A poesia não se dá só em casa, no quarto, no seu caderno. Ela se dá no encontro, na troca, na atualização de temas que estão acontecendo”, relata.

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Unir vozes que entoam gritos de luta, desabafo e crítica social em praça pública é também ato político. É o que defende Del Chaves, idealizador do Slam Resistência, que acontece toda primeira segunda-feira do mês na Praça Roosevelt, na região central de São Paulo.

“São Paulo tem o maior índice de perturbação mental do planeta. A Roosevelt é um chacra urbano da cidade, na gema da cena da toxic city. Ficar aqui não é só uma escolha estratégica, mas de enfrentamento político. Sem contar que a praça tem um histórico de lutas sociais”, explica o poeta e slammaster (nome dado ao apresentador das batalhas de Slam).

A revolução pela palavra

Resistência. Alívio. Acolhimento. Protesto. Ancestralidade. Autoconhecimento. A escrita, a literatura marginal e a poesia falada trazem um pouco de tudo isso e ajudam a formar a identidade de quem se envolve com elas. “Eu escrevo há um bom tempo, mas faz pouco que eu entendi a importância dessa escrita como a minha forma de me colocar no mundo, minha forma de existência”, afirma a slammer Vic Sales, de 27 anos.

“Eu comecei a escrever poesia no ano passado. Eu acho que a gente pensa demais. A poesia é o pensar, mas também é o subconsciente tirando isso pra fora de uma forma mais bonita”, diz Anderson Pereira, de 21 anos. Morador do Grajaú, é frequentador assíduo de saraus e slams, mas ainda não teve coragem para declamar com o microfone na mão. “Por enquanto só escuto, e isso me fortalece.”

Espaços democráticos de fala, escuta, protagonismo, troca e afeto. Competição acirrada que envolve corpo, voz, performance. Liberdade de expressão. Adrenalina. Superação pessoal. Esses são alguns dos motivos que ajudam a explicar o encanto das juventudes pelo slam.

“Além disso, os poetas, também jovens, trazem temas da atualidade, que estão bombando nas redes sociais. Isso traz conexão”, defende Alcaldi, que também é responsável pelo Slam Interescolar, do qual participam estudantes do fundamental II e ensino médio de escolas públicas e particulares do estado de São Paulo.

Inspirado pelo o que viu na França quando representou o Brasil na Copa do Mundo de Slam, em 2014, Alcaldi organizou o primeiro Interescolar em 2015, com a participação de quatro escoas da zona leste.  Em 2018, participaram 50 escolas do estado. Esse ano, 80 instituições vão batalhar nos dias 13 e 14 de novembro.

Em tempos em que educação e cultura estão na mira de grupos conservadores, o slam vai se levantando como um espaço democrático de educação não convencional, como defende a atriz, diretora, slammaster e percussora do movimento no Brasil, Roberta Estrela D’Alva.

“Mas eu acho também que ele cresce porque, em tempos de Whatsapp e Intagram, as pessoas começam a ter a necessidade de estarem juntas, ali de corpo presente. O slam é revolucionário por isso, porque as pessoas se veem, se unem e celebram a poesia.”