Criar na cidade

Podcast de mulheres negras discute o desembranquecimento das cidades

*Artigo publicado originalmente no site Archdaily com o título Des-embranquecendo a cidade. A autoria é do coletivo Terra Preta. 

Podcast “Des-embranquecendo a Cidade” é um lugar inventado a partir do desejo de cinco mulheres negras, residentes em Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, de burlar o distanciamento geográfico, para promover e celebrar o encontro. Emmily Leandro, Gabriela Gaia, Luciana Mayrink, Malu de Barros e Natalia Alves, são a coletiva Terra Preta, que dá forma e voz à esse exercício de criação de um território virtual, partilhado — que é tanto uma aposta política quanto estética -, tornado público agora, pela primeira vez.

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Mobilizaremos nos episódios que se seguirão, nossos distintos trânsitos, acúmulos e bagagens, atravessadas por vivências, histórias, memórias, afetos, atuações profissionais e militantes, para pensar e falar sobre as cidades, as vidas contidas nelas e também seus transbordamentos. Nos interessa a interlocução como gesto gerador, capaz de tecer cartografias feministas afro-diaspóricas, que articulam “raiz e errância” (em referência a Edmilson de Almeida Pereira) e que vazam em palavra com cheiro-força de terra e mar, como bem associa a escritora Cristiane Sobral em seu poema intitulado “águas”.

Porque “des-embranquecer a cidade” significa re-povoá-la com um tanto de coisa que foi sequestrada dela, como se não fosse digno, relevante, próprio ou real.

A cidade é discursiva e politicamente construída por determinados setores, agentes e sujeitos como uma ficção pequena, pobre e incompleta, quando aparta, minimiza, subjuga e demoniza, aquilo que, ao contrário, lhe permite e assegura que a vida não se acabe. Não abriremos mão de reverenciar, reconhecer e carregar os aprendizados de nossas mais velhas, assim como não nos furtaremos de vislumbrar e ousar futuros maiores. Reconhecemos nossa natureza oceânica e infinita, quando nos encontramos em mulheres como Beatriz Nascimento. Carregamos um corpo-mapa de países longínquos e nos refazemos em cada pedaço de terra que vimos renascer em tantos cantos de formas improváveis.

Não podemos reivindicar menos do que a cidade enquanto território de direito ancestral, a qual leremos a partir de perspectivas, políticas e cosmologias que façam sentido, não aquelas impostas ou violentamente naturalizadas ao longo do tempo. Ganharemos todas com isso. Nesse primeiro texto, apresentamos três questões que configuram o cruzamento que constitui esse território e estão nos mobilizando.

O primeiro deles, diz respeito à escrita partilhada, que antecede essa performance sonora. Temos entendido o exercício coletivo da escrita como um modo de produzir espaço, diminuir distâncias, criar conexões. Que só faz sentido existir se coletivo. Gloria Anzaldua, escritora estadunidense de origem mexicana, escreveu que na companhia de outras mulheres, “a solidão do escrever e a sensação de falta de poder dissipam-se”. Que esse movimento coletivo de mulheres, ainda que escrevesse individualmente, fazia sua escrita saltar para um lugar sem tempo e espaço.

“Onde esqueço de mim e sinto ser o universo. Isto é o poder”, escreveu Gloria.

Quando reafirmamos essa escrita como coletiva dizemos ao mundo que não estamos sós. Escrevemos a várias mãos. Buscamos inspiração nas mulheres incríveis que de alguma forma tem atravessado nossos caminhos. Mulheres da família, amigas, militantes guerreiras, intelectuais da academia, literatas, musicistas, artistas em geral, curandeiras e tantas quantas fizer sentido interagir para criar nossos territórios. Encaramos o texto como abrigo e lugar de encontro. Da mesma forma encaramos a cidade. E essa amplitude de presenças, de relações e coexistência, é própria dela.

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