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Mestres de Cultura do Ceará espalham seus saberes para escolas e universidades

Barra do dia/Ave do luar/Eu vou subir a serra pra te tirar, maracujá”, entoam as gargantas do Grupo de Mulheres do Coco da Batateira. Sempre coloridas, as mulheres cavalheiras de camisa e calça, as damas de vestidos estampados, as mestras de cultura sexagenárias dançam em roda com três passos para um lado, três para o outro. 

“É difícil eu explicar o Coco. Tem tanto tipo. Tem que ver para entender. Mas é linda demais a brincadeira. A gente pega no braço da outra, como se fosse em outro tempo, e começa a cirandar”, relata Dona Edite do Coco, mestra de organização do grupo que se formou em Crato, interior do Ceará. Ela é uma entre os 80 mestres, mestras e coletivos agraciados com o título de Tesouros Vivos da Cultura Tradicional Popular

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O reconhecimento teve início em 2003, com a criação da Lei 13.351 que passou a registrar os guardiões de saberes como Mestres de Cultura Popular. Em 2006, a lei se ampliou, deixando de contemplar apenas os mestres para estender o título de Tesouro Vivo para grupos e coletivos.

“Mestres ou mestras são as entidades individuais como o do reisado, da capoeira, da xilogravura ou de outras expressões culturais. Já os coletivos são grupos como os de maracatu ou associações de artesãos”, diferencia Alênio Carlos Noronha Alencar, coordenador de patrimônio cultura e memória da Secretaria Estadual de Cultura do Ceará (Secult). 

Os 80 Tesouros Vivos – abre-se um edital quando um deles falece – recebem do estado um salário vitalício para dar continuidade às suas tradições e práticas, além da facilitação para participação em festivais e editais. É um dos primeiros programas a reconhecer e apoiar permanentemente os guardiões da cultura popular locais. 

“Como cidadãos, somos guardiões da herança cultura dos nossos antepassados, e os mestres de cultura representam essa tradição. A lei dos tesouros é uma proteção criada na concepção do estado que protege e valoriza esses guardiões. O estado apoia diretamente os mestres para que eles receberam seu salário e continuem transmitindo esse saber/fazer, principalmente no sertão, onde muitas dessas culturas são fortes”, explica o coordenador. 

close do rosto da dona EDdite

Dona Edite do Coco / Crédito: Felipe Scapino, do vídeo Caminhos do Coco

Escola com os Mestres e o espraiamento dos saberes locais

Muito se especula sobre o berço do Coco e, ainda que ele tenha algumas origens e se ramifique para vários estilos a depender da região, as Rodas de Coco têm em comum a mescla de culturas afro-brasileiras e indígenas, a percussão marcada e a batida forte dos pés no chão.

O grupo de Dona Edite é um dos mais tradicionais do interior do Ceará. Embora hoje seja nacionalmente reconhecido, a mestra de 78 anos recorda que nem sempre o grupo teve aprovação local: 

“Sofremos muito no começo. As pessoas discriminavam e chamavam a gente de doida, de velhas viçosas, porque a gente ia no meio da rua brincar. Mas a gente não ligava. Era uma cultura nova, não tinha em lugar nenhum, então era ignorância mesmo, de quem não tem coragem de fazer as coisas e não valoriza quem faz. Hoje é diferente. Todo mundo conhece as mulheres do Coco e a gente é convidada para todos os eventos da nossa cidade.” 

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Os saberes que Dona Edite guarda na batida dos pés espraiam-se para além dos territórios e das festas, chegando nas escolas e universidades. É caso do projeto Escola com os Mestres, parceria entre as Secretarias de Cultura e Educação do Estado do Ceará, e de programas como o Artista, Presente!, voltado à formação artística e à vivência e produção cultural no cotidiano das escolas, e que tem por objetivo aproximar artistas de diversas linguagens e campos de criação do ambiente escolar da rede estadual de ensino, impulsionando outros modos de experimentar, conhecer e produzir em artes.

Para que possam transitar  sem dificuldades burocráticas nas universidades e escolas de tempo integral, a Secretaria de Cultura firmou uma parceria coma Universidade Estadual do Ceará (UECE), em 2006. Desde então, os mestres e mestras recebem o título de Notório Saber em Cultura Popular, equivalente ao doutorado.

Por exemplo, se uma escola quiser um curso de xilogravura, ela pode escolher aprender com mestres como João Pedro de Juazeiro, que pode lecionar práticas de entalhe passados de geração em geração. 

As universidades federais também estão incorporando esses saberes em suas práticas acadêmicas, a partir das aulas que os mestres e mestras ministram. 

Na Universidade do Cariri, o curso de design tem aulas com Espedito Celeiro, um dos mestres no entalhe e trabalho com couro. 

“A universidade passa a olhar o saber tradicional popular como um elemento de valorização da formação cidadã. Mestres que não tinham possibilidade de fazer graduação foram reconhecidos pela própria universidade, e seus saberes vistos como únicos. É por isso que eles são chamados tesouros vivos”, conclui Alênio. 

espedito celeiro envolto em todas as suas posses

Espedito Celeiro é um mestre na arte de talhar couro / Crédito: Duocasa