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Feira do Livro de São Luís (FeliS) exalta cultura e literatura maranhense

Um sol vespertino iluminava o saguão do centro de eventos que comporta durante uma semana a 13ª Feira do Livro de São Luís (FeliS), no Maranhão. Os raios incidiam sobre o vestido brocado da jovem que se apresentava para uma plateia de crianças atentas. A escritora Maria Firmina dos Reis contava sua trajetória como a autora do primeiro romance brasileiro.

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Essa apresentação teatral, que reunia atores representando cânones da literatura maranhense, era uma das tantas ofertadas pela FeliS, feira realizada pela Prefeitura de São Luís, com apoio do SESC e da Vale. Dos dias 11 a 20 de outubro, estandes de livros, apresentações culturais e debates constroem pontes entre livros e diversos tipos de leitores.

“A FeliS valoriza os escritores e escritoras do Maranhão, principalmente os voltados para literatura infanto-juvenil”, relata Leury Monteiro, coordenadora de programação artística. É visível nos corredores a presença maciça de crianças e jovens, muito oriundos de escolas públicas.

“O trabalho de divulgação dessas obras apresenta para muitos educadores e estudantes os autores locais, com quem se pode ter contato direto.”

A feira também se estende para outros pontos da capital maranhense: o projeto Proseando na FeliS é um programa de extensão que leva atrações artísticas e educativas relacionadas a literatura para escolas da rede municipal de ensino. Já o Extensão FeliS, leva a contação de histórias, teatro e performance para equipamentos como centros comunitários, hospitais e asilos.

“Quando as escolas públicas veem a feira pela primeira vez, a maioria da referência delas é a do livro na biblioteca. Quando elas passeiam na feliS, ela veem que o livro é maior. Que o mundo pode estar no livro. O quanto isso é construtivo para o imaginário infantil?”, questiona Leury.

Atividades artísticas aconteciam nos espaços da FeliS / Crédito: Cecília Garcia

Atividades artísticas aconteciam nos espaços da FeliS / Crédito: Cecília Garcia

A capital do livro

Terra de ilhas, manguezais e profunda cultura popular, o Maranhão é também berço de autores emblemáticos da literatura brasileira: Aluísio Azevedo, pai do Naturalismo e homenageado desta edição da FeliS; Graça Aranha e sua defesa do meio ambiente em uma época em que pouco se falava sobre o tema; e também do poeta e etnógrafo Gonçalves Dias.

“Os autores maranhenses deram início a grandes movimentos da literatura brasileira, como o Romantismo e o Naturalismo. Eles foram importantes em sua época e até hoje são estudados. É preciso resgatar a história desses mestres”, relatou Janete Rodrigues Vasconcelos, professora do Instituto Federal de Maranhão, que coordena o Projeto Conexão História: Contos e Encantos de São Luís que valoriza o patrimônio cultural maranhense com encenação de atores.

Embora de inegável importância no cenário literário, só recentemente se começou o aprofundamento na obra de Maria Firmina dos Reis. Nascida em São Luís, mas tendo passado quase toda vida em Guimarães (MA), é autora do primeiro romance afro-brasileiro: “Úrsula” (1859), um retrato das relações raciais e urbanas do estado um pouco antes da abolição.

escritores e escritoras maranhense

Atrizes e atores do projeto Conexão História; Maria Firmina dos Reis é a de vestido lilás / Crédito: Cecília Garcia

“Ela foi precursora da literatura maranhense e pela causa abolicionista; suas obras falam sobre a estética da época onde viveu, a cultura da sociedade maranhense antiga e como ela reverbera até hoje. É bacana que quem conte essa história seja uma mulher negra”, afirmou Ana Carolina Uta, atriz que vive a autora homônima no projeto Conexão História.

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Para Leury, embora fundamental, o reconhecimento que o Brasil tem com relação às obras maranhenses  também é tardio, e diz do quanto se demora para que autores nordestinos sejam lidos em outros espaços que não os de suas regiões.

“A Firmina é uma referência de outro século, precisa passar 100 anos para que o trabalho de uma autora negra e nordestina seja reconhecido? A mesma coisa o Aluízio Azevedo. Todo ano cai no vestibular, mas tem muita gente que não sabe de onde ele veio. Não fica essa referência maranhense para o mundo.”

O trabalho à promoção do livro maranhense

É justamente para que os jovens –público majoritário que enche os estandes da feira com risadas e cores múltiplas de seus uniformes – que Rosa Maria Ferreira Lima, mais conhecida como Rosinha, criou a livraria Saci-Pererê, que “trabalha pela literatura de qualidade para crianças, jovens e adultos”, segundo a bibliotecária.

Como uma tenda empilhada de livros maranhenses, a conhecida livreira mostrou ao Portal Aprendiz livros como uma versão HQ do Mulato, do Aluísio Azevedo, e também obras de autores contemporâneos como Walter Marques  e Camila Reis, que desenvolvem livros sobre a cultura popular para crianças.

hq com história de aluísio azevedo

HQ com história de Aluísio Azevedo / Crédito: Cecília Garcia

“São Luís é chamada de Atenas brasileira por causa de grandes escritores como Gonçalves Dias. São escritores que influenciaram a geração de autores contemporâneos. Hoje, a gente tem diversificadas formas poéticas, crônicas e também literatura de cordel”, contou Rosinha.

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Tendo ficado à frente da Biblioteca Pública Benedito Leite por 15 anos e participante ativa da articulação do Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca, Rosinha acredita que, embora haja uma valorização dos escritores locais, ainda é um desafio fazer ponte com o público:

“Faz muito tempo que não se constrói uma biblioteca pública no município. A maioria das escolas também não contam com bibliotecas, e nem bibliotecários. O acesso ao livro tem ações isoladas e quem perde é o aluno e a população”, enfatiza.