Aprender na cidade

A importância da literatura na Educação de Jovens e Adultos (EJA)

Rafael* não se achava capaz de escrever. Participante das aulas da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Unidade de Educação Básica (UeB) Maria José Vaz do Santos, em São Luís (MA), o padeiro sempre hesitava antes de colocar a caneta no papel, pensando não ter nada interessante para contar. A educadora Conceição de Maria Fernandes insistia: “Você é padeiro. Por que não começamos com você contando como se faz o pão?.”

A cada aula que se encontravam, Conceição ajudava Rafael a escrever sobre seu ofício. Como era feito o pão, de que maneira era amassado, quanto fermento ia, como dourá-lo na bocarra quente do forno.  Depois, Conceição guardava os textos, até eles somarem um montante. Rafael surpreendeu-se um dia com a sua própria produção: ele sabia sim escrever e até montar um livro.

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A história da maioria dos alunos da EJA na capital maranhenses é parecida com a de Rafael e, ainda sim, muito diferente. São salas heterogêneas e multisseriadas, com homens e mulheres, jovens e idosos dividindo um espaço comum, porém com trajetórias completamente distintas de aprendizados para muito além da alfabetização.

“Temos adultos e idosos com dificuldade de chegar na escola porque a maioria trabalha e passa um dia intenso e cansativo. Tem alguns com problemas de vista, não enxergam a lousa. Tem alunas que os maridos não deixam estudar e vem escondidas. São dificuldades muito particulares, para além das que a escola pública já tem”, explica Conceição, que há 12 anos trabalha com esse público.

O acesso à literatura como direito, hábito e prazer parece distante para maioria dos estudantes que muitas vezes, pela primeira vez na vida, tem durante a EJA contato com um livro. Conceição afirma que, antes da literatura, é  preciso resgatar a autoestima destas mulheres e homens; fazê-los perceber que escrever e ler é uma possibilidade.

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“Fortalecer a autoestima é o primeiro passo. Quando você leva atividade, ou quando leva um livro, eles dizem ‘ah, não sei, não consigo, que livro grosso!’. É com muita paciência que se conduz as aulas, começando a partir do que eles desejam fazer. Isso é decisivo para o processos de aprendizagem.”

Literatura na alfabetização: construção de afetividade entre o leitor adulto e o livro

O projeto EJA: Literatura na Alfabetização, parceria entre a Fundação Vale, Secretaria de Educação Municipal de São Luís e Ação Educativa, aproxima jovens e adultos da literatura. Criada em 2015, a iniciativa olha para a leitura literária como método de alfabetização, contemplando gênero e raça por conta do perfil dos estudantes do município: em sua grande maioria, mulheres negras.

É a partir da própria realidade dos alunos – num processo caudaloso e gentil com as particularidades de cada um nos moldes de Paulo Freire – que educadores trabalham a participação do livro com os novos leitores.

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“A leitura tem que partir da realidade do aluno, e não o contrário. Tem que fazer sentido com quem está vivendo-a. Tem uma aluna que é descendente de indígena. Ano passado, na Feira do Livro de São Luís (FeliS), ela encontrou com o livro do escritor maranhense Wilson Marques sobre lendas indígenas. Ela se identificou, porque tinha algo que conectava, algo que dava orgulho.”

Além da leitura regular dos livros, o projeto também desenvolve com os estudantes redações a partir do gênero textual que eles estão estudando no momento: já houve oficinas de literatura de cordel, poesia, contos e crônica. Conceição divide o texto de um aluno que se chama José, feito durante o projeto:

“José ou João. Meu Nome é José João. Gosto de trabalhar. Sou muito brincalhão. Prezo minha família, amo meus filhos. Não gosto que me desobedeçam, aí a conversa é séria.  Não gosto de ladrão, muito menos de mentira. E quem houve música alta também me incomoda bastante. Assim sou eu. José ou João”.

Literatura com sentido para o jovem leitor

Viajando por todo o Brasil divulgando seu trabalho com poesia e literatura, o escritor Sacolinha tem uma longa trajetória com a introdução da literatura para pessoas que só tardiamente tiveram contato com ela. Ele próprio só começou a gostar de ler aos 18 anos, folheando livros da Coleção Vaga-lume na pausa das corridas que fazia nas lotações entre Suzano e São Paulo.

Sacolinha, Conceição e outros convidados estiveram juntos na Mesa ‘Literatura no EJA (Para Educadores, Jovens e Adultos)’, que aconteceu na 13ª Feira Literária de São Luís (MA)

Para o autor de Germinado na Marginalidade (2013), que trabalha com a juventude em espaços de periferia e também com adultos em espaços prisionais, qualquer processo de apresentação entre um grupo de jovens e a literatura – que em geral foi introduzida como obrigação, e nunca como prazer – tem que partir com o encanto com algo do cotidiano.

“Tem que jogar com o que o jovem tem e com o que ele gosta. Machado de Assis é incrível, Aluísio Azevedo também. Mas tem o momento para eles, e não vai ser no primeiro contato. A primeira aula com a molecada vai ser com rap, mostrando que rap é poesia. Eles ficam encantados, sempre acharam que poesia era algo chato da escola. Depois disso a molecada começa a ler Sacolinha, Sérgio Vaz, até chegar nos grandes, como Carolina Maria de Jesus e Dostoievski.”