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“Letramento racial é um ato anticolonialista”, explicam Diva Guimarães e Diane Sousa

O primeiro livro que a educadora Diva Guimarães amou quando jovem foi sobre a vida de Lampião. A paranaense se embrenhava por horas nas matas da Serra Morena (PR) para folhear a história do bandoleiro nordestino. Ainda pequena, mas com a imaginação e coragem que a acompanhariam até seus octogenários anos, Diva dizia para si mesma: “Vou para o Nordeste, vou entrar no bando do Lampião.” Não à toa que seu segundo livro querido foi sobre a igualmente aguerrida Joana D’Arc. 

Já Diane Pereira Souza, advogada, mestranda em Direitos Humanos, Interculturalidade e Desenvolvimento e gerente de projetos do Instituto Formação, teve um diferente primeiro contato com a literatura: ela veio sem a forma do livro, mas na cadência das palavras de sua avó, responsável pela sua criação. “Construí minha visão de mundo na oralidade. Me eduquei a partir das histórias que a minha avó contava, das coisas que ela fazia, dos partos que conduzia, dos remédios que preparava.”

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O livro e a palavra foram formas igualmente valorosas de contato com o mundo e com a educação na vida das duas mulheres negras. Embora separadas geracionalmente, tanto Diane quanto Diva acreditam na premissa de que a literatura, seja oral ou escrita, é “um ato anticolonial e que coloca o poder vigente em crise.” 

O encontro de gerações aconteceu na 13ª edição da Feira Literária de São Luís (FeliS), no Maranhão. Cercadas por uma plateia múltipla, as duas conversaram sobre letramento racial e a importância para população negra de que as referências nos espaços de educação construam narrativas afirmativas e não somente baseadas em dor ou exclusão. 

Diva Guimarães / Crédito: Giorgia Prates

Diva Guimarães / Crédito: Giorgia Prates

Letramento racial 

No artigo Letramento Racial: Um Desafio para Todos Nós, a socióloga Neide A. de Almeida discorre sobre como todo letramento é político e construtor de sentidos. Para combater o racismo, os sistemas de ensino e de formação devem inserir dentro de seus currículos e práticas antirracistas

O letramento é o resultado da ação de ler e escrever, entendendo a linguagem como prática social. Desta forma, os sujeitos apropriam-se da escrita, criticamente, com a finalidade de interagirem e agirem nos diversos contextos sociais.

“Letramento racial é construção de referência para a vida. O que eu conheço como mundo, minha visão é construída a partir da referências que eu tenho quando eu decido entrar no educar. E nós negros raramente temos referências de boas práticas ou outras possibilidades que nos inspirem.  Nos livros, nas novelas, músicas, o corpo negro é posto como nascido para ocupar determinado espaço subalterno”, explica Diane.

Criar outras narrativas é possibilitar que a história do Brasil – de sua construção social – seja contada por protagonistas diferentes: “Você pode contar a história da Pedro Álvares Cabral, mas precisa contar a história de quem vivia aqui antes. Pode falar sobre a Inconfidência Mineira, mas precisa falar da Balaiada, do Quilombo dos Palmares, das revoltas populares do Maranhão”, aponta a advogada. “O conhecimento que existe é poder, e ele precisa entrar em crise.” 

Foi o que aconteceu durante a Feira Literária de Paraty (FLIP), em 2017, quando Diva Guimarães ganhou notoriedade discursando sobre sua trajetória de vida. A educadora de 80 anos passou por episódios de violência e racismo. Mas sua história não se resume à isso: ex-desportista premiada e educadora, Diva tem orgulho de contar a história de sua mãe, que dividiu com ela a paixão pela educação: 

Diane indicou alguns livros que podem fazer parte de um currículo de letramento racial:

Memórias da Plantação, da portuguesa filha de angolanos Grada Kilomba;
Racismo Recreativo, de Adilson Moreira
Escritos de uma vida, de Suely Carneiro. 

“Minha mãe era uma pessoa fora do tempo. Quando criança, ela se alfabetizou escondida, aprendendo com uma professora enquanto trabalhava entregando leite. Mesmo apanhando, ela continuou estudando sozinha e fazendo coisas que a mulheres não era permitido fazer. Aprendeu a costurar, a atirar, andar de cavalo. Era muito gentil com as prostitutas, e na nossa casa, podia entrar quem quisesse.”

Para Diane, histórias como as de Diva precisam ser documentadas e inseridas nos espaços pedagógicos, porque são elas que formam uma malha de narrativas afirmativas para crianças e jovens negros. 

“Eu podia ter conhecido a história da sua mãe, e outras crianças podem conhecer a sua para refazer suas tristezas. É preciso ter acesso às histórias e os caminhos que foram traçados. A relação de afeto entre as referências negras moldam quem nós somos.” 

Diva concordou, adicionando: “Temos que resistir sempre, e essa resistência é saber quem nós somos, de onde viemos, para construirmos o caminho para onde vamos enquanto povo negro. Não podemos esquecer nossa raízes”.

a formadora e advogada Diane Pereira Sousa

Diane Pereira Sousa / Crédito: Augusto Pessoa

Letramento racial também é oralidade 

Se há algo que tanto a experiência de Diane quanto a Diva ensinaram é que a oralidade – rastro das ancestralidades indígenas e afro-brasileiras – também é importante no processo de letramento racial. E uma ferramenta especialmente poderosa se for considerado o quanto os livros ainda são inacessíveis para grande parte da população brasileira. 

“Quando eu penso num livro de R$80 reais, penso para quem é esse livro. As histórias de vida como as da Diva tem que ser parte do conteúdo educativo, justamente por não estarem nos livros. O livro forma, mas não pode ser só ele. As vivências cotidianas regimentam o entender. O corpo produz conteúdo oral e é preciso entender o letramento como toda e qualquer ação que contribua para que a história não contada seja contada.” 

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A construção de uma consciência racial passa, para a advogada, pela acessibilidade do conhecimento. Ela acredita que as bibliotecas comunitárias possuem um papel crucial quando olham para a raça dentro de seu sistema organizacional de livros e contação de histórias.

“Existem várias etapas para que você chegue a uma discussão sobre letramento racial. Primeiro, é preciso democratizar o acesso à leitura. Depois, valorizar as histórias orais, não como alternativa, mas como algo igualmente importante. As bibliotecas comunitárias da cidade são uma excelente iniciativa para isso.” 

Bibliotecas comunitárias podem se converter em espaços de letramento racial / Crédito: Biblioo

Bibliotecas comunitárias podem se converter em espaços de letramento racial / Crédito: Biblioo