Aprender na cidade

Com ciência e tecnologia, jovens desejam mudar a realidade brasileira

Quem ocupava a maioria das baias da Mostratec 2019 eram jovens com aspiração de trabalhar com ciência e tecnologia no futuro. Representantes de 26 estados levaram projetos que iam de larvas comedoras de plástico, produção de café a partir do açaí até aplicativos de realidade aumentada para auxiliar crianças com déficit de atenção.  

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Pesquisar, formular e testar hipóteses faz parte da rotina desses jovens cientistas, resilientes em um ano de duros ataques aos investimentos em ciência no Brasil e descrédito a especialistas ou fenômenos já comprovados cientificamente, como as mudanças climáticas.

Cristievilin Marques Marinho, que pesquisa como fazer os antibióticos mais resistentes à bactérias, opinou:

 “Os antibióticos atuais só passaram a existir porque se parou de investir em novos antibióticos, e com os obsoletos, as bactérias se tornaram mais resistentes. Se o investimento na ciência para, tudo para, até uma hora que a gente simplesmente não vai produzir mais conhecimento.” 

Estivemos na Mostratec 2019 e listamos alguns dos trabalhos dos jovens cientistas brasileiros que estiveram por lá.

Café de açaí e o olhar para as especificidades do território 

Em Parauapebas (PA), as roças próximas à EMEF Jorge Amado são cheias de pé de fruta, entre elas o açaí. Dessa árvore frondosa, de onde descem frutos roxos, Dona Perina começou a produzir um açaí moído para substituir o café. 

Esse híbrido, com cheiro de grãos torrados e sabor de açaí, fez a estudante Gabriela Cruz dos Santos ter a ideia de investigar a composição do produto e como ele pode ser usado para beneficiar a comunidade.

“Ele é muito saudável. Contém vários tipos de vitaminas. Queremos popularizar esse café para que ele seja conhecido em rede nacional, mas também para ajudar as pessoas que produzem o açaí e para que essa produção não vá para o lugar errado.” 

jovem investiga o café de açaí

Gabriela Cruz dos Santos investiga as propriedade do café de açaí / Crédito: Cecília Garcia

Larvas utilizadas para decompor o plástico

Em um pote, larvas esbranquiçadas terminavam de comer os resquícios do que um dia foi uma sacola de plástico. O experimento das jovens Melissa Oliveira Maciel e Nicoli Lima de Avila, partiu de uma reportagem onde descobriram que a larva que habita o favo de mel pode ser uma aliada importante na degradação do plástico.

“Colocamos as larvas em uma situação de estresse ambiental, onde a única fonte de alimento era uma sacola plástica. Mesmo com esse alimento, elas se desenvolveram, fizeram casulo e se transformaram em mariposa. Elas comeram 50% da sacola em seis dias”, afirma Melissa. As jovens esperam no próximo ano da escola conseguir testar com outros tipos de plástico. 

jovens estudam larva que come plástico

Estudantes Melissa Oliveira Maciel e Nicoli Lima de Avila estudam larva capaz de se alimentar do plástico / Crédito: Cecília Garcia

Aplicativo para leitura de cores para daltônicos

O estudante paulista Fábio Faúndes não enxerga variações entre as cores verde e vermelho. Ele faz parte dos 5% da população mundial que sofre de algum tipo de daltonismo, que é a incapacidade de diferenciar ou enxergar determinadas cores. 

A maioria dos aplicativos para pessoas com daltonismo é ineficaz ou caro. Então, Fábio juntou-se com os amigos Eduardo Porto e Luca Dillenburg para criar o Daltonik, aplicativo acessível que identifica cores e cria padrões geométricos para diferenciá-las. 

“Como daltônico eu vejo como o grupo a qual eu pertenço é esquecido. Através da ciência, podemos fazer aplicativos que consigam melhorar a experiência de vida das pessoas.  Quanto mais pessoas a gente conseguir trazer um conforto, superar o obstáculo, melhor será”, explica Fábio.

jovens criam aplicativo para jovens com daltonismo

Jovens paulistas criam aplicativo para ajudar pessoas com daltonismo à identificar cores / Crédito: Cecília Garcia

Planta nordestina combate bactérias resistentes à antibióticos

As jovens cariocas Yanne Soares Brito Gargalhone e Cristievelin Marques Marinho dedicam sua pesquisa a encontrar formas de combater às bactérias resistentes a antibióticos comuns. 

“Fazemos isso por meio da planta nordestina Amburana cearensis. O butanol da folha dessa planta já mostrou indícios de uma atividade modulatória que tira o mecanismo de defesa das bactérias, mas inofensiva para as células dos mamíferos”, explica Cristievelin. 

As cientistas estão prestes a firmar uma parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

meninas testam planta para diminuir a resistência de bactérias

Cientistas Yanne Soares Brito Gargalhone e Cristievelin Marques Marinho tentam driblar a resistência de bactérias a antibióticos / Crédito: Cecília Garcia

Lira – Realidade aumentada para pessoas com TDA

O Transtorno de Déficit de Atenção (TDA) afeta o cotidiano escolar de muitas crianças no Brasil. Os jovens Marconi Santos Ribeiro e Igor Lisboa Ramos, de Lauro de Freitas (BA), decidiram criar um experimento de realidade aumentada para tornar o aprendizado mais acessível e atraente para essa parcela da população. 

O Lira é um aplicativo que, quando posto acima de figuras criadas especialmente para ele, as aumenta por meio de inteligência 3D. A ideia partiu do conceito de simbolismo, do psicólogo Lev Vygotsky

“O conceito de simbolismo, entre as muitas teorias do Vygotsky, é de que é mais fácil para gente aprender por meio de associações com símbolos do que com conceitos abstratos. No nosso trabalho a gente tenta atribuir sempre qualquer conceito aprendido a um símbolo para que a criança possa acessar essa memória através dele. Fica mais simples”, relata Igor. 

jovens criam aplicativo de realidade aumentada

Estudantes Marconi Santos Ribeiro e Igor Lisboa Ramos apostam em realidade aumentada para ajudar na aprendizagem de crianças com TDA / Crédito: Cecília Garcia

Dessalinizador para introduzir agricultura no Amapá

Goiabal é uma comunidade há mais de 300 quilômetros de Macapá, capital do Amapá. Por ser banhada pelo rio Amazonas, mas também pelo mar, as águas da região são salobras, ou seja, uma mistura de doce ou salgada. Isso faz com que a agricultura não consiga se desenvolver na região, que sobrevive basicamente de pesca e turismo. 

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O jovem Caio Vinicius Lima de Souza decidiu criar um projeto de dessalinização da água para introduzir a agricultura na região como fonte de renda. Utilizando um maquinário de criação própria, a base de energia solar, o jovem conseguiu dessalinizar a água, além de também criar uma farinha de peixe seco como adubo natural. 

“A aplicação da ciência e tecnologia tem que ter sempre um papel voltado para o social. Eu encontro uma temática na sociedade e tento resolver. E eu acho que esse é o papel da ciência e da tecnologia: melhorar a vida de outras pessoas por meio da utilização dela.”

menino cria projeto de dessanilizar a água

Jovem cria processo de dessalinização  para levar agricultura a região do Amapá / Crédito: Cecília Garcia