Aprender na cidade

Encontro de Territórios Educativos da Cidade (SP) defende a escola como espaço de produção territorial

No dia 22 de janeiro, aconteceu o Encontro de Territórios Educativos da Cidade. Educadores, gestores e outros atores de diversas DRE (Diretoria Regional de Educação) se reuniram na EMEI Gabriel Prestes, escola no centro de São Paulo, para construir coletivamente ações que tornem a educação mais territorializada, emancipatória, democrática e participativa. 

Leia +: Crianças, educadores e famílias protestam contra privatização de terreno de escola em SP

“A ideia do encontro é ocupar a cidade, como já ocupamos os territórios onde nossos pés pisam e onde temos história. Não somos assistidos pelo poder público, mas com nossos braços e lutas diárias, insistimos, mostramos que estamos vivos e queremos construir uma cidade de verdade, onde se tenha plenos direitos”, declarou Solange Aparecida Cabrito de Amorim, supervisora escolar da DRE Campo Limpo.

Quem puxou o encontro foram projetos que integram gestão, currículo e território em diversos territórios da cidade, como o Território Educativo das Travessias, projeto integrado entre quatro escolas no centro da cidade; o Projeto Territorialidades da DRE Campo Limpo; e a Ação Supervisora Taipas/Jaraguá. e Butantã 

O disparador da mobilização, iniciada no fim do ano passado e com o desejo de se estender por todo ano letivo de 2020, foi o anúncio de venda de duas escolas municipais em São Paulo. Uma rápida mobilização entre escolas, estudantes e comunidade revogou o projeto de lei, mas acendeu um alerta para possíveis repetições e a reflexão de como são tencionadas as relações entre escola e cidade em um contexto ordenado pelo capital: 

“Se uma escola central é posta à venda, isso pode acontecer com qualquer escola em outros bairros; qualquer empresa pode ter interesse e se mobilizar para privatizar. Essa não é uma luta então exclusiva da EMEI Gabriel Prestes, e sim de todas as escolas”, adicionou João Kleber, diretor da escola homônima. 

encontro entre escolas educativas

Encontro aconteceu na EMEI Gabriel Prestes / Crédito: Cecília Garcia

Análise de conjuntura: escola como espaço de produção territorial

O encontro foi dividido em três partes: uma análise de conjuntura, com convidados para se pensar território, educação e direito à cidade; reunião das DRE, para que as escolas, equipamentos e outros setores pudessem se articular; e por fim uma plenária para entender como territórios podem se potencializar individualmente e depois se unir na criação de calendários comuns. 

Durante a análise de conjuntura, o geógrafo Eduardo Donizeti Girotto, que investiga as implicações socioespaciais do programa de ensino integral da cidade, defendeu a escola como espaço de produção territorial e de efetivação do direito à cidade

“Escola só se faz escola quando se reconhece parte do território. Quando ela entende que o projeto político pedagógico (PPP) é territorial. Meninos e meninas são sujeitos desse território. Quando entram pelo portão eles não deixam o território para fora, eles trazem a vivência, visões da cidade, violências que eles sofrem”.  

Girotto trouxe o recente exemplo da ocupação contra a privatização da escola Odotorico Tavares, em Salvador (BA), a quase venda das escolas em São Paulo e as ocupações dos secundaristas de 2015 como momentos que denunciam a necropolítica neoliberal que tem pautado as decisões no que tangem à educação e direito à cidade. 

Processos de territorialização coletivos são, para o arquiteto e urbanista Anderson Kazuo Nakano, uma alternativa ao conceito da lógica de condomínio, do psicanalista Christian Dunker

“A necropolítica, a eliminação do outro, está se expandindo na nossa vida social e nas nossas cidades. Os territórios educativos se contrapõem a essa tendência. A conjuntura urbana nos coloca o desafio de colocar o território como componente ativo dessa luta, em uma disputa não só por espaços, mas por outras possibilidades de vida e relações calcadas em outros valores que não os neoliberais e capitalistas”. 

Trazendo a discussão para o chão da escola, a doutora pela Faculdade de Educação da USP Iracema Santos do Nascimento relembrou aos e às presentes que, para a escola se reconhecer parte do território, é preciso quebrar com a lógica de processos individualizados. 

“É necessário superar a ideia de docência, da atividade educativa, do ato de educar, como uma tarefa individual. Durante a formação dos educadores, eles odeiam trabalhar em grupo, e ao invés de se propor uma medida de mitigação, se deixa estar. Aí formamos para a ação individual. São necessários coletivos de trabalhos nas escolas que envolvam docentes, gestores, familiares e estudantes”. 

movimento de ocupação de territórios

Ocupação secundarista é, para especialistas, uma mostra da força da juventude e da comunidade em criar uma melhor relação entre escola e território / Crédito: Portal Aprendiz

Agendas territoriais individuais e comuns 

Após a análise, as DRE presentes se reuniram para discutir como seus territórios podem trabalhar pela territorialização de suas escolas. Ao fim, uma plenária reuniu representantes dos territórios para discutir ações em comum: 

Solange explica que os territórios estão em tempos diferentes do reflexão, o que oportuniza diferentes ações em cada um deles: “A ideia é os territórios mobilizados aprofundarem seus planos de territorialização nas reuniões de organização e planejamento, garantindo a inscrição dos mesmos no redimensionamento dos PPPs e PEAs (Projeto Especial de Ação). Já os territórios que iniciarão essa discussão, a ideia é apresentar a proposta para as equipes”. 

PEA é um projeto especial de ação que os professores das escolas em jornada especial integral de formação realizam para aprofundar estudos e planos de intervenção sobre problemas educacionais das unidades.

A DRE Santo Amaro, por exemplo, está no processo de reconhecimento das potencialidades e saberes de seu território. Marcos Manoel dos Santos, diretor da EMEI Cruz e Souza, dividiu-as:

“É uma região que fica na divisa com as cidades do ABC, e isso implica uma história de lutas sociais – por que não incluir isso no currículo? Ela também têm a potencialidade das represas, é possível pensar como empreender um estudo das águas, da biodiversidade local. Por fim, há um enorme potencial do Jabaquara como território negro”. 

Já a DRE Pirituba, representada pela educadora Sandra Regina da Silva Brugnoli Bouças, da EMEF Professor Enzo Antônio Silvestrin, trouxe a ideia de um PPP do território. 

“Todo início de ano, fica forte a questão de olhar o PPP. A nossa proposta é que cada escola envolva a comunidade e os estudantes, tentando estabelecer essa rede do território, mapeando não só as características mas os equipamentos que podem trilhar esse caminho junto com a gente. Em seguida, o projeto prevê promover encontros entre as unidades, entendendo qual a demanda social das escolas, formalizando um PPP do território”. 

Como decisão em conjunto após o encontro, se formalizou a necessidade de que em alguns meses esses territórios se encontrem em uma mobilização comum, como explica Solange: 

“Fecharemos calendários locais com atividades conjuntas formativas, itinerâncias, mapeamentos das desigualdades e potências territoriais; no mês de junho realizaremos uma ação de cidade (o Ocupa Cidade) para colocar nas ruas a pauta da educação e do direito à cidade”. 

 

*Foto de capa por Vanessa Nicolav, do Brasil de Fato.