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Hanayrá Negreiros: roupas como dispositivo de memória, história e cultura negra

Cada peça de vestimenta de um praticante de candomblé contém uma infinitude de saberes negros. O turbante, por exemplo, usado na maioria dos terreiros: ele fala das influências muçulmanas nas indumentárias africanas; tem uma função litúrgica, que é proteger o ori (a cabeça), local sagrado onde habita a divindade e energia de cada indivíduo; ainda é possível determinar, pelos seus modos de amarração, há quanto tempo uma mulher é iniciada no terreiro. 

Leia +: Pedagogia das Encruzilhadas: por uma perspectiva afro-brasileira na educação.

Não são só as roupas religiosas que recontam narrativas negras: entre 1948 e 1963, o fotógrafo Seydou Keïta montou um estúdio de fotografia próximo da estação ferroviária em Bamako, no Mali. Durante quase duas décadas, fotografou uma juventude que com tecidos de intricado padrão geométrico e sobrancelhas depiladas combinava tradições de alfaiataria local com influências de outras modas africanas e europeias.  

uma das mulheres fotografas em intricados panos do fotógrafo seydou keita

Hanayrá Negreiros pesquisa as fotografias de Seydou Keïta no período entre 1948 e 1963 / Crédito: Acervo do artista

A pesquisadora Hanayrá Negreiros tem se dedicado a olhar para estas e outras indumentárias e como as roupas contam uma mais do que necessária narrativa de moda a partir de um olhar afrocentrado: 

Estamos pensando em histórias negras que sempre estiveram aí, mas que por conta da branquitude, do racismo institucional e da história, houve dificuldade de acesso a elas. Na minha trajetória como pesquisadora, tento trazer a importância dessas narrativas outras”.

foto de perfil da pesquisadora Hanayrá Negreiros

A pesquisadora e educadora Hanayrá Negreiros / Crédito: Felipe Torres

Neta de uma linhagem de costureiras e alfaiates paulistas e maranhenses, a também educadora ministra cursos sobre como a indumentária revela memórias e saberes sobre a cultura negra. Atualmente ela assina a curadoria da exposição Indumentárias Negras em Foco, em cartaz no IMS Paulista até o  01/03.

Em parceria com o Instituto Feira Preta, a exposição Indumentárias Negras em Foco é uma investigação sobre como os modos de vestir de algumas comunidades negras africanas e afro-brasileiras podem ser entendidos como formas de preservação cultural, expressão artística e identitária. Há fotografias de Seydou Keïta, Malick Sidibé, Pierre Verger entre outros.

 

Em entrevista ao Portal Aprendiz, a pesquisadora conta sobre o que conta uma vestimenta, quais saberes estão imbuídos nos fazeres de costura que acompanham a compulsória diáspora africana e como olhá-los descentraliza a sempre branca e européia perspectiva sobre sobre moda: 

Portal Aprendiz: Hanayrá, como você começa a se interessar por vestimentas e indumentárias negras? De onde vem esse olhar sensível para a moda? 

Hanayrá Negreiros: Demorou para cair a ficha do que eu gostava de fazer da vida, que é pesquisar e dar aulas – o que comecei a fazer em 2017. Mas a moda, vestimenta, costura, estão na minha família à gerações. Percebo hoje que meu interesse é herança de família. Ele vem de descobrir a história dela, de saber que sou neta de uma costureira por parte de mãe, e neta de um alfaiate maranhense que exerceu esse ofício por toda a vida. 

A partir do processo de ir atrás de documentação, de conversar com meus familiares e de juntar as memórias fragmentadas, percebo que é herança a questão de pensar as vestimentas enquanto dispositivos de história, cultura e memória. E memórias fragmentadas, por que no caso de minha família e de muitas outras famílias negras, a escravidão propiciou uma fragmentação das memórias, e olhar para moda é também reconstruir e reconstituir histórias. 

Malick Sidibé foto de casal dançando à noite

Malick Sidibé documentou a efervescência cultural em Mali, e em consequências, os costumes e vestimentas da época / Crédito: Acervo do artista

Portal Aprendiz: O que conta uma roupa, um brocado, uma vestimenta? Que saberes estão contidos em uma indumentária?

Hanayrá: A vestimenta conta tanta coisa! Primeiramente, ela conta a história de quem está fazendo a roupa, qual caminho que leva a pessoa a costurar. 

Na minha pesquisa de mestrado (Hanayrá pesquisou as vestimentas do Redandá, terreiro de candomblé angola no qual também é praticante), conversei com mulheres do terreiro que são responsáveis pela costura. Kuanza (Andreia Elias, equede* iniciada para Oxum e responsável pela costura de roupas de vários filhos de santo), fez a primeira roupa de santo bem pequena, observando sua mais velha costurar. 

* A função de uma equede é vestir os orixás, dançar com eles, cuidar deles, zelar por suas roupas e acessórios.

 Uma roupa conta de onde nós somos, espaços de memória, geográficos, a história da nossa família, da mãe e da avó. Saindo do campo religioso, a roupa conta de uma herança, a partir da feitura de um crochê, tricô ou bordado. Dá para identificar a região do Brasil só por conta de um bordado! Um bordado entremontes, por exemplo, que vem um vilarejo de Alagoas, conta história desse lugar. No Benim, tem a tradição de bordados que contam histórias de reis, e no tecido africano estão imbuídos mitos originários. 

Páginas do livro África: moda, cultura e tradição, de Maureen Bisilliat / Crédito: IMS Paulista

Páginas do livro África: moda, cultura e tradição, de Maureen Bisilliat / Crédito: IMS Paulista

Portal Aprendiz: Os saberes contidos nas roupas são mutáveis? Pensando o processo de formação do Brasil e suas culturas – a africana, a indígena e a ibérica – quando as vestimentas tocam outros territórios e culturas, elas se modificam?

Hanayrá: A moda é mutável por ser cultura. E cultura é mutável, muda com o tempo, inclusive com o encontro de culturas e saberes diferentes. 

Pensando em Brasis, na pluralidade que a gente tem em nossa nação e país, esses saberes vão se encontrando e misturando. Os saberes indígenas e o das populações negras se encontram há muito tempo, inclusive nesse lugar de subalternizados, de populações e culturas que estão no lugar de serem subjugados pela branquitude. Na religião isso fica bem explícito, e os caboclos são um símbolo desse encontro. 

Os saberes africanos de diversas partes vieram para cá; inclusive, se misturam às modas europeias. As indumentárias negras brasileiras são indumentárias criolas, porque criolo vem desse termo de ser algo negro brasileiro, não africano. 

Indumentárias de candomblé são criolas: temos o turbante, o pano da costa, que são influências africanas sobretudo do Oeste Africano; a saia rodada do candomblé tem diversas origens, mas dá para ver que tem muito das saias das sinhás brancas, e as mulheres negras que desenvolveram o candomblé na Bahia vestem essas roupas de estética europeia. Há uma subversão estética dessas mulheres, que usam as saias rodadas das mulheres brancas para dançar candomblé, ressignificando sua origem. 

Há mutações, há encontros. Não gosto tanto da palavra miscigenação, por achar violento. Acredito nesses hibridismos, encontros e trocas. 

fotografia de jim naughten

Roupas do etnia Herero, na Namíbia, dizendo do hibridismo de culturas que formam uma vestimenta / Crédito: Acervo do artista Jim Naughten

Portal Aprendiz: Como estudar e documentar as modas negras é realizar uma descentralização de olhar? O que se aprende quando se olha para essas fotos de uma perspectiva afro-brasileira e negra? 

Hanayrá: A palavra é justamente essa, descentralizar o olhar. Trazer novas narrativas, porque elas sempre estiveram aí. A importância de ouvir, de pensar, ver, sentir, enfim, essas indumentárias negras, essas maneiras de vestir, é para conhecer as histórias contidas nessas roupas, memórias e vestimentas negras, nas nossas formas negras de sentir. 

Estamos pensando em histórias negras que sempre estiveram aí, mas que por conta da branquitude, do racismo institucional e da história, houve dificuldade de acesso aos estudos dessas narrativas. 

Na minha trajetória como jovem pesquisadora, tento trazer a importância dessas outras narrativas. Minhas últimas experiências mostram como é importante ter uma professora negra ensinando e enunciando esse tipo de assunto. Muitos estudantes foram nos meus cursos presenciais e me contaram como foi importante aprender os conteúdos a partir de uma professora negra. Penso como teria sido diferente minha história se eu tivesse uma professora negra!

Pensar as narrativas negras como descentralização de olhar e na produção de conhecimento, ou seja, de quem faz essas roupas. Há uma transmissão de conhecimento a partir da feitura de designer, costureiros, estilos, histórias de famílias que são compartilhadas em outras memórias. É importante ter um estudo de história da moda afrocentrado, contando seu conteúdo à partir de moda afro-brasileira e modas africanas.  

Portal Aprendiz: O seu mestrado foi sobre as indumentárias em uma perspectiva religiosa, como a dos terreiros de candomblé. O que contam essas histórias no aspecto litúrgico, para além da cobertura do corpo?

Hanayrá: Eu fiz mestrado em Ciência da Religião. Foi um desafio, porque ciência da religião é um campo bem branco, masculino e cristão. Estudar religiosidade negra foi complicado e estudar roupa foi mais ainda. 

Fiz o mestrado estudando Redandá, um terreiro de nação angola. Pensar em indumentária é pensar em memória, sobretudo, o terreiro enquanto um quilombo e enquanto esse lugar de memória, na roupa, dança, comida, no saber das folhas. É, sobretudo, pensar nessa memória como uma produção coletiva. 

A comunidade se organiza e existem pessoas que possuem cargos da costura e da vestimenta. Conversando com as mulheres do Redandá, a feitura da roupa é um ato religioso. Tem uma expressão comum nos adeptos do candomblé que é “vestir o santo” (informação creditada ao professor Vagner Gonçalves), a divindade que está pronta para vir dançar, para vir compartilhar do axé com a comunidade. Esse corpo que é vestido passa a ser um templo que está pronto para receber a divindade. 

Cada corpo representa uma divindade, cada divindade tem uma textura e cor diferente. Essa roupa, pensar a indumentário, enfim, é pensar a composição do traje completo. Então a indumentária do candomblé significa que esse corpo passa a ser um templo. Não é só uma vestimenta, ela traz um significado.

fotografia pierre verger

Roupas no candomblé contém saberes e histórias / Crédito: Pierre Verger