Criar na cidade

Museu dos Meninos é acervo sensível sobre vidas de jovens negros cariocas

Murilo Leandro é barbeiro e narra seu ofício com a voz tímida; Cláudio Sampaio, de brincos cintilantes nas orelhas e aparelho nos dentes, fala dos desafios da paternidade; Hugo Dullanham compartilha sua jornada de autocuidado como homem trans. O que une os três é sua juventude e seu território: são todos moradores do Complexo do Alemão, um dos maiores conjuntos de favelas do Rio de Janeiro. 

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Estas e outras 27 histórias são as obras do Museu dos Meninos, um museu virtual formado pelas narrativas, pensamentos e sonhos de jovens negros e cariocas de 15 a 29 anos. 

“É um projeto transdisciplinar, que envolve audiovisual, performance e teatro. Um mapeamento e coleta de entrevistas na terra onde nasci e fui criado”, relata Maurício Lima, artista e criador do projeto.

Em 2016, quando se deparou durante a feitura de uma peça com a pesquisa Atlas da Violência, o artista viu condensadas em números as violações que vive cotidianamente: a mortalidade violenta de jovens negros no Brasil. O Museu dos Meninos nasce para celebrar narrativas de pulsão de vida: 

“Me veio a necessidade de criar um espaço onde a gente pudesse preservar essas narrativas enquanto vivas, porque só ganham visibilidade quando esses corpos são assassinados, quando  não podem contar sua história eles mesmos”. 

Os 30 depoimentos são também um contraponto ao museu como instituição de peças inanimadas ou espaços herméticos. Museu é também, como já afirma o conceito de museu e e próprio Maurício, um lugar de celebração das culturas vivas e de quem as produz: 

“Quis brincar com a desinstitucionalização do espaço museográfico, sempre tão engessado e antigo, usando elementos e palavras como espaço expográfico, coleção e curadoria”, adiciona. O museu virtual oferece três coleção de 10 depoimentos cada, curadas coletivamente por Maurício e os protagonistas dos vídeos. 

dia de produção do museu dos meninos

Todas as histórias foram coletadas num processo de autocuidado e abertura / Crédito: Museu dos meninos

Uma mesma laje, 30 futuros diferentes 

Para encontrar estes meninos, Maurício se debruçou nas lajes da infância vivida no Complexo do Alemão. Chamou amigos longevos e também propôs parcerias com organizações do terceiro setor do território, como a Oca dos Curumins, o Coletivo Papo Reto e o Educap

“Para cada um desses meninos, fiz uma pergunta única: o que é futuro? E para mim é importante apontar para este tempo, é um apontamento de vida. Tem 30 olhares da mesma laje olhando para futuros diferentes”. 

Há também uma unidade imagética nos vídeos: os jovens estão sentados em uma cadeira de barbearia. Maurício trouxe a iconografia para celebrar esses espaços de autocuidado e florescimento da autoestima do jovem negro nas periferias. “É o cuidado de um homem com outro homem. É um cuidado ancestral, cuidar do cabelo, cuidar da cabeça de alguma maneira”. 

Se Cláudio fala sobre a paternidade, se o Hugo fala sobre aceitação de ser quem é, é porque o diretor se preocupou no processo de curadoria coletiva em criar um espaço de acolhida para que cada um dissesse o que lhe importava, não partindo de um roteiro pré-estabelecido. As histórias são diversas, porque quem moram nas favelas também o é. 

“Não me importava muito contar a história de cada um deles porque em muitas abordagens midiáticas a ideia é sempre tratar o corpo negro como ‘preto superação’, como ‘olha se você estudar vai conseguir isso’. Me importava saber mais o que esses corpos pensam, como produzem pensamento!”, defende Maurício. “Me interessava muito mais acessar a subjetividade de cada um desses meninos a partir de questões que eram urgentes para cada um deles”. 

gravação para o depoimento do museu dos meninos

Embora divididam o mesmo território, cada jovem tem uma narrativa diferente para compartilhar / Crédito: Divulgação