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A escuta de crianças durante a quarentena

Caio* estava ansioso durante os dias iniciais da quarentena. O menino de 7 anos pedia para assistir todas as notícias sobre a epidemia de Covid-19 (novo coronavírus). Os pais, preocupados, pediram auxílio à Josiane Pareja, fundadora da escola Ateliê Carambola, onde Caio* estuda. 

A pedagoga aconselhou-os a escutar e conversar com a criança: após o diálogo, o menino expressou estar angustiado e que assistir ao noticiário era um jeito de pensar em formas de ajudar. 

Crianças sentem os efeitos do isolamento social de maneira diferente dos adultos. E como no caso de Caio*, elas nem sempre conseguem pôr em palavras a angústia, o medo e a incerteza. 

“A escuta de crianças pressupõe entender além de palavras as estratégias corporais que a criança usa. Ela faz uso do simbólico para expressar o que sente, outras vezes a agressividade para mostrar a angústia. Ao mesmo tempo, elas são ótimas leitoras emocionais e quando os adultos se desorganizam – como no caso da pandemia – a criança capta isso e vive isso junto com os adultos.”, explica Josiane. 

A escuta das crianças durante o isolamento social

Com a chegada do Covid-19 às cidades brasileiras, as medidas de isolamento social levaram ao fechamento de escolas públicas e privadas. Famílias das mais diferentes configurações se viram ante o desafio de cuidar integralmente de crianças e conciliar isto com outras múltiplas tarefas. 

“Muitas pais se perguntaram: como eu escuto uma criança que até então tinha um espaço de convivência com outras crianças, uma rotina pré-estabelecida? Quais atividades, enquanto família ou enquanto pessoa que convive com crianças, eu posso ativar?”, continua a pedagoga. 

Ainda para Josiane, a pandemia revelou como a escuta em muitas famílias está defasada e muitas vezes relegada a outros espaços de socialização: “As famílias não ativam não é porque não querem, é porque muitas vezes elas não sabem como. Vivemos o auge de terceirização de serviços com as crianças, e a escuta fica empobrecida.”

A pedagoga acredita que um primeiro passo é estar atento não somente às falas, mas também ao conjunto simbólico de gestos, brincadeiras e comportamentos das crianças durante este período: 

“Escutar as crianças no silêncio, escutar as crianças nas brincadeiras, nas angústias que vão ser representadas por agressividades, gritos, choros ou até no silêncio. É a escuta como metáfora da disponibilidade e da sensibilidade para escutar e também ser escutado. Porque para escutar meu filho e filha, também tenho que me escutar e reconhecer o que estou sentindo.”

A escola como facilitadora da escuta

Para a diretora da organização Avante – Educação e Mobilização Social, Maria Thereza Marcílio, este é um momento propício para que as escolas ajam como facilitadoras da escuta. Ao invés de tentar comprimir o conteúdo em aulas de educação a distância, elas podem usar a tecnologia para ajudar famílias a trabalharem a situação vivida: 

“O conteúdo é a vida. Se estamos enfrentando um desafio tão grande, a preocupação conteudista é secundária. É hora de manter o vínculo com as instituições, da escola se abrir, conversar com as crianças sobre o que estão sentindo. A escola também pode praticar a escuta com os educadores e com os pais, que também estão cheios de incerteza e precisando falar.”

A rede municipal de Tremembé, no interior de São Paulo, tem feito isso: as escolas promovem ações de escuta constante com o território e com as famílias, e são estes diálogos que determinam as atividades educacionais. No Ateliê Carambola, escola privada da capital paulista, diretora e educadores são um canal aberto para ajudar os pais, principalmente de crianças pequenas. 

“Seria importante terminar esta pandemia com um acervo de informações sobre as crianças, os pais e as famílias. Isso ajudaria a reformular um currículo para uma educação que fizesse sentido para eles. A pandemia deve ser um momento para a escuta”, finaliza Maria Thereza. 

 

*O nome da criança foi alterado para preservar sua identidade.