Criar na cidade

Museus e espaços culturais cumprem função social durante a pandemia

O isolamento social como medida para diminuir o contágio do Covid-19 (novo Coronavírus) obrigou o fechamento de museus e centros culturais em todo o Brasil. Espaços que dependem primordialmente de aglomerações e do encontro de pessoas tiveram que rever suas práticas e relação com o público. 

“Todas as instituições vão precisar reinventar sua forma de trabalhar, e nós, como instituições de cultura e produtoras de valores, também”, explana Felipe Arruda, diretor do núcleo de Cultura e Participação do Instituto Tomie Ohtake, equipamento de cultura localizado na zona oeste de São Paulo.

É pensando na reinvenção emergencial do papel social das instituições que museus e espaços culturais têm olhado para suas práticas diárias, conteúdos e também seus territórios, tencionando o que estava posto, abraçando a incerteza e o direito à reflexão. 

O Instituto Tomie Ohtake está em busca de patrocínio para 4 projetos em andamento: apoio à artistas nas produção de obras reflexivas sobre o momento; confecção de máscaras; edital para premiar e passar recursos à iniciativas de educação, cultura e comunicação em territórios vulneráveis; por fim, uma campanha informativa sobre violência doméstica feita por coletivos de artistas mulheres. É possível saber mais entrando em contato com o email: amigos@institutotomieohtake.org.br

A função reflexiva dos museus durante a pandemia

Ponto de encontro no bairro do Bom Retiro, no centro de São Paulo, a Casa do Povo pôs em pausa sua programação física e tem produzido conteúdos digitais que assumem e refletem sobre a incerteza da situação pandêmica. 

Desde o 16 de março, o espaço mantém a Programação Suspensa no Ar, convidando artistas, moradores do bairro e voluntários a escrever textos sobre como a pandemia alterou o cotidiano e o território: 

“A Casa do Povo é um lugar de encontro, e achamos que não fazia sentido transportar nossas atividades para o mundo online’’, explica Mônica Novaes, responsável pelo desenvolvimento institucional. “Os textos da programação suspensa no ar são reflexões sobre esta crise pandêmica e uma tentativa de espraiar novos futuros. É um exercício teórico, conceitual, intelectual e poético.” 

Para o Tomie Ohtake, a comunicação com seu público, mesmo à distância, fortalece a função reflexiva do museu. Desde o início do isolamento social, cursos, folderes de exposição e material educativo foram convertidos para o formato digital. 

“Estamos inundados por análises sanitárias, econômicas e políticas. Mas a arte e a cultura têm um papel fundamental neste momento que é a leitura subjetiva, e o papel das instituições que trabalham arte e cultura é olhar para isso.” 

O Instituto Tomie Ohtake migrou toda sua programação para o formato digital para manter a relação com seu público  / Crédito: Exposições Histórias Mestiças, no Instituto Tomie Ohtake

O Instituto Tomie Ohtake migrou toda sua programação para o formato digital para manter a relação com seu público / Crédito: Exposições Histórias Mestiças, no Instituto Tomie Ohtake

Já em Belo Horizonte, na comunidade do Morro do Papagaio, o Muquifu – Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos, optou por continuar sua comunicação com o entorno por meio do afeto. Utilizando a TV Muquifu, o museu social tem feito semanalmente uma leitura afetiva dos objetos que compõem o museu e que foram escolhidos junto com a comunidade. 

“É a história do Muquifu e das pessoas que participaram da construção que nos ajudam a distinguir quais histórias habitam essa comunidade, para além da pandemia”, conta Mauro Luiz da Silva, responsável pela curadoria. 

A Casa do Povo está com uma campanha virtual para arrecadar fundo para projetos sociais próximos, como as ONGS Mulheres da Luz e o coletivo É de Lei. É possível fazer doações nos sites da Benfeitoria.

A ação dos museus nos territórios 

O Bom Retiro abriga populações vulneráveis de imigrantes, pessoas em situação de rua e profissionais do sexo. Frente à pandemia, a Casa do Povo usou a hibridismo espacial do centro e a conexão territorial para angariar doações para o entorno. O prédio está sendo utilizado para abrigar os itens que serão distribuídos à comunidade. 

“A Casa do Povo, desde o momento zero, foi habitada por associações e coletivos do bairro e é assim até hoje. Faz sentido trabalhar nesta pequena escala que já é um universo complexo, carente, e com uma série de questões sociais”, explica Mônica Novaes. 

É possível ajudar o São Mateus em Movimento fazendo doações online no site da Benfeitoria.

O território também é base das ações do São Mateus em Movimento, coletivo e espaço cultural que atua na zona leste de São Paulo. Frente aos primeiros sinais de isolamento social, os artistas se mobilizaram para ajudar o território, com ações que vão desde  alugar um carro de som para levar informações aos locais até vender obras próprias para angariar fundos.

“Os espaços de cultura têm um papel social na pandemia. Desde o dia 17 de março nossa periferia está sofrendo com o impacto do isolamento social. Nossa campanha vem da premissa de que estamos juntos com a comunidade nos momentos bons, mas nos momentos ruins também”, finaliza Negotinho, um dos criadores do movimento. 

mulher segura compras em iniciativa da são mateus em movimento

São Mateus em Movimento tem atuado com a comunidade local / Crédito: Facebook da iniciativ
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